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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Gestores falam em ‘segunda onda’ de covid-19, enquanto primeira nem arrebentou

Alexandra Martins

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O Brasil é apontado como único país do mundo que flexibilizou a quarentena imposta pela pandemia do novo coronavírus sem ter passado antes pela fase de queda no número de casos confirmados e óbitos em decorrência da covid-19, com uma taxa média de adesão ao confinamento na faixa de 50% desde a segunda semana de março. Mesmo assim, no final de maio e início de junho, o comércio foi reaberto em várias capitais populosas do País com o discurso de que, inclusive, já estariam preparadas para uma eventual “segunda onda” de disseminação do SARS-COV-2.

Brasil entra na fase de reabertura sem que o número de casos tenha abaixado

Brasil entra na fase de reabertura sem que o número de casos tenha abaixado Foto: Felipe Rau

Segundo os cientistas ouvidos pelo BRP* para balanço dos últimos 90 dias sobre a doença no País, é desonesto falar em segunda onda quando nesta quarta-feira, 24, por exemplo, o Brasil registrava 1,1 milhão de casos e 52,7 mil mortes pelo novo coronavírus. Para eles, o pior está por vir, e mesmo que não venha, por uma ação até então desconhecida, a atual onda não parou ainda de subir. Há previsões de que, no final deste mês e início de julho, o patógeno possa matar uma média de 5 mil pessoas por dia caso ainda esteja em vigor a atual falta de centralidade das ações governamentais com parte da população disposta, por exemplo, a passear em shopping centers.

Ademais, a politização da pandemia no Brasil, vide o exemplo da cloroquina, a ausência de um titular no Ministério da Saúde e a falta de transparência do governo federal com as estatísticas da covid-19, é apontada como outro catalizador da performance desastrosa brasileira junto ao fato dos atrasos na transferência de recursos federais aos entes federativos diante da pandemia. O que deu certo, dizem, foi o isolamento social por salvar milhares de pessoas, mas que hoje já não é tão essencial assim para gestores públicos quando, nessa “encruzilhada”, setores da economia defendem a vida de seus negócios e parcela expressiva da população precisa ralar na rua para sobreviver.

“É uma tragédia humana e sanitária sem precedentes. Depois da invasão portuguesa em 1500, que dizimou a população indígena; depois do tráfico negreiro que dizimou milhões de negros, essa agora é a terceira tragédia. E pior é que ela vai esgarçar ainda mais nossas desigualdades sociais”, lamenta o médico Unaí Tupinambás, professor da Faculdade de Medicina da UFMG e integrante dos comitês de enfrentamento do novo coronavírus da instituição de ensino e da prefeitura de Belo Horizonte (MG).

A análise do médico Domingos Alves, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), que integra a equipe do Portal Covid-19, é tão sombria quanto à do colega mineiro enquanto cientistas que estão na linha de frente de combate ao novo vírus. “Estamos criando um abatedouro generalizado com um discurso de que temos de salvar a economia, que é uma coisa que também não vai acontecer”, resume.

Outra “falácia” apontada no balanço desse últimos 90 dias de pandemia é o discurso da chamada “imunidade de rebanho”. Vários negacionistas têm extrapolado na imprensa e nas redes sociais com o discurso de que é preciso liberar as pessoas para que se atinja logo uma imunidade abrangente da população na tentativa de frear a doença. Enquanto a epidemiologia clássica diz que entre 60% e 70% de contaminação poderia fazer uma patologia desaparecer, desde que ela apresente taxas baixas de mortalidade, o que não é o caso do SARS-COV-2, os terraplanistas do Brasil dizem que 25% já seriam suficientes para forçar o relaxamento total. Ciente do risco, a Organização Mundial da Saúde publicou um relatório em maio com críticas à essa ideia de passaporte imunológico, uma vez que no caminho para atingir essa taxa de imunidade, seja ela de 60% ou 25%, haveria um saldo de milhões de mortos.

“Não é um discurso que você espera para a saúde da população na tentativa de salvar vidas”, critica Alves.

*Este texto foi publicado na segunda-feira, 22, no relatório semanal do BRP chamado Fique de Olho.