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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Governo tenta, mas não convence com promessas contra desmatamento

Equipe BR Político

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Os esforços tardios do governo para mitigar o dano causado à imagem do País no exterior pelas taxas crescentes de desmatamento e a contínua negligência com a fiscalização ambiental não têm convencido governos, investidores e entidades ambientalistas de que o Brasil irá conseguir frear a devastação da Amazônia. Preso na narrativa de um governo que faz promessas para tentar controlar o estrago da imagem causada pela política ambiental vigente enquanto mantém o compromisso com uma agenda que pouco tem a ver com a preservação, o Brasil perdeu o “benefício da dúvida” e o último fio de confiança da comunidade internacional e ambientalista, avaliam especialistas.

Queimadas já se alastram na Amazônia, e expectativa é de mais devastação que em 2019

Queimadas já se alastram na Amazônia, e expectativa é de mais devastação que em 2019 Foto: Gabriela Biló/Estadão

“Há claramente em relação às últimas respostas dadas pelo governo brasileiro uma sensação de que a pressão que o Brasil recebeu em relação à sua política ambiental não tem surtido efeito”, afirmou ao BRP o professor Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação da Escola de Relações Internacionais da FGV.

No dia 22 de junho, 30 instituições financeiras internacionais enviaram uma carta ao governo brasileiro ameaçando a retirada de recursos do País caso o governo não detenha o desmatamento. Nos últimos dias, após reuniões com investidores e empresários, o governo, principalmente por meio do vice-presidente Hamilton Mourão, tem tentado passar a imagem de compromisso com a pauta. Apesar das falas públicas sobre o tema, ambientalistas e representantes internacionais têm a impressão de que são poucas as promessas concretas. Depois de participar dos encontros, questionado sobre quais serão as metas de redução do desmatamento, Mourão se resumiu a dizer que o governo tentará diminuir ao “mínimo aceitável”.

De acordo com o ex-ministro do Meio Ambiente e ex-embaixador Rubens Ricupero, a demora de uma reação da gestão, que desde a segunda metade do ano passado nega a gravidade da aceleração dos índices de desmatamento, minou a confiança de entidades internacionais na promessas brasileiras. “No final uma das pessoas que dialogaram com Mourão declarou que o que a comunidade internacional aguardava eram fatos, fatos e fatos. Palavras, promessas, políticas, anúncios, nada disso servirá de grande coisa”, afirmou. No entanto, o próprio vice já admitiu que resultados nos números não deverão ser vistos ainda neste ano.

Entidades ambientalistas também não têm comprado o discurso. “O que é apresentado não tem elementos concretos. A única coisa de fato concreta é a continuidade da GLO na Amazônia como a grande estratégia para combater o desmatamento, mas é uma estratégia que já se mostrou cara e ineficaz”, afirmou a porta-voz de políticas públicas do Greenpeace Luiza Lima. “A orientação clara do governo, e isso foi promessa de campanha do Bolsonaro, era que iria acabar o ministério do Meio Ambiente. Ele não fez isso, mas colocou uma pessoa para destruir por dentro”, disse.

A substituição da fiscalização de órgãos ambientais pelo Exército, avalia o antropólogo Rinaldo Arruda, presidente da ONG Operação Amazônia Nativa (Opan), não deve resolver o problema. “A desmontagem das instituições ambientais está chegando nos locais. Os bons técnicos estão sendo retirados”, afirma. “O exército tem uma visão geopolítica. Ele está assumindo um papel equivalente ao que militares estão assumindo no Ministério da Saúde. É gente que desconhece o campo, tem outro olhar e não tem a sensibilidade para saber o que fazer ali.”

Para alimentar ainda mais o ceticismo com as promessas brasileiras, depois das diversas coletivas de imprensa e reuniões coordenadas por Mourão, o presidente Jair Bolsonaro, do alto de seu isolamento no Palácio da Alvorada, voltou a bradar contra o discurso pela proteção do meio ambiente e resgatou o negacionismo em teorias sobre um complô internacional contra o Brasil sobre o tema na última quinta-feira, 16.

“Uma coisa é o Mourão, mas a verdade é que a causa da dificuldade é o Bolsonaro. As declarações do presidente são um desastre. O Salles ainda é o antiministro do Meio Ambiente e Bolsonaro disse que ele só sai se quiser do governo. Então você vê que a coisa vem de cima. O Salles não saiu. Os fatos todos que levaram a essa situação continuam”, afirmou Ricupero.

A presença de Ricardo Salles no governo e a manutenção das mudanças que extinguiram secretarias e desestruturaram e acuaram instituições de fiscalização, como o Ibama e o ICMBio, é outro impasse para que o Brasil retome alguma confiança no tema. Salles se tornou figura conhecida no exterior e não por um bom motivo: o ministro é visto como  representante de uma política de devastação da Amazônia. “Eu nunca vi um ministro específico de um governo brasileiro ter tanta visibilidade na Alemanha, por exemplo. Tem político importante alemão no parlamento falando do Ricardo Salles e citando aquela reunião ministerial. Uma vez que você chegou nesse ponto, de ter algo como um vilão de desenho animado, é irrecuperável”, afirmou Stuenkel. “A opinião entre investidores e governos só muda se mudarem os resultados, se houver uma percepção de que as coisas estão começando a surtir efeito e se o Salles deixar o governo.”

Impasse econômico

A falta de confiança internacional, que chegou ao seu cume e não dá sinais de arrefecer mesmo com as tentativas do governo, pode complicar as relações econômicas do Brasil daqui para frente. Além da ameaça de grandes investidores que gerenciam mais de US$ 3,7 trilhões de retirar recursos do País, as consequências econômicas da devastação amazônica também trazem problemas a empresas brasileiras que exportam e dificuldades em acordos com outros países.

Ricupero atenta para o dano à “marca Brasil” e suas consequências. “A coisa está tão grave que está afetando não só os produtos que vêm da Amazônia. Está afetando tudo que vem do Brasil. O consumidor na Europa quando vê que é do Brasil não quer comprar”, afirmou. Na percepção dos especialistas, empresas internacionais tenderão cada vez mais a evitar o produto brasileiro pelo risco da associação ao desmatamento. “Ainda que termine esse governo reconstruir isso vai demandar muito esforço.”

Os acordos que o País almejava firmar com países da Europa, como o de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, também correm risco de naufrágio. Segundo Stuenkel, devido à situação ambiental, que mobiliza governantes de países como a França e a Alemanha, o risco de não ratificação do acordo é grande. O autoboicote do governo brasileiro na questão chegou ao ponto em que governos europeus cogitam a possibilidade de Bolsonaro estar propositalmente bombardeando a ratificação do acordo, segundo o especialista, que tem interlocução com representantes europeus. “Algo que me impressionou foi a clareza com a qual analistas na Europa disseram que essas medidas para inglês ver tiveram um impacto negativo, porque ficou muito claro que não são respostas que vão fazer diferença”, disse.

A adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é outro pleito que deve naufragar com a recusa do governo ao comprometimento com o meio ambiente.

Na avaliação de Ricupero, que já foi ministro da Fazenda, as retaliações devem inclusive retardar planos de recuperação econômica. “Acho que de fato a coisa vai piorar muito. As consequências vão ser muito graves em investimento. Vamos ter uma situação de cada vez menos parceiros que se animem a comerciar ou assinar acordos com o Brasil”, afirmou. / Roberta Vassallo

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