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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Ibope ajuda a entender pulverização da esquerda em SP

Vera Magalhães

Um dos recortes da mais recente pesquisa Ibope para o Estadão, que mostra que um terço da população de São Paulo se diz antipetista, ajuda a explicar alguns acontecimentos desta campanha na capital paulistana: por que Fernando Haddad não quis se candidatar, resistindo a insistentes apelos da cúpula partidária; a dificuldade de Jilmar Tatto de crescer minimamente nas pesquisas e até em conseguir um vice; a pulverização de candidaturas à esquerda, e a opção dos demais candidatos deste campo de manter distância do PT e de Lula, como se viu no último debate. Vamos analisar isso, ponto a ponto, a partir do que mostra a pesquisa.

O Ibope mostra claramente que, hoje, a rejeição ao PT supera o percentual dos que apontam o partido como aquele de sua predileção. Isso só é um medidor importante no caso do PT, o único partido que, ao longo de três décadas de sua existência, conseguiu construir, para o bem e para o mal, uma identidade tão nítida dentro do grande espectro partidário brasileiro.

Tatto, candidato do PT: 1% no Ibope

São 36% os que dizem que não votariam de jeito nenhum num candidato do PT, três vezes mais que o PSDB, que vem em segundo com 12%. Já os que declaram ter o PT como partido de predileção são apenas 23%, percentual bem abaixo da média histórica sempre acima de 30%. Isso mostra as dificuldades de Tatto de crescer.

Haddad era o preferido de Lula, pois se acreditava que ele teria um recall importante tendo disputado a eleição presidencial. Mas o ex-prefeito percebeu que o mar não estava para petista. Ele perdeu em todas as zonas eleitorais em 2016, quando, mesmo estando no cargo, não foi nem ao segundo turno na disputa pela prefeitura. Dois anos depois, na eleição presidencial, levou uma surra de Jair Bolsonaro na cidade que governou: perdeu por 60,3% a 39,6% no segundo turno.

Assim, Haddad preferiu se guardar para 2022, como potencial nome do partido à Presidência, na esperança de que Bolsonaro esteja desgastado até lá e que Lula não esteja mais na situação atual, em que sua condição de condenado na Lava Jato obriga o candidato do PT a ficar atuando paralelamente como seu advogado de defesa, o que funciona como um espanta-eleitor.

Tatto mostrou que vai ter de pagar esse pedágio em sua fala final no debate da Band, quinta-feira, que destinou ao tributo obrigatório ao ex-presidente. O Ibope mostra o desastre dessa associação: o candidato do PT não passa de 1% nas intenções de voto.

Mesmo aliados históricos do PT, como Guilherme Boulos (PSOL) e Orlando Silva (PC do B), cujas próprias candidaturas já mostram a dificuldade de seguir acoplados ao partido que se quer hegemônico, fugiram da cruz de ter de ficar defendendo Lula e o petismo no debate. Boulos, que é sempre comparado ao ex-presidente, é seu amigo e visto por ele como um potencial sucessor do legado político, não citou o ex-presidente no programa da Band. Silva o fez, mas só quando questionado.