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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Identidade evangélica de Crivella não será ‘fiel da balança’ na eleição

Alexandra Martins

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A eleição municipal deste ano será o pleito “mais incerto da história do Rio de Janeiro”. Assim define a disputa a socióloga Christina Vital da Cunha, do Instituto de Estudos da Religião, da Universidade Federal Fluminense, ao BRP. Entre os motivos estão as restrições impostas pela pandemia do novo coronavírus às campanhas eleitorais e o envolvimento dos principais candidatos ao cargo em suspeitas de corrupção, como é o caso do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), favorito nas recentes pesquisas, e do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos). Nessa geleia geral inédita, uma das incógnitas da disputa municipal fluminense é o comportamento do eleitorado evangélico.

A expectativa é de que Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), tente manter esse setor do eleitorado e se aproveite da aproximação com o presidente Jair Bolsonaro. “As ações do Crivella não são para conquistar eleitores que não eram dele, mas de fidelizar a parte evangélica. Se não bastasse isso, outra estratégia é colar no Bolsonaro e vice-versa”, avalia o cientista político João Feres, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), da UERJ. O coordenador do Observatório do Legislativo Brasileiro acrescenta ao cálculo eleitoral as milícias. “Nós sabemos dos rumores dos contatos do clã Bolsonaro com as milícias, que há algum tempo fazem campanha constrangendo as pessoas. São eleitoralmente muito atuantes”, diz. Assim, tais forças somadas, o caminho ao segundo turno estaria mais facilitado para Crivella.

O comportamento eleitoral dos evangélicos foi objeto de recente pesquisa em São Paulo com dados das eleições presidenciais de 2002 a 2018. Seu autor, o cientista político Victor Araújo, do Centro de Estudos da Metrópole, da USP, apontou que o voto da população mais pobre do País não é mais guiado majoritariamente pela dimensão econômica em decorrência da influência que recebe das lideranças evangélicas pentecostais.

O pesquisador comparou as tendências de votos dos católicos; dos evangélicos tradicionais, que incluem as igrejas protestantes históricas, como metodistas, batistas, presbiterianos, anglicanos e congregacionais; e dos pentecostais, que englobam as igrejas Assembleia de Deus, Cristã do Brasil, Deus é Amor, Brasil para Cristo e Quadrangular. Araújo constatou que os neopentecostais, da IURD, Igreja Mundial do poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo, têm menor apelo às questões morais e mais a questões econômicas.

Segundo o estudo, a variante de renda perdeu espaço para temas de ordem moral considerados mais prioritários para os evangélicos pentecostais, fazendo com que os mais pobres não votem em partidos de esquerda associados a pautas redistributivas. Um dos maiores líderes pentecostais do País é Silas Malafaia. Não se pode esperar, no entanto, que haja o mesmo comportamento na eleição municipal do Rio de Janeiro.

Christina reforça que a correlação de forças com o Judiciário ativo afasta o entendimento de que a identidade evangélica do atual prefeito, no entanto, será o fiel da balança na disputa. Tende a favorecê-lo, mas é preciso aguardar o andar da carruagem para arriscar palpites. Leia abaixo a íntegra da entrevista com a professora.

BRP – Qual análise pode ser feita sobre as eleições municipais no Rio de Janeiro neste ano?

Christina Vital da Cunha – Em primeiro lugar é preciso dizer que essas eleições serão absolutamente diferentes no Rio em razão da pandemia e a perda relativa da campanha corpo a corpo, pela redução no tempo regular da campanha depois da reforma política em 2018 e pela quantidade impressionante de políticos presos nas operações da Polícia Federal no Rio de Janeiro e outras sob investigação da Lava Jato. Isso mudou a correlação de forças. Houve um sentimento difuso de arrependimento com a eleição de Witzel. Uma ressaca foi experimentada por muitos que apostaram em uma aura que lhe recobria tanto como juiz quanto como ADE – um tipo de político que se apresenta próximo de evangélicos, confundem os eleitores para se aproximarem dessas bases, mas é católico e investe em paralelo na aproximação pública com seus principais lideres políticos.

Isso também aconteceu com Bolsonaro. Com esse arrependimento havia uma expectativa sobre a candidatura de Eduardo Paes entre segmentos de direita e entre uma gama de pessoas que simpatizavam com a esquerda e centro esquerda. Com o rearranjo produzido por essas ações na Justiça e com a prisão de tantos, até o discurso de combate à corrupção deve perder centralidade na campanha. Ao menos neste mainstream político, visto que há prisões e indiciamentos de fio a pavio. Em pleitos curtos como os que passamos a ter desde 2018, os candidatos mais conhecidos tendem a ser favorecidos.

BRP – Qual pode ser o peso do eleitorado evangélico nas eleições do Rio?

Tudo ainda vai depender muito de como os cartolas evangélicos (líderes e políticos evangélicos de projeção local e nacional) vão se comportar. A importância política deles nas eleições desde 1989 só vem crescendo. A questão é que em 2018 o discurso anticorrupção foi muito forte entre estes líderes no apoio a Bolsonaro e a Witzel aqui no Rio. Agora, com tantos candidatos envolvidos em escândalos de corrupção, vamos ver como vão mobilizar as suas bases.

Vale lembrar que desde o escândalo das sanguessugas, nos anos 2000, evangélicos e também católicos engajados vêm sendo progressivamente atingidos por operações policiais: pastores da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), Pastor Everaldo, o vice de Witzel, Witzel, Crivella, Eduardo Cunha, Flávio Bolsonaro, Garotinho…. a lista é grande. Crivella tende a se favorecer, caso a Justiça não inviabilize sua participação na campanha nestes dias. Em primeiro lugar porque todo candidato à reeleição historicamente se favoreceu disso: da máquina pública e da visibilidade. Em segundo lugar pela proximidade política que vem tentando estabelecer com a Presidência da República neste ano.

Ou seja, a identidade evangélica do candidato não será o fiel da balança, como não foi em nenhuma eleição majoritária no Brasil republicano. Com isso quero dizer que em 2016 não foi sua vinculação religiosa que o levou à vitória. Pelo contrário, ele se candidatava a cargos majoritários desde 2010 no Rio e sua identidade religiosa era justamente o “problema” a ser superado. Novamente uma correlação de forças deve ser analisada.

Qual a principal motivação do voto desse setor? Questão moral ou econômica?

Nas candidaturas proporcionais (para vereador, no caso destas eleições), as relações de proximidade territorial, social e religiosa tendem a ter um peso relativo maior na decisão do voto, embora qualquer analista responsável saiba que essa dinâmica é selvagem no sentido de não seguir um rumo previsto do início ao fim. As pessoas mudam muito suas escolhas ao longo do processo. Para as candidaturas majoritárias, o peso do discurso conservador continuará sendo importante nas eleições.

Devemos lembrar que conservadores compõem a maioria do segmento católico e evangélico e há muitas candidaturas com esse perfil concorrendo no Rio. Em termos muito gerais, há uma insatisfação crescente em relação à globalização, ao cosmopolitismo. A crítica a isso vem de segmentos diversos. Um sentimento de insegurança moral se apresentou em escala global e as religiões, em sua maioria, defensoras de padrões morais tradicionais, tenderam a ser um espaço importante na produção de segurança moral no contexto contemporâneo.

Junte-se a isso outros elementos que compõem a esfera religiosa como produção de sociabilidade, redes de proteção material e espiritual. Digo isso tudo para olharmos com uma compreensão maior para essa questão da religião na política e não meramente como um jogo de cartas marcadas, como uma relação promíscua. Estamos, de fato em um contexto global de reação ao avanço de liberdade e garantias de direitos, por um lado, e por outro, de crítica à ciência como única produtora de verdade, da globalização e seus impactos em termos políticos e dos costumes. E até mesmo da supremacia branca e da dominação de elites em cada contexto.

Nas eleições municipais do Rio de Janeiro, essas questões da moral vão aparecer sim, mas abastecendo outras agendas como a econômica e da segurança. A agenda moral abastece a econômica, não é oposta a ela como vimos em pronunciamentos sobre a força da família ter impacto social e econômico positivo porque, na medida em que ela funciona, o restante da sociedade funcionaria trazendo ganhos econômicos claros.

Qual dos pré-candidatos têm mais probabilidade de ser recompensado com o voto desse setor?

Muito indefinido como falei acima, mas Crivella sai favorecido, em um primeiro momento.

Qual seria a influência do presidente sobre o segmento evangélico?

Bolsonaro se valeu deste segmento ativando recursos narrativos e estéticos que o tornaram simpático entre evangélicos, além das alianças que estava costurando desde 2016 com líderes nacionais. O apoio dele a qualquer das candidaturas pode favorecê-la, sendo ou não evangélica.  A questão do conservadorismo popular enérgico não envolve somente evangélicos. Mas tem neste grupo um número expressivo de simpatizantes porque são estes os principais atores nas camadas C e D, aquelas que mais são afinadas com a ideia de um salvador (humano e divino), que mais são afetadas pela crise econômica e pela falta de segurança e cuidado urbano.