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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Imagem do Brasil ‘vai retardar qualquer plano de recuperação da economia’, diz Ricupero

Equipe BR Político

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Com a imagem do Brasil derretendo no exterior ao passo que os índices de desmatamento na Amazônia se agravam, o País deve enfrentar consequências econômicas graves num futuro não tão distante, avalia o ex-embaixador Rubens Ricupero, que já foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente e hoje é diretor da FAAP. Nesta semana, mais um capítulo da contenda que tem perseguido o Planalto em torno do desmatamento da Amazônia veio à tona com o envio de uma carta por mais de 500 servidores do Ibama alertando que o Brasil está prestes a registrar um novo recorde de devastação e que isso é reflexo da gestão do governo.

O documento reforça a visão externa de que, apesar dos discursos do governo, que colocou o vice-presidente Hamilton Mourão à frente do esforço para atenuar a pressão internacional, a gestão do presidente Jair Bolsonaro não tem real compromisso com a pauta ambiental e que as promessas não devem sair do campo das palavras. Para o ex-embaixador, a não ser que o governo dê uma sinalização mais forte, como o afastamento do minsitro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ou diminua rapidamente os índices de devastação, a comunidade internacional não deve arrefecer as inquietudes quanto ao Brasil e deve ainda intensificar as “condenações” ao País por meio da economia. “Muito do que se faz aqui agora é o que se fazia na época em que a Inglaterra pressionava o Brasil para acabar com o tráfico de escravos”, avalia.

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e Itália Rubens Ricupero

O ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e Itália Rubens Ricupero Foto: Werther Santana/Estadão

Leia a seguir entrevista concedida pelo ex-embaixador ao BRP.

BRP – Como a comunidade internacional entendeu os movimentos do governo em relação ao desmatamento?

Rubens Ricupero – Se resume numa simples frase: as pessoas vão aguardar os resultados. Foi o que aconteceu no final daquele diálogo com os representantes de fundos de investimento estrangeiros que publicaram a carta de advertência ao Brasil. O general Mourão adotou uma atitude mais defensiva, não querendo tanto assumir a responsabilidade, mas falou nas ações contra as queimadas. No final uma das pessoas que dialogaram com ele declarou que o que a comunidade internacional aguardava eram fatos, fatos e fatos. Eu acho que essa frase define tudo. Palavras, promessas, políticas, anúncios, nada disso serve de grande coisa se não forem seguidos por fatos concretos que revelem resultados. E como o próprio Mourão admitiu, o governo começou a reagir com muito atraso, depois de um ano e meio. Portanto, não há resultado. 

A tomada de dianteira do vice-presidente Hamilton Mourão para ‘apagar o fogo’ pode mitigar os danos?

Há um ceticismo grande, sobretudo na comunidade ambientalista. Porque uma coisa é o Mourão, mas a verdade é que a causa da dificuldade é o Bolsonaro. Ele é que é o problema. As declarações do presidente são um desastre. Ele disse que a Europa era uma seita ideológica e nega completamente. O único ponto de acordo entre o Mourão e o Bolsonaro é a declaração de que vai se fazer alguma coisa. Todo o resto é diferente.

A origem disso é o próprio Bolsonaro e isso desde a campanha. Antes de tomar posse ele queria acabar com o Ministério do Meio Ambiente. O número de declarações que ele fez revelando, não só insensibilidade, mas até hostilidade ao tema, dá para encher um livro. E daí decorre uma porção de coisas. Por exemplo não mudou nada do quadro que ele colocou com a nomeação do Salles. O Salles ainda é o antiministro do Meio Ambiente. Bolsonaro até disse que o Salles só sai se quiser do governo. Então você vê que a coisa vem de cima. Os fatos todos que levaram a essa situação continuam. Muito do que se faz aqui agora é o que se fazia na época em que a Inglaterra pressionava o Brasil para acabar com o tráfico de escravos. São declarações para inglês ver. Infelizmente a tendência aqui não é promissora.

Quais são os efeitos práticos dessa falta de confiança para o Brasil?

As consequências vão ser muito graves em investimento. Acho que vai retardar muito qualquer plano de recuperação da economia, porque na medida que isso dependa de recursos de fora, vai haver uma decepção. Eu acho que de fato a coisa vai piorar muito. A coisa está tão grave que está afetando não só os produtos que vêm da Amazônia. Está afetando aquilo que se poderia chamar de marca Brasil. Já houve manifestações de importadores de frutas em relação à maçã de Santa Catarina. O consumidor na Europa quando vê que a maçã é do Brasil não quer comprar. E ainda que termine esse governo reconstruir isso vai demandar muito esforço.

O acordo do Mercosul com a UE eu duvido muito que saia. O presidente francês já declarou que é contra e ele é uma das maiores lideranças europeias. A não ser que ele mude, está morto. Nos Estados Unidos os deputados democratas que controlam a comissão de orçamento da Câmara, que é chave para autorizar acordos comerciais, já mandaram uma carta ao ministério do comércio exterior de lá dizendo claramente que se opõem a qualquer acordo ou facilitação de comércio com o Brasil por causa do meio ambiente, povos indígenas e direitos trabalhistas. Agora a China suspendeu importação de frigoríficos (por conta da covid-19), mas há declarações dos diretores das grandes tradings chinesas que a partir de agora eles vão começar a fazer a traçabilidade da origem da soja. É geral. E se nas eleições americanas houver vitória do Biden, como parece provável, a situação com o Brasil vai ficar difícil, porque ele tem um compromisso muito grande com a agenda verde.

Mesmo com atraso, o governo conseguiria reverter a situação?

Quando Salles tomou posse, uma das primeiras ações que ele fez foi suprimir uma das principais secretarias do ministério que era a de combate à mudança climática. Nela estava situado o departamento encarregado de combater as queimadas da Amazônia, que tinha técnicos do Ibama com décadas de experiência. Ele afastou todos os fiscais treinados, há pouco tempo recebeu ordem do Bolsonaro e demitiu dois diretores de fiscalização. Nenhuma dessas ações foi revertida. E isso era fácil o governo fazer. O que o Mourão alega e por isso que eu também sou cético, é que é difícil, que eles vão começar agora, mas tudo isso que falei, se fosse sincero, o governo poderia fazer de hoje para amanhã. Podia afastar o Salles, colocar um outro ministro comprometido com o meio ambiente, recriar a secretaria com o departamento de combate aos incêndios, poderia chamar de volta os fiscais que foram afastados.

Por que ele não faz? Por uma razão que o Salles, num momento até de sinceridade, declarou, numa emissão da Globonews, na época em que o governo demitiu Ricardo Galvão do Inpe: “Vocês têm que admitir que o presidente foi eleito com 100% de apoio dos madeireiros, dos mineradores do ouro, dos pecuaristas da Amazônia.” É tudo gente ligada a ele e é isso mesmo, é verdade. É por isso que não muda, porque ele está ligado aos criminosos que promovem essas ações e quando reage é apenas por causa da ameaça internacional de consequências de investimento e de comércio. 

O afastamento de Salles ajudaria?

Depende de como fizer a troca. Por exemplo no Ministério da Saúde colocaram um general com mais 20 militares. Se for para fazer isso é melhor não fazer. Teria que ser uma troca que se inserisse numa mudança geral da política. Teria que restabelecer os cortes feitos ao ministério do Meio Ambiente. Não é só o nome de quem vai ser o ministro. Tem que voltar a ter o que tinha antes e adotar atitudes que este governo não vai adotar nunca. Não há como acreditar que vai mudar. Acho que teria que haver um milagre ou se aqui a situação ficar tão preta que não tenha outro jeito. /Roberta Vassallo

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