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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

‘Impacto do auxílio emergencial é chave para eleições’

Equipe BR Político

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Finalizadas as convenções partidárias que definiram as candidaturas à eleição municipal, as forças políticas no cenário fragmentado que permeia as campanhas municipais começam a se desenhar. Até o dia 26 os partidos devem registrar seus candidatos e se preparar para o início da propaganda eleitoral, no dia 27. Para o cientista político da FGV Cláudio Couto, esta eleição deve representar o “último suspiro” do sistema partidário atual. 

De acordo com o especialista, o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro, que tem recuperado sua popularidade, deve ter papel importante nas disputas municipais, principalmente no Nordeste, a depender de como o auxílio emergencial continuará afetando a percepção sobre o presidente. Na esquerda, novas forças tomam a dianteira com um PT que chega sem o apoio, em muitas capitais, de antigos aliados. O partido corre inclusive o risco de ter um candidato “cristianizado” em São Paulo e desempenho pífio na capital em que tem historicamente presença forte nas eleições, segundo Couto. Ao BRP, o cientista político analisou as tendências das disputas e as características políticas que devem influenciar a eleição deste ano. 

O coordenador do mestrado em políticas públicas da FGV-EAESP Cláudio Couto

O coordenador do mestrado em políticas públicas da FGV-EAESP Cláudio Couto Foto: TV Estadão

Leia a íntegra da entrevista concedida:

BRP – Quais são as principais características do desenho das eleições deste ano?

Cláudio Couto – Será a primeira eleição em muito tempo em que não terão coligações proporcionais. Isso já tem produzido uma mudança grande na estratégia dos partidos e dos candidatos. Partidos que em outras circunstâncias não lançariam candidatos majoritários nesta eleição lançam, porque percebem a possibilidade de um nome que atraia votos para a bancada legislativa. 

Esta também seja talvez a última eleição em que teremos um grande número de partidos concorrendo na disputa municipal para cargos majoritários. Ao meu ver a tendência é que para 2022 já ocorram fusões e federações partidárias de modo a reduzir esse número, inclusive porque os partidos já vão calcular a questão da formação das suas bancadas no Congresso e quanto eles terão de dinheiro do fundo partidário. Essas fusões partidárias podem ser importantes para as eleições daqui dois anos, mas nesta a gente ainda pode ter o último suspiro da lógica do sistema atual com os partidos lançando o maior número de candidatos possível para ver se conseguem sobreviver um pouco mais.

Também é uma eleição municipal em que o presidente da República não tem partido formal, ele tem possíveis aliados em diversos partidos espalhados pelo País. Então uma coisa importante vai ser saber como o presidente se posiciona. Se a gente fosse falar um mês e meio atrás, talvez o presidente fosse um passivo para a eleição, porque a popularidade dele era declinante. Só que agora a popularidade dele sobe de novo. Algum tempo atrás talvez fosse o caso de se afastar dele. Com essa recuperação pode ser exatamente o contrário, pode ser o caso de se aproximar. Agora é também importante acompanhar como ficará essa questão até o dia da eleição considerando que há uma redução do auxílio emergencial. 

Como a pandemia afeta a campanha e o pleito?

A principal mudança é que a campanha vai acontecer muito mais no mundo virtual do que nas ruas. E aí claro que isso faz muita diferença pela tradição que se tem de fazer campanha, ainda por cima a municipal, que é justamente aquela que acontece no lugar, no território mais próximo das pessoas. Se a gente for pensar, por exemplo, em uma campanha presidencial ou para governador, até pela dimensão do território, é natural que ela aconteça de uma forma mais distante. Não é o caso das eleições municipais tradicionalmente, mas vai ser este ano.

Quais serão as peculiaridades regionais na disputa municipal?

A novidade e grande mudança que teve foi o crescimento de Bolsonaro no Nordeste, onde ele sempre apresentou índices de popularidade mais baixos, o que significa que talvez o voto em candidatos bolsonaristas na região pode ser um fator importante nas eleições. Mas dependerá do que ocorrer nos próximos dois meses com o auxílio emergencial. A questão é chave para essas eleições. Se eu tivesse que falar qual é o fator de curto prazo mais impactante no processo eleitoral é a maneira como o auxílio emergencial e agora a sua redução vai afetar o processo.

As recentes operações no Rio de Janeiro que atingiram os dois candidatos mais fortes ao pleito, Eduardo Paes e Marcelo Crivella, balançam o cenário da eleição na capital fluminense? 

O que isso fez foi empatar o jogo entre os dois principais concorrentes. Então nada fica tão diferente daquilo que víamos recentemente. Agora acho que há uma situação por trás que ainda precisa ser melhor compreendida que é saber até que ponto as polícias federais e judiciários estão sendo instrumentalizados por grupos partidários. Isso é uma possibilidade que os dois episódios sugerem, mas é preciso mais informações.

Em São Paulo, a última pesquisa de intenção de voto, do Instituto Atlas, mostrou um cenário ainda embolado entre os primeiros candidatos. Qual a tendência com o início da campanha na cidade?

O cenário montado é de um prefeito que é o candidato mais forte hoje, Celso Russomano que deve ser o candidato de Bolsonaro e uma fragmentação da esquerda com o PT numa fragilidade inédita em relação à sua performance no município. O PT e PCdoB são partidos que foram sempre aliados nos últimos anos, mas por conta da mudança de regra de coligações o PCdoB tem que correr em raia própria. Isso para além de um afastamento que já vinha ocorrendo entre os dois partidos depois das eleições de 2018. Nota-se isso claramente no Congresso, o PCdoB se aproximando muito mais do PSB, PDT, outros partidos da oposição. Isso acontece também em São Paulo e aí você tem além dessas candidaturas a do PSOL.

Hoje a candidatura mais forte no campo da esquerda não é nem do PT nem do PCdoB, é a do PSOL com Boulos, que está obtendo o apoio inclusive se uma série de figuras públicas vinculadas ao petismo. A gente pode dizer que talvez o Jilmar Tatto vá passar pelo processo chamado na política brasileira de “cristianização”, quando um candidato é abandonado pelo seu próprio partido e as pessoas do seu partido vão apoiar o candidato de outra sigla concebido como mais forte do que ele. Isso tudo começa lá com Cristiano Machado disputando pelo PSD contra o Getúlio Vargas em 1950. Cristiano é abandonado, o pessoal corre para o lado do Getúlio e daí vem o termo cristianização. O Jilmar Tatto corre um risco fortíssimo de ser um candidato cristianizado nesta eleição e aí consequentemente do PT ter talvez o seu pior desempenho histórico na cidade de São Paulo. O PT sempre foi um partido competitivo em São Paulo. Ficou pelo menos em terceiro lugar desde a primeira eleição direta pós-ditadura e sempre foi um dos dois grandes atores na política paulistana. Ao que parece não será neste ano e essa é uma imensa novidade. /Roberta Vassallo