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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Isolamento frouxo e abertura apressada prolongam quarentena no Brasil

Equipe BR Político

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O Brasil está prestes a completar 90 dias de quarentena em função da covid-19. É o País em que a curva de transmissão do novo coronavírus mais demora a ceder, em razão de uma combinação explosiva de fatores: quantidade insuficiente de testes, subnotificação crônica, regras de distanciamento social frouxas, confusas, desconjuntadas entre vários Estados ou até mesmo dentro dos mesmos Estados, comportamento irresponsável do governo federal, que o tempo todo agiu contra a ideia de isolamento, miséria acentuada, desigualdade social, falta de condições de saneamento e habitação e pressão política para a reabertura antes da hora.

Reabertura do comércio de rua em São Paulo Foto: Werther Santana/Estadão

Cada um à sua maneira, esses fatores agravaram o quadro e fazem do Brasil o exemplo de tudo de ruim que o mundo apresentou em termos de enfrentamento da pandemia. Você pode achar países que incorreram em um ou em alguns dos erros descritos no primeiro parágrafo. Mas dificilmente haverá nações que tenham feito tudo isso num intervalo tão curto.

Além dessa sucessão de erros, neste fim de semana que passou o Ministério da Saúde, que é ocupado hoje por um general interinamente depois da demissão de dois ministros médicos, resolveu acrescentar falta de transparência de dados à tragédia: retirou do ar o site que traz o balanço diário de casos, casos suspeitos, mortes e recuperações, substituindo-o por uma tabela simples. Isso depois de passar a retardar o horário da divulgação diária de números da covid-19.

Os primeiros resultados da reabertura desordenada do comércio já começam a aparecer, e eles não são bons. No Distrito Federal, local que pelas características de pequena extensão territorial, renda elevada no Plano Piloto e maior possibilidade de isolamento, com a paralisação de serviços como o Congresso, vinha conseguindo controlar bem a disseminação do novo coronavírus, o entorno de Brasília viu subirem de forma alarmante os casos. Tanto que o governador, Ibaneis Rocha (MDB), soltou um decreto no fim de semana fechando tudo em cidades-satélites como Ceilândia, das mais pobres do DF.

Nesta semana, São Paulo reabriu shoppings e comércios de rua. Transporte público lotado, filas para entrar em lojas e aglomeração foram as imagens da Capital nos últimos dias. Serviços como concessionárias de veículos (as montadoras foram um dos setores industriais mais impactados pela pandemia, daí a pressão econômica) também voltaram a funcionar. Há uma queda de braço entre as cidades da Grande São Paulo e o governo do Estado, opondo até políticos aliados ao governador João Doria (PSDB). De acordo com o Sistema de Monitoramento Inteligente do Governo de São Paulo, o isolamento social entre terça e quarta-feira ficou em 47% e 46%, respectivamente.

Tanto Doria quanto seus secretários e prefeitos têm dito que, aos primeiros sinais de novas elevações no número de internações e óbitos a economia pode ser fechada de novo. A que custo? Pode ser o do colapso de um sistema de saúde que teve uma meritória expansão de leitos ou de muito mais desgaste político que a manutenção do distanciamento por mais tempo, como recomendam epidemiologistas e virologistas.

“Fazemos tão poucos testes e já estamos nos piores casos de subida que os Estados Unidos, com 30 mil casos por dia. Enquanto eles detectam isso com milhões de testes. Com certeza nossos números de casos e mortos serão piores que os deles”, analisou o biólogo Átila Iamarino.

Ele também chamou a atenção que sem monitorar e controlar os casos é impossível afirmar com certeza quando será o tão aguardado pico da doença. “Se não controlar, é montanha acima, e o teto é bem alto”, escreveu ele no Twitter, diante da tendência de vários Estados de fazer a reabertura mesmo sem achatar a curva.

No Nordeste, o cientista Miguel Nicolelis, coordenador científico do consórcio de Estados da região para o controle da covid-19, alertou na semana passada para a interiorização da pandemia. Por isso ele tem alertado que é um risco interromper o isolamento social nas capitais, pois muitas dessas cidades do interior não têm estrutura hospitalar para comportar o aumento de casos.

Causa e consequência

Algumas cidades e Estados que optaram pelo relaxamento das medidas de restrição têm apresentado aumento no número de casos e óbitos pela covid-19. Em Santa Catarina, por exemplo, a reabertura do comércio ocorreu em 13 de abril. Um mês e 13 dias depois, em 26 de maio, o Estado registrou o maior número diário de mortes desde o início da pandemia: foram 12 em 24 horas. Após a flexibilização da quarentena, o Estado pulou de 26 mortes e 826 casos em 13 de abril para 10.532 casos e 156 óbitos até a última sexta-feira, 5.

A cidade de Blumenau, por exemplo, ganhou projeção nacional ao mais que dobrar o número de casos após a reabertura do comércio. Havia 68 casos e nenhuma morte em 13 de abril, quando houve a flexibilização. Passados 15 dias, foram registrados 177 pacientes, uma alta de 160%. Até a última sexta, a cidade tinha 843 casos confirmados e três óbitos.

Em Florianópolis, o prefeito Gean Loureiro (sem partido) tem demonstrado maior cautela na reabertura da economia na cidade. A flexibilização tem sido feita após, em média, 10 dias depois da retomada no Estado. “Qualquer flexibilização tem reflexo de duas a três semanas nos números do contágio. O que precisamos nos atentar é se o município estará preparado para isso. Se vai conseguir ter capacidade para investigar os casos suspeitos com agilidade, ter testes suficientes e isolar confirmados rapidamente”, destaca.

Já em Belo Horizonte, na semana passada, após verificar um aumento nos casos, o processo de flexibilização gradual foi interrompido. A reabertura do comércio na capital começou no dia 25 de maio e vai ocorrer em quatro etapas. A alegação para frear a reabertura foi de que o interior de Minas Gerais já passa por “situação extremamente grave” em relação à covid-19.

Quando a reabertura do comércio foi anunciada, o Estado tinha 8.686 casos confirmados e 255 óbitos. Onze dias depois, em 5 de junho, Minas registrava 5.309 casos a mais, um total de 13.995 pacientes com covid-19. No período, foram contabilizados 89 óbitos a mais, chegando a 344. Na semana passada, o Estado registrou ao menos dois dias com aumento de mais de mil casos de covid em 24h.

Na cidade de Betim, na Grande BH, após 42 dias da flexibilização, shoppings e academias voltaram a fechar as portas na última quarta-feira, 3. O aumento dos casos da covid-19 motivou a decisão da administração municipal. Dados da Secretaria Estadual de indicam 129 doentes e seis mortes pelo novo coronavírus na cidade. Além dos shoppings e academias, bares e restaurantes também foram abertos em 22 de abril, no entanto, após o registro da primeira morte, em 30 de abril, os bares e restaurantes foram fechados novamente. / Cássia Miranda e Vera Magalhães

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