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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Leão Serva: Nas redes sociais que o elegeram, acabou Bolsonaro

Vera Magalhães

Em artigo escrito especialmente para o BRPolítico, o diretor de Jornalismo da TV Cultura, Leão Serva, analisa a evolução da crise política decorrente da pandemia de coronavírus e que mina a popularidade do presidente Jair Bolsonaro.

Leão Serva, especial para o BR Político

Anote essa data: 16 de março de 2020. Naquela segunda-feira, a maré virou contra o presidente Bolsonaro nas mídias sociais e no mundo real. “Acabou, Bolsonaro, você não é mais presidente”, disse um desconhecido rapaz identificado como imigrante haitiano.

O jeito monocórdico e contido com que se manifestou em torno de 22h, quando o presidente chegava em casa, não diminuiu o efeito bombástico do que revelou, deixando sem reação o Capitão: “Você está contaminando o povo brasileiro com vírus”.

Jair Bolsonaro acostumou-se a disparar impropérios, sem respostas, naquele mesmo lugar, diante do cercadinho em que diariamente misturam-se jornalistas e uma claque de apoiadores e aduladores. Mas, naquele momento, um improvável haitiano revelou o que muitos viam mas ninguém tinha tido oportunidade de dizer: Bolsonaro está nu.

Em poucas horas, o vídeo da cena viralizou e ocupou, com três hashtags, os primeiros lugares entre os assuntos mais comentados do Twitter: #AcabouBolsonaro; #VocêNãoÉmaisPresidente e #Haitiano.

Uma acanhada hashtag #respeiteopresidente tentava defender Bolsonaro mas, no meio da madrugada, também foi possuída por inúmeras respostas do tipo “respeitem p… nenhuma…” e mais críticas ao comportamento do presidente.

A onda já começou a se formar antes, talvez desde os primeiros dias de governo, quando Bolsonaro passou a queimar diariamente os créditos acumulados durante a campanha eleitoral.

Como é normal nas democracias, o presidente foi eleito por uma coligação de votos favoráveis, segundo as pesquisas, uma menor parte de apaixonados e uma faria maior de eleitores que o engoliram como opção ao PT.

Esses votos foram somados pelo espírito do tempo contra o petismo que dominou o País pode 14 anos. Mas desde o início do governo, o presidente agiu como se todos os votos fossem para sempre seus. Passou a torturar, para usar um verbo a seu gosto, o bom tom, a boa educação, a lógica, a verdade.

O resultado foi a virada que o haitiano, as hashtags e as panelas anunciaram.

Nada teve o efeito tão destrutivo para o esfarelamento da popularidade presidencial quanto a forma abusada com que ele afrontou os cuidados recomendados diante da epidemia que abala a saúde e a economia de todo o planeta.

Ao rir e fazer selfies com apoiadores no domingo, Bolsonaro sorriu diante da morte. E isso se revelou inaceitável. Certamente o efeito negativo foi agravado pelo anúncio da primeira vítima fatal do coronavírus no Brasil, já na terça-feira. Poucas horas depois, um movimento espontâneo anunciou em som metálico, em várias cidades, o que o haitiano dissera 24 horas antes: #AcabouBolsonaro. A maré das redes sociais virou. O som das panelas, que anunciou a queda de Dilma, prenuncia tempos difíceis para o Presidente.

É melhor “Jair se acostumar”: o presidente improvisou correndo uma coletiva para tentar dar uma resposta à altura da gravidade da epidemia e da onda contrária na opinião pública. Mas a dificuldade de lidar com a cena e de adequar-se à liturgia da função traíram a tentativa: mal se viu diante de uma pergunta jornalística sobre a óbvia mudança de postura, o Cavalão voltou a dar coices.

Política, dizem, é como as nuvens: em um instante tudo muda. E pode mudar novamente. Mas neste momento, percebe-se um novo zeitgeist. O haitiano encarnou a voz da consciência nacional bestificada: #AcabouBolsonaro.

Leão Serva é diretor de Jornalismo da TV Cultura. Foi colunista e secretário de Redação da Folha, diretor de Redação do portal IG e secretário de Imprensa da Prefeitura de São Paulo (2005-2008). É autor de diversos livros, entre eles Jornalismo e Desinformação (2001).