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por Marcelo de Moraes

Lotufo sobre plano de vacinação: ‘Foi uma decisão sem critérios sociais’

Equipe BR Político

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O epidemiologista e professor de Medicina da USP, Paulo Lotufo, discordou dos critérios do plano nacional de vacinação da covid-19 do Ministério da Saúde, em entrevista a João Prata do Estadão.

Paulo Lotufo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Discordo muito desse plano. Quem está tendo maior carga de doença são as pessoas dos grandes centros, que estão se locomovendo. O pessoal do transporte, que nem foi lembrado, as forças de segurança, o pessoal que cuida de infraestrutura e todos envolvidos na cadeia alimentar, desde a granja até o “cara” do iFood. Ninguém foi incluído como prioritário.

O critério por idade é desnecessário porque essas pessoas estão isoladas. Quem está sendo atingido é quem está saindo. A questão da população indígena é só para mostrar que são preocupados. Foi como previsto, uma decisão sem critérios sociais, que deveria ser primordial em uma pandemia. As diferenças por raça e renda persistirão. Foi uma decisão muito parecida com a da Alemanha. Acho que só o CDC (Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) tem posição melhor. Lá eles priorizarão socialmente.

A mortalidade aqui no Brasil está muito alta entre os mais pobres e, dentro desse índice, tem a população negra. Isso acontece porque eles têm os piores trabalhos. O CDC pensou dessa maneira.

A cadeia alimentar também não foi pensada. Tinha de ter pensado no cara que trabalha no frigorífico do Sul do País ao sujeito que vai em casa fazer a entrega. É fundamental manter a distribuição da alimentação.

Ainda não há previsão de quando toda a população será vacinada. Eles (Ministério da Saúde) não sabem. Nem tem como saber. Ninguém sabe quantas doses devem ter. Falam em 109 milhões, mas não sabem quanto vão ter de vacina.

O que gostei é que descartaram a vacina da Pfizer inicialmente. Sobre a Pfizer, ou vende tudo agora ou ninguém vai comprar, porque é uma vacina que precisa de baixa temperatura. A vacina da Moderna tem se mostrado tão eficaz quanto e vai dispensar essa cadeia de frio.

Falam em professores na terceira fase, há uma preocupação com a educação. Mas o que temos de tomar cuidado é o que vai acontecer quando começar a vacinação dessa maneira. Por exemplo, o que são trabalhadores da saúde? O porteiro de empresa terceirizada da UBS (Unidade Básica de Saúde)que pega condução todo dia para trabalhar ou um professor de Medicina que vai de carro para dar aula? Sou um professor, um profissional da saúde, mas não estou na linha de frente. Não deveria ser incluído como profissional da saúde. Vai aparecer um monte de gente que tem carteirinha ligada à saúde para ter prioridade. É só ver o que aconteceu no pedido do auxílio emergencial.”