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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Maioria apoia ação do STF e rechaça papel ‘moderador’ dos militares

Vera Magalhães

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O presidente Jair Bolsonaro passou a última semana estranhamente calado. Foi o mais longo período de dias em que o chefe do Executivo não criou nenhuma crise com os demais Poderes nem insuflou seus apoiadores contra as instituições. A semana do “caladão” de Bolsonaro veio depois de alguns fatos que assustaram o presidente e os apoiadores:

O presidente Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro Foto: Adriano Machado/Reuters

  • O STF validou, por 10 votos a 1, o inquérito das fake news;
  • O mesmo STF prendeu militantes bolsonaristas extremistas, como Sara Winter e outros integrantes de seu grupo, no bojo de outro inquérito;
  • Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro metido no esquema das rachadinhas e com ligações com as milícias, foi preso no sítio em Atibaia do então advogado de Flávio, Frederick Wassef;
  • Bolsonaro submergiu para tentar arrumar a retaguarda num momento em que tudo parecia confluir para a inviabilidade do governo. Não se sabe se conseguiu. Mesmo o discurso anti-Supremo refluiu por parte do presidente, que não hesitou em rifar até o ministro da Educação, Abraham Weintraub, para tentar restabelecer alguma ponte.

Pois pesquisa do Ideia Big Data feita para o BRPolítico mostra que o apoio da maioria dos entrevistados, nesta queda de braço, é ao Supremo, e não ao discurso do presidente de que o Judiciário tenta um “golpe” para apeá-lo do poder.

Também não encontra adesão na sociedade, de acordo com o levantamento do instituto, o discurso que Bolsonaro e seus ministros usaram à exaustão até duas semanas atrás, mas que também aposentaram por ora, na fase “paz e amor, não se sabe até quando”, segundo o qual as Forças Armadas teriam algo como um poder moderador para arbitrar conflitos entre os Poderes — sendo que elas nem Poder são, de acordo com a Constituição.

Vamos aos dados: o Ideia Big Data ouviu 1.515 pessoas entre os dias 17 e 24 deste mês. Na primeira questão, o instituto mostrou que Bolsonaro vem se queixando de algumas decisões do Supremo, que, segundo ele, ferem a autonomia do Executivo. Para 56% dos ouvidos, o STF está certo em regular atos que podem ser considerados abusivos por parte do Executivo. Outros 29% avaliam que Bolsonaro está certo e que o STF teria se excedido em algumas decisões.

Para 60% dos entrevistados, o inquérito das fake news “é necessário e está dentro do que prevê a lei”. Outros 19% acham que ele é abusivo e fere a lei.

Por fim, o Ideia questionou os entrevistados sobre o papel das Forças Armadas. Foram 60% os que opinaram que não é papel dos militares atuarem como poder moderador, “protegendo” o presidente de abusos do STF. Outros 21% disseram que sim, este é o papel das Forças Armadas.

A segmentação da pesquisa do Ideia mostra que a falta de apoio a Bolsonaro nessas questões é sempre maior que a média entre entrevistados de alta renda e alta escolaridade, público no qual a erosão da avaliação do presidente é maior, de acordo com levantamentos de vários institutos.

O Datafolha, no último final de semana, mostrou apoio de 75% à democracia, maior índice desde que o instituto aufere esse indicador, em 1989. Desde dezembro, o percentual dos que manifestam apoio à democracia subiu de 67% para 75%, num sinal da relevância que a defesa da democracia adquiriu diante das manifestações antidemocráticas apoiadas por Bolsonaro, por integrantes de seu governo e apoiadores.

O apoio captado pela pesquisa do Ideia ao Judiciário, juntamente com a rejeição ao papel de mediador das Forças Armadas, dialoga com esse dado. No Datafolha, 78% também opinaram que sim, o regime militar que vigorou de 1964 a 1985 foi uma ditadura.

O apoio maciço às instituições e à democracia coincide com o surgimento de vários momentos em defesa desses pilares, organizados por entidades, partidos políticos, veículos de imprensa e expoentes da sociedade civil.