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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Mandetta sobre reaberturas pelo Brasil: ‘Jogaram a toalha’

Gustavo Zucchi

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O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta vê de longe a curva de casos de coronavírus crescer e as medidas de isolamento social serem cada vez mais relaxadas. E aponta que este não é o melhor caminho. Exonerado da pasta por discordâncias com o presidente Jair Bolsonaro, Mandetta diz que o ministério “perdeu a credibilidade” necessária para liderar o Brasil em meio à crise do coronavírus. Enquanto isso, diz que cidades e Estados fazem um “voo no escuro” entre o crescimento de casos e a pressão para que a atividade econômica seja retomada. Veja abaixo os principais trechos da entrevista publicada originalmente no relatório semanal Fique de Olho:

Mandetta durante coletiva de imprensa no último dia 2 de abril. Foto: Isac Nóbrega/PR

BRPolítico – O Brasil chegou a mais de 50 mil mortos e 1 milhão de infectados por coronavírus. Eram números esperados no Ministério da Saúde no início da pandemia?
Mandetta – Tínhamos diferentes cenários de média distância para início da pandemia. Mas, por mais que ficássemos tentados em adotar um cenário, nunca, nem eu nem a minha equipe externou quais eram os cenários que nós trabalhávamos. O governo sabia, a Casa Civil sabia, o presidente sabia e nós procuramos trabalhar para que isso não ocorresse em respeito à vida das pessoas.

Mesmo assim, 50 mil mortes é um número preocupante? Em especial devido à tendência de crescimento da curva?
Isso que é o mais preocupante. Não é o número do dia. É a tendência dos números para frente. Porque o que estamos vivendo agora é diferente do que outros locais do Brasil estão vivendo. Quando falamos de epidemia no Brasil, você tem que esperar acabar a última cidade. Agora o que você tem é a epidemia em diferentes momentos, em diferentes cidades brasileiras. Em Manaus, nosso pior desempenho, morreu muita gente. Nosso melhor desempenho em termos de atendimento, crescimento do sistema, foi São Paulo, com quase 7 mil leitos abertos. Nessa semana estamos com o Rio Grande do Norte com 100% dos leitos ocupados, sem capacidade de responder. Temos Minas Gerais caminhando a passos largos para uma situação de esgotamento da capacidade de atendimento. Estamos só no começo dos casos com mais velocidade no Centro-Oeste, tanto em Goiás quanto no Mato Grosso. E também na Região Sul, com Porto Alegre começando a mostrar que vai precisar usar toda sua capacidade instalada. Então a gente vê 50 mil e poucos casos, mas antevê que a gente ainda vai ter um bom tempo pela frente.

Nesse momento muitos governadores e prefeitos começam a tomar medidas de retomada da atividade econômica. É muito cedo para pensar nisso?
Têm alguns casos totalmente sem noção, sem números, sem nada. Jogaram a toalha. Como é o caso do Rio de Janeiro, que não tem a União, não tem governo do Estado. O município comete movimentos bruscos: abre futebol, fecha futebol, por exemplo. O Rio é uma cidade que tem muito contato físico por causa de sua geografia. Temos uma situação na cidade de São Paulo que claramente mostra uma diminuição no número de casos. Não sabemos se essa movimentação vai permanecer, se vai acontecer uma nova onda. Vamos ter que observar e aguardar para ver o interior do Estado, que claramente está em ascensão e com inúmeras situações de incoerência. Enfim, temos um País onde cada local vive uma realidade. Qualquer que seja o movimento que esses governadores e prefeitos fizerem, tem que medir diariamente, de manhã e de noite, e se perceber que os leitos são insuficientes para velocidade de transmissão, tem que fazer medidas restritivas sobre pena de você ter morte por desassistência.

Faltou o lockdown?
No início, a gente teve um isolamento social muito de colaboração da população. Foi o período que o sistema de saúde se utilizou para comprar os equipamentos de proteção individual. Esse foi o primeiro movimento. Depois, na hora que tinha que aumentar a intensidade do isolamento, fazer uma transição, nesse momento se perdeu a credibilidade do Ministério da Saúde. Era quem poderia dar essa credibilidade. O ministério saiu de cena e passou a ser um País que não tem uma voz, que não tem o poder moderador da União. Aí passamos a fazer um voo no escuro.

O ministério tem como retomar essa credibilidade?
Ele não consegue. Você trocar o ministro em meio a uma pandemia é muito ruim. Mas não existe ninguém insubstituível. Desde que quem entrar sabia respeitar o trabalho dos técnicos do segundo e terceiro escalões. Infelizmente, eles trocaram o ministro e resolveram trocar todos os secretários nacionais. Substituímos essa gente toda por pessoas de outra área. Botamos militares, mas poderíamos ter colocado jogadores de futebol, físicos nucleares ou professores. Eles não teriam o conhecimento para poder administrar a complexidade dessa crise. A primeira ação desse novo Ministério da Saúde foi jogar os números para 22h e dizer que não iria mais divulgar os números. Algo que teve que ser rechaçado pela sociedade, teve ordem de juiz do Supremo para a divulgação dos números. Totalmente sem credibilidade.

No começo da pandemia o senhor dizia que teríamos o pico em junho, julho, com melhora em agosto. Essa previsão ainda vale?
O que eu disse é que teríamos 20 semanas muito duras pela frente. Nós calculamos que levaria cinco meses para cidades brasileiras passarem por isso. Então quando chegasse no final para avaliar como foi a pandemia no Brasil, imaginávamos um gráfico aumentando e crescendo nos meses de abril, maio, junho e julho. Na segunda quinzena de julho, tendência de platô. E começar a queda em agosto para terminar essa queda em setembro. Isso era como a gente imaginava. Mas, como todos os cenários que você faz, você tem números variáveis. Dependeria muito, por exemplo, se aparecesse uma medicação mais eficaz, se aparece um teste mais eficaz. Se tivéssemos a sociedade brasileira toda unida em torno de um objetivo único, que fosse reduzir a curva. E que tivéssemos uma boa capacidade de juntar nosso povo sobre uma liderança nacional e tivéssemos um espírito de solidariedade construído por todos, que não fosse uma epidemia política. Se fosse uma coisa baseada no respeito à vida. Mas não há respeito ao Sistema Único de Saúde (SUS). Não há respeito à ciência. Acho que teríamos um resultado que poderíamos realmente nos orgulhar. O que nós temos hoje é um resultado que nós ainda podemos ter um certo orgulho. Porque o SUS é o grande vencedor. É o SUS que está lutando com a força que ele tem para fazer que a pessoa que lá em Sapopemba tenha acesso a um leito hospitalar na cidade de São Paulo.