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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Marina: ‘Bolsonaro não defendeu interesse do País, apenas do seu governo’

Marcelo de Moraes

Marina Silva criticou duramente o discurso feito nesta terça, 24,  por Jair Bolsonaro na 74ª Assembleia-Geral da ONU. Para a líder da Rede, a fala do presidente foi recheada “de meias verdades e negação de verdades inteiras”. Na sua avaliação, o tom adotado por Bolsonaro passou longe de representar a defesa dos interesses do Brasil. Para ela, o que presidente quis foi defender o próprio governo.

A ex-ministra Marina Silva durante entrevista à agência EFE, em Quito (Equador)

A ex-ministra Marina Silva durante entrevista. Foto: José Jácome/EFE

“O discurso de Bolsonaro, recheado de meias verdades e negação de verdades inteiras, sendo proferido direto da ONU, tem um potencial enorme de produzir um efeito ainda mais nefasto para a imagem do Brasil no exterior: uma vergonha globalizada”, escreveu Marina na sua conta do Twitter.

“Bolsonaro não defendeu os interesses do País, apenas os do seu governo, como se estivesse discursando para os seus apoiadores. Como garoto-propaganda, tentou vender uma imagem do Brasil que não condiz com a realidade implementada por seu governo”, criticou a ex-ministra do Meio Ambiente, que disputou e perdeu a última eleição presidencial contra Bolsonaro.

Ligada historicamente à defesa do meio ambiente e das questões indígenas, Marina rebateu as falas feitas por Bolsonaro sobre o assunto. “O presidente insiste reiteradamente na sua estratégia de ataques. Disse na ONU que a imagem negativa do País no exterior é resultado do sensacionalismo da mídia nacional e internacional, como se pudesse existir democracia sem imprensa livre e independente. Bolsonaro atacou os povos indígenas ao contestar a liderança do Cacique Raoni, como se fosse peça de manobra de governos estrangeiros, e sugeriu o absurdo de que as queimadas na Amazônia podem ter sido causadas pelos índios e populações locais”, afirmou.

“Bolsonaro repetiu que estava ali para restabelecer a verdade, mas fez um discurso recheado de meias-verdades. Um “disfarce de boas intenções”, pra usar suas próprias palavras, que não se sustenta no minuto seguinte da sua própria fala. Quando o presidente disse que “somos um dos países que mais protege o meio ambiente”, celebrou, sem nem perceber, o que foi feito em gestões anteriores. Mas em uma clara tentativa pra tentar ocultar o desmonte que o seu governo promove sistematicamente”, disse.

Marina lamentou que o presidente também não tenha tratado abertamente sobre a crise climática, desperdiçando a chance de falar sobre o assunto numa ocasião especial. “Obviamente, a grave crise climática que estamos vivendo só apareceu no discurso de Bolsonaro em uma menção pífia e telegráfica. Um silenciamento típico do obscurantismo que toma conta do seu governo”.

Para a ex-ministra, Bolsonaro não deveria usar o discurso da “soberania do País” como argumento para relativizar a proteção ambiental. “A soberania do País é imperativa e não pode ser relativizada, mas não pode ser usada como uma licença irresponsável do governo para deixar de proteger nosso patrimônio natural, os povos indígenas e a maior floresta tropical do mundo. O presidente repetiu tragicamente uma velha fórmula. Tentou negar o que acontece no Brasil, como se a comunidade internacional não tivesse acesso à verdade. Não deu certo na década de 70, quando os militares tentaram esconder a tortura. Imagina agora”, concluiu.