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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Meta de escritório em Jerusalém é mais ‘ideológica’ que comercial

Equipe BR Político

O escritório brasileiro em Jerusalém, anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro em março, será inaugurado no próximo domingo, 15. O movimento recupera as discussões sobre a transferência da embaixada do Brasil em Israel  de Tel-Aviv para a cidade.

Apesar de ter status de escritório comercial para cooperação econômica entre os países, de acordo com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), responsável pelo controle da representação comercial, especialistas em relações internacionais ouvidos pelo BRP afirmam que a criação da representação tem motivação exclusivamente ideológica.

Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu em visita do presidente a Israel em março Foto: Alan Santos/PR

Nesta sexta-feira, 13, Bolsonaro afirmou que seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), já está em Jerusalém para a inauguração. “Está ao lado do Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel). Estamos inaugurando um escritório de negócios da Apex em Jerusalém, então nós acreditamos em Deus e estamos buscando o melhor para o País”, disse o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada.

Classificado por Eduardo como o primeiro passo para uma futura transferência da embaixada, o escritório foi anunciado no início do ano, após tensão com países árabes contrários à intenção do governo federal de mudar a embaixada, seguindo o entendimento de que Jerusalém seria a capital de Israel. Depois do estresse em torno da questão, o presidente Jair Bolsonaro reconheceu que pode ter sido precipitado prometer a troca. “Eu fiz uma promessa de campanha, tá, e, obviamente, eu vi depois a dificuldade, não é uma coisa tão simples assim”, afirmou em abril à TV Record.

A Liga dos Estados Árabes, composta por 22 países, é importante parceiro comercial do Brasil e foi destino de 4,8% da exportações brasileiras em 2018. “O status de Jerusalém é um tema sensível para os países muçulmanos, não é só uma questão de retórica. De acordo com os próprios negociadores palestinos, é uma questão que pode travar negociações”, afirma a especialista em Oriente Médio e coordenadora acadêmica e de projetos do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, Monique Goldfeld.

O escritório, segundo a Apex, atuará para promover negócios e oportunidades para o Brasil e não terá status diplomático. No entanto, de acordo com o coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Michel Gherman, e Monique, a criação da representação não traz vantagem econômica significativa para o Brasil. “Para Israel, que vende tecnologia e está em conflito constante com o mundo árabe, o Brasil se apresenta como um parceiro importante. Mas olhando para o outro lado do jogo, o Brasil está agindo a partir de uma lógica ideologizada das relações internacionais. Os interesses econômicos são menos importantes, o que importa é a demonstração para o público interno de uma aproximação com Israel”, afirma Michel. 

A representação funcionará no edifício Jerusalem Gati Business Center em um sistema de coworking e terá três funcionários, a analista comercial da Apex Camila Torres Meyer, há 12 anos na agência, e outros dois que serão contratados em Israel, de acordo com o órgão do Ministério das Relações Exteriores. Pelo espaço, o governo brasileiro pagará US$ 1.600 por mês. “O foco é fortalecer a parceria com Israel nos temas de inovação e tecnologia, já que Israel é reconhecido por ser muito forte nesse segmento. O país produz mais startups de tecnologia do que qualquer outro país do mundo, com exceção dos Estados Unidos”, afirmou a assessoria da agência. 

Ainda em abril, durante visita a Israel e depois de anunciar o escritório, Bolsonaro afirmou que tomará uma decisão sobre a mudança da embaixada antes de terminar seu mandato. “Eu tenho o compromisso, mas meu mandato vai até 2022, tá ok?”, afirmou na ocasião. Em 6 de dezembro, Eduardo compartilhou uma entrevista em seu canal no YouTube a um veículo de Israel em que diz que a transferência da embaixada vai ocorrer, “talvez”, no ano que vem. 

A abertura do escritório traz de novo à tona toda a polêmica religiosa, política e econômica que envolve o assunto. “Nas relações internacionais as perspectivas de instabilidade são importantes. A ideia de que a criação do escritório é o primeiro passo para uma coisa mais séria pode criar um momento de instabilidade. Um parceiro econômico que deixa de ser parceiro político geralmente prefere se afastar das relações econômicas.” / Roberta Vassallo, especial para o BRP