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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Ministério alerta para ‘aceleração descontrolada’ da covid-19 no DF e mais 4 Estados

Cassia Miranda

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A luz de alerta foi acesa desde a última sexta-feira, 3, para o Distrito Federal (DF) e outros quatro Estados: Amazonas (AM), Ceará (CE), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), em relação ao novo coronavírus. De acordo com boletim epidemiológico emitido pelo Ministério da Saúde, apesar de a transmissão do vírus estar ainda em estágio inicial no País, a alta incidência de casos nessas cinco unidades federativas indica uma transição para fase de aceleração descontrolada nesses locais. Ou seja, eles serão os primeiros a passar para a segunda fase epidêmica.

Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo

Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo Foto: Felipe Rau/Estadão

No documento, a pasta chefiada por Luiz Henrique Mandetta faz uma revisão da trajetória do vírus e admite gargalos diante de uma possível fase aguda da epidemia, como a falta de testes e leitos suficientes. A avaliação do ministério é de que, em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Amazonas e no Distrito Federal, a taxa de incidência já fica acima da nacional, de 4,3 casos por 100 mil habitantes

“Considerando as fases epidêmicas (epidemia localizada, aceleração descontrolada, desaceleração e controle), na maior parte dos municípios a transmissão está ocorrendo de modo restrito. No entanto, considerando o Coeficiente de Incidência nacional de 4,3 casos por 100.000 habitantes, é preocupante a situação do Distrito Federal (13,2/100 mil) e dos Estados de São Paulo (9,7/100 mil), Ceará (6,8/100 mil), Rio de Janeiro e Amazonas (6,2/100 mil) que apresentam os maiores coeficientes”, aponta o documento. A partir disso, a avaliação do ministério é a de que “nesses locais, a fase da epidemia pode estar na transição para fase de aceleração descontrolada”.

Em quase 40 dias desde que o primeiro caso de paciente infectado pelo novo coronavírus foi identificada no País, em 26 de fevereiro, o Brasil já soma 13.717 casos do novo coronavírus, com 667 mortes, até esta segunda. A taxa de letalidade chegou a 4,9%.

Ações de combate

O Distrito Federal, que até esta segunda registrava 492 casos confirmados de covid-19 e 12 óbitos, foi a primeira unidade da federação a adotar medidas restritivas e de combate ao novo coronavírus. Na última semana, o governador Ibaneis Rocha liberou edital para construção de um hospital de campanha no Estádio Mané Garrincha. A estrutura deve ficar pronta entre 15 e 20 dias e deverá receber pessoas que estavam em situação grave, mas que se recuperaram e precisam ficar em um ambulatório, para observação. O DF possui cerca de 800 unidades de tratamento intensivo (UTI) à disposição, entre a rede pública e a privada.

A rede de saúde do DF tem realizado cerca de 800 testes de covid-19 por dia. O objetivo do governo é que esse número suba para 3 mil testes diários na próxima semana. O secretário adjunto de Assistência à Saúde do DF, Ricardo Tavares Mendes, afirmou na semana passada que a secretaria de Saúde do Distrito Federal está fazendo aquisição de 150 mil testes de coronavírus. Detentos do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, vão produzir máscaras cirúrgicas para ajudar no combate ao novo coronavírus. O governo vai comprar o material por R$ 0,45 a unidade e vai reabastecer os estoques do sistema socioeducativo e entidades terapêuticas.

São Paulo

Entre os Estados listados pelo Ministério da Saúde, São Paulo, epicentro da pandemia no País, é o único que adota o termo quarentena. O Decreto 64.881, de 22 de março, assinado pelo governador João Doria (PSDB), define que “medida de quarentena” deve vigorar até o próximo dia 7, quando o governo vai reavaliar a situação. As posições do tucano têm aumentado a crise com o presidente Jair Bolsonaro, que é contrário a medidas “tão radicais” no combate à pandemia. Até a última atualização do Ministério da Saúde, 5.682 casos e 371 tinham sido registradas no Estado.

A Capital terá três hospitais de campanha para receber pacientes com covid-19. Dois deles já estão funcionando: no Complexo do Anhembi e no Estádio do Pacaembu. No Anhembi, haverá 1.800 leitos e também será possível realizar exames de tomografia, raio-x, exames de laboratório. No Pacaembu, duas tendas foram montadas no gramado do estádio. O espaço será capaz de abrigar 200 leitos. O terceiro hospital começou a ser construído no último final de semana no Complexo do Parque do Ibirapuera. Serão 200 leitos para casos de baixa complexidade.  Somadas as três unidades, 2.240 leitos foram criados em meio à pandemia.

No Estado, de acordo com reportagem do Estadão, os sistemas de saúde público e privado já enfrentam sobrecarga por causa do aumento do número de internações e registram até 38% de seus leitos ocupados por pacientes com infecção suspeita ou confirmada da doença.

Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, que já ultrapassou o número de 1.688 casos e 89 óbitos, o Decreto 47.006, de 27 de março, disciplinou as “medidas de enfrentamento da propagação decorrente do novo coronavírus”, reconheceu a manutenção da situação de emergência no Estado e estendeu as providências por mais duas semanas. A Lei 8.770 de 23 de março, prevê a possibilidade de requisição de quartos de hotéis e pousadas privados para cumprimento de quarentena ou isolamento. Na última semana, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), anunciou a construção de oito hospitais de campanha para aumentar o atendimento a pacientes com coronavírus. As unidades devem ser inauguradas até 30 de abril, segundo ele, aumentando a capacidade da rede em 1,8 mil leitos.

Ceará

Deputados estaduais do Ceará aprovaram no último dia 3, os decretos que reconhecem estado de calamidade pública no Ceará e em Fortaleza devido à pandemia do novo coronavírus. O Estado já soma pelo menos 1.051 casos confirmados e 31 mortes pela covid-19. O governo estadual programou investimento de R$ 245 milhões para reestruturação do sistema de saúde, aquisição de equipamentos e insumos para enfrentamento coronavírus. Além disso, até o momento, 574 leitos extras foram autorizados pelo governador Camilo Santana (PT) para atender pacientes em Fortaleza e no interior.

Está em construção um hospital de campanha no Estádio Presidente Vargas, que terá 204 leitos destinados aos pacientes com a covid-19. A estrutura temporária deve ser entregue no dia 20 de abril, de acordo com a prefeitura de Fortaleza. Ao menos 150 leitos extras foram disponibilizados na capital no último final de semana. O governo do Ceará adquiriu ainda 350 mil testes rápidos para detecção do coronavírus. As coletas serão prioritárias para o teste em profissionais da saúde.

Amazonas

O governo do Amazonas determinou, em 21 de março, a suspensão dos atendimentos, por 15 dias, de bares e restaurantes na cidade de Manaus como medida de prevenção à proliferação da doença no Estado. Há pelos menos 636 casos confirmados, sendo um deles uma indígena, e 23 óbitos. Por lá, o centro de referência para tratamento de pacientes com covid-19 é o Hospital Delphina Aziz. De acordo com o governador Wilson Lima (PSC), ainda que a lotação máxima dos leitos não tenha sido alcançada, há risco iminente de colapso. Entre casos de infectados pelo novo coronavírus e pacientes com síndromes respiratórias, 55% dos respiradores estão ocupados.

O Delphina Aziz conta com 69 respiradores. Na última sexta, chegaram a Manaus outros 15 respiradores, vindos do Ministério da Saúde. Outros são esperados da rede privada. / C.M.