Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Marcelo de Moraes

Moreira: ‘Queremos um presidente da Câmara que tenha compromisso com o agro’

Marcelo de Moraes

Depois de dois anos na presidência da poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) passou o cargo, na semana passada, para o deputado Sérgio Souza (MDB-PR). A força da bancada se prova pelos números de seus participantes: 245 deputados federais e 39 senadores. E como um dos mais influentes integrantes da bloco do agronegócio, Moreira defende, em entrevista ao BRPolítico, que o grupo cobre do futuro presidente da Câmara o compromisso com as pautas de votação do setor. Moreira diz que o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, não cumpriu as promessas que fez à bancada e deixou de pôr em votação projetos importantes, como a MP da Regularização Fundiária, a lei dos defensivos agrícolas, a legislação ambiental, entre outros pontos.

Deputado Alceu Moreira. Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados

“Rodrigo nos prometeu votar os temas do agro durante dois anos. E vem protelando sem votar. Um compromisso que ele assumiu aqui, na FPA, quando foi candidato e não cumpriu. Está nos devendo”, afirma o deputado. E acrescentou: “A gente vai votar contra qualquer pessoa que não tiver compromisso verdadeiro com o agro”.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

BRP – O senhor passou os dois últimos anos presidindo a FPA num período em que o agronegócio teve peso decisivo para a economia do Brasil e, ao mesmo tempo, enfrentou duras disputas para garantir mercados externos. Como vê isso?

Alceu Moreira – “O agronegócio é um corpo gigante. E, pelo seu gigantismo é altamente competitivo. Ele é, ao mesmo tempo, desejado por muitos, e combatido por muitos. O que tem no meio disso? O interesse de obter o produto…porque, imagina o seguinte. Nas próximas duas décadas, no mínimo, nenhum governante vai sentar em volta de uma mesa, pensando no futuro do seu país, sem pensar em segurança alimentar. Ele terá de pensar nisso. Esse tema vai estar na mesa. E quando ele pensar em segurança alimentar, obrigatoriamente vai olhar para uma cadeira e pensar: essa cadeira é do Brasil. O Brasil tem de sentar aqui. Bom, isso não é olímpico, não é gratuito. Eu vou deixar ele sentar aqui, mas vou colocar todos os empecilhos possíveis, para comprar mais barato, para desvalorizar o produto dele, para não quebrar meus produtores”.

Ou seja, a competição vai se acirrar?

“Vamos pegar um exemplo. Se estivéssemos vendendo carne hoje na Europa, lá no Reino Unido, e fossemos vender para a Irlanda. A Irlanda tem um custo de produção que é quatro vezes o nosso. Se a nossa carne bovina chegar lá agora, eles quebram. Então, se houver o acordo do Mercosul com a União Europeia, ele vai fazer de tudo para que no país deles só valha o acordo a partir do décimo ano. A prateleira de Londres vendia frango francês. Agora, está o frango brasileiro. Tu achas que eles estão felizes conosco? Com certeza, não. Então, neste período agora, eles vão combater o máximo possível”.

O senhor prevê dificuldades?

É normal. Não dá é para ser reativo com isso. Ou imaginar que é possível responder a esses questionamentos todos com a resposta única: se vitimizando. Achando que eles têm raiva de nós. Isso é negócio. Talvez a grande meta, porque estamos começando a construir a inteligência para fazer o combate, seja aprimorae a comunicação e a imagem”.

Como assim?

“Como nós somos ruins nisso. Como demoramos demais para perceber que este custo da comunicação e imagem tem de estar no nosso custo de produção. Quando eu boto a semente no solo, parte daquilo que vai render aquele produto, tem de pagar a comunicação e imagem. Porque se eu tiver na Alemanha uma crítica dura em relação ao Brasil e ela for injusta, eu tenho que saber qual é a origem. Ela é científica? E se ela for científica, quem vai lá explicar a verdade com credibilidade? Então, vou ter de pegar alguém no mundo que vá lá se expressar na Alemanha e mostrar que não é verdade. Ah, mas a crítica, então, é comercial. Porque, na verdade, estamos atrapalhando o mercado alemão. Bom, aí tem de achar alguém do comércio e fazer este debate. Se a crítica for jornalística, eu preciso ter uma agência muito qualificada para poder chegar em todos os meios de comunicação e poder fazer o contraponto. Não tem coisa mais óbvia. Isso faz parte do negócio. Só que isso não é percebido pela nossa cadeia produtiva como um custo necessário. Eles sempre acham que a comunicação e a imagem são coisas laterais. Tipo, eu uso quando preciso. Não é assim. Porque isso é, na verdade, profilático. Precisa fazer isso preventivamente. Isso é uma coisa que a FPA está trazendo com muita força, mas até aqui tem setores onde a gente tem dificuldades”.

O senhor acha que isso pode funcionar?

“Quem mais vende inseticida e herbicida no Brasil? As empresas alemãs. Basf, Bayer. Estão lá na beira do Rio Reno. E quem mais fala mal do Brasil? Alemanha. E onde estão a Basf e a Bayer que não fazem a defesa? Por que não? Será que são eles os culpados, ou nós, com toda a capacidade de compra que temos, não fizemos valer esse poder de articulação?”.

Está havendo uma modernização nos processos que passaram a ser importantes para a Frente…

“A exigência do meu tempo foi fazer a ponte e começar a travessia do mundo analógico para o digital. Se eu dissesse que quando cheguei aqui como deputado, há 12 anos, numa mesa como essa, que tínhamos de correr atrás de conectividade, os outros, certamente, me dariam com um copo desses na cabeça. O que é que a gente tem de ver com essa porcaria? Agora, quando a gente fala disso aqui hoje, é absolutamente natural. Como falar de chuva, solo, controle de praga e de erva. Todo mundo sabe. Porque a máquina chega nas propriedades com tecnologia embarcada. E tu pagas por isso. A exigência da modernidade traz para nós da Frente uma modificação de comportamento”.

A bancada do agronegócio evoluiu da antiga bancada ruralista, que funcionava de forma dispersa, para um bloco de poder consolidado dentro do Congresso. Qual foi a maior vitória da bancada nesse tempo?

“A maior conquista da FPA é a própria ministra Tereza Cristina. Poder indicar a Tereza para ministra (ela era a presidente da FPA antes de Moreira). Foi dela que nasceu a inspiração de andar pelo mundo inteiro abrindo mercados. É por causa dela que hoje não tem nada que a gente produza que seja suficiente. Se produzíssemos o dobro de milho estávamos vendendo tudo. Se produzisse o dobro de soja, estávamos vendendo tudo”.

Mas essas vendas a mais têm provocado um efeito colateral de aumentar os preços internos dos produtos…

“Temos um problema que é um choque de interesse. Saímos no mundo, abrimos os mercados, mas não temos uma régua de regulação para dizer o seguinte: olha, vamos vender x, ou não vamos vender x. Não tem como fazer isso. Então, desregularam-se os preços internos. Porque tem muita demanda. Mas, em compensação, quando chegávamos na maioria dos países, o nosso portfólio de vendas ficava na casa de sete, oito produtos: frango, carne bovina, carne suína, café, soja, milho, açúcar. E acabou. Agora, tem país que está comprando da gente mais de oitenta produtos. Se eu dissesse, dez anos atrás, no Mato Grosso, que teríamos grandes lavouras de gergelim e de grão de bico, o cara ia dizer: que palhaçada é essa? Você está maluco? Pois é. Temos. É a demanda de mercado. Então, a grande conquista foi a Tereza ter tido a inspiração de andar pelo mundo, estruturar completamente o agro, dar poder aos adidos agrícolas. É a primeira vez que temos na Apex uma gerência agrícola. Nunca tivemos. A Apex era da indústria”.

Pode haver algum problema com essas vendas externas a mais?

“É ótimo que estamos exportando, que estamos produzindo. Mas continuo dizendo: o gigante é vulnerável. A relação de dependência, de fragilização, é enorme. Porque estamos, por exemplo, pendurados no dólar. Se tivermos um comportamento de mercado que baixe o dólar, teremos um desarranjo no processo produtivo em relação às margens de lucro”.

O Brasil também sofre muitas críticas externas pela sua política ambiental…

“Nós temos de organizar a questão da imagem da sustentabilidade ambiental. Precisa organizar isso. Ao mesmo tempo, temos de fazer, no Parlamento, as legislações que modernizam os processos. Do que nós tratamos? Por exemplo, dos sócios ocultos. Desde que cheguei aqui, falo nisso. Quem é o sócio oculto? É aquele que extrai recurso da agricultura, mas nunca plantou e nunca colheu, e é absolutamente desnecessário estar ali. Quem é ele? Cartório, o spread bancário, licenciamento ambiental. Meu amigo, numa região definida por bioma, ou pode plantar uma coisa ou não pode. Eu não preciso definir isso por cada propriedade. Então, todos os dias, tenho um conjunto de fiscais na minha porta. Temos uma Justiça completamente multifacetada, cada um com um viés ideológico, em cima do produtor. Então, o que precisamos fazer agora? Parar de se queixar e acertar isso”.

Mas o Brasil sofre críticas por causa de números como o do desmatamento da Amazonia, que acabou de ter novo aumento registrado…

“Estamos desembarcando de duas décadas de uma narrativa completamente contraditória e proposital. Eu vou lá no Palácio, lanço o Plano Safra. Reúno todos os produtores com tapete vermelho e o seu Lula e a dona Dilma fazem um discurso de elogio. E nós, da Comissão de Agricultura da Câmara, tomando pau do PT. Porque o agro é isso, porque o agro é aquilo. Porque o agro tem de ser familiar, tem de ser orgânico. Porque vocês estão envenenando, estão desmatando. Esse povo era pago pelo governo para andar pelos outros países fazendo o Brasil de vira-latas. Isso era assim. Uma cultura. Essa travessia não é simples. Ah, mas é só isso que explica? Não. Precisamos fazer regularização fundiária. Mas a questão não anda. Por que motivo precisamos fazer a regularização só para quem tem propriedade de quatro módulos? Se eu pegar a BR-163, e ali tem propriedades, esses caras estão ali há trinta, quarenta anos. Os caras não são grileiros. O Estado colocou eles ali. Um deles tinha uma família maior. Acabou desenvolvendo uma área com nove, dez módulos. O outro tinha família menor. Desenvolveu quatro, cinco. São vizinhos. Agora, eu estabeleço que só posso regulamentar quatro módulos. Então, um tem escritura e o outro não. Isso não é um contencioso ideológico absolutamente imbecil? Se o cara está lá, não é grileiro, ocupa aquilo regularmente, porque eu não dou a escritura pública para ele? Não interessa que tem quatro módulos, nove módulos, quinze módulos. Pouco importa. Só que o dia que eu der a escritura pública e registro, esse cara tem o raciocínio de pertencimento. Isso me pertence. Mais do que isso. Se sair uma fumaça na propriedade dele, eu sei o nome dele, o CPF, sei onde mora. Por que será que os partidos de esquerda ficaram esse tempo todo no governo e nunca deram esse direito de propriedade? Pelo direito de usar ele como massa de manobra. O que a gente precisa fazer agora é sair disso”.

Mas essa discussão sobre a regularização fundiária parou na Câmara…

“Porque o meu querido amigo Rodrigo Maia estabeleceu um modelo em que somos encravos da ditadura de minoria. O que os partidos de esquerda querem que aconteça, vira a pauta que vai para votação. A legislação ambiental não vai à votação nunca. Está pronta, mas não vai à votação. Por que não vai? Ele quer porque quer se reeleger presidente da Câmara ou qualquer outra coisa e precisa dos 120 votos da oposição”.

Isso pode afetar o voto da bancada do Agro na disputa na Câmara?

“Com certeza”.

A bancada está inclinada a não apoiar um candidato ligado a Rodrigo Maia?

“Não se trata do Rodrigo. É que o Rodrigo nos prometeu votar os temas do agro durante dois anos. E vem protelando sem votar. Um compromisso que ele assumiu aqui, na FPA, quando foi candidato e não cumpriu. Está nos devendo. Não vamos votar contra o Rodrigo. A gente vai votar contra qualquer pessoa que não tiver compromisso verdadeiro com o agro. E não estamos querendo votar absolutamente nada que não é normal”.

Quais as prioridades que vocês queriam que tivesse sido votado?

“Queremos votar a lei dos defensivos agrícolas, mas não vota. Queremos votar cabotagem, a praticagem. Quanto ganha um prático no Brasil? US$ 300 mil, US$ 400 mil para trabalhar oito períodos de quatro horas. Quem paga essa conta? Isso é o suprassumo do atraso. Esse cara é completamente desnecessário. E se for necessário, tem de ser por regulação de mercado. Eu pago, se precisar dele. Mas não um cidadão que tem uma cadeira cativa porque alguém disse que ele tem de ganhar isso. O cara mora em Miami. E quem paga é o produtor de soja. Só que quem paga, na verdade, é quem compra o feijão e o arroz porque o preço aumenta. Levamos um ano para votar conectividade. Um ano. Não tem cabimento”.

Vocês podem votar num candidato de oposição ao grupo de Maia?

Moreira – “Primeiro, ainda não sabemos quem é candidato. Segundo, tendo um candidato, vamos fazer uma análise muito mais criteriosa. Inclusive, fazendo esse discurso crítico de quem assumiu e não cumpriu conosco os seus compromissos”.

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