Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Moro ‘on the road’ para resgatar a imagem

Vera Magalhães

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Sérgio Moro contratou o empresário de Roberto Carlos para organizar uma “turnê” de encontros e palestras corporativas pelo Brasil. A notícia, trazida há alguns dias pelo colunista Lauro Jardim, está detalhada em reportagem neste domingo no jornal O Globo.

Moro conheceu Dody Sirena, que administra a carreira do “Rei” há 27 anos, justamente num show de Roberto Carlos na Ópera de Arame, em Curitiba, na época em que era ovacionado onde quer que fosse, quanto mais “em casa”.

Agora a situação que a empresa de Sirena, a Delos, braço voltado a assuntos não-artísticos dentro da DC Set, terá de gerir para resgatar a imagem de Moro é um pouco diferente. Ele deixou a magistratura depois de 26 anos, no auge da Lava Jato, para embarcar no governo Bolsonaro. Durou pouco mais de um ano, sempre aos trancos e barrancos, e com pouco legado perceptível.

A própria Lava Jato vive um desgaste e tem sua produção questionada por setores da sociedade e da área jurídica desde que as conversas da chamada Vaza Jato mostraram relações mais próximas que o recomendável entre juiz e procuradores no curso das investigações.

Moro era antes uma unanimidade em quase todo o País, com exceção da esquerda. Agora, a esse contingente de “haters”, se somaram os bolsonaristas (que o atacam com mais fúria que os primeiros, aliás) e até setores moderados, que não admitem o ex-juiz e ex-ministro, por exemplo, no rol dos integrantes de uma possível frente ampla para enfrentar Bolsonaro em 2022.

Por fim, não foi dele o “tiro” para atingir Bolsonaro e levar, por exemplo, à abertura de um processo de impeachment, o que poderia ajudar numa narrativa de que ele era “implacável” com presidentes, independentemente do partido. O inquérito aberto a partir das suas acusações de aparelhamento da Polícia Federal segue aberto, agora sob os cuidados de Alexandre de Moraes, mas o Ministério Público Federal sob o comando de Augusto Aras não demonstra o menor apetite para denunciar o presidente.

Faltam pesquisas de intenção de votos para 2022 mais atualizadas para mensurar o tamanho do estrago desse conjunto de fatos na imagem de Moro e em suas chances para concorrer em 2022. Mesmo partido que antes mais flertava com sua filiação, o Podemos, se aproximou de Bolsonaro nos últimos meses e é um dos partidos mais associados com ele nas eleições municipais.

Outros nomes da centro-direita correm na mesma raia de Moro, aqueles com os quais ele tem conversado recentemente, como se noticiou: Luciano Huck, João Doria Jr. e Luiz Mandetta. Não está claro qual deles terá mais estrutura, discurso e apoios para seguir adiante, e o quanto a presença dos demais no mesmo palanque será possível e bem aceita. Inclusive porque há alertas de vetos à proximidade de Moro por parte de aliados importantes, como o recém-vitaminado DEM de Rodrigo Maia e ACM Neto.

Diante de tal quadro, a missão do empresário de Roberto Carlos deve ser tão árdua quanto enfrentar o TOC do cantor. O pacote com o ex-ministro inclui, além das palestras, o lançamento de um livro pela editora Sextante. Não uma biografia ou um relato dos meses turbulentos no governo, que ficarão a cargo de outra obra, de Rosângela Moro, mas um sobre combate à corrupção, compliance em empresas e outros temas que têm, também, a missão de tentar reposicionar o Moro que antes era visto como herói no imaginário de parcela da opinião pública.