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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Nabhan Garcia em campanha pelo lugar de Tereza Cristina

Vera Magalhães

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Uma das surpresas na composição do ministério original de Jair Bolsonaro foi o presidente não ter escolhido como ministro da Agricultura o ex-presidente da UDR Nabhan Garcia, seu primeiro e mais ardoso defensor junto aos ruralistas. Defensor desde sempre de uma das promessas da campanha de Bolsonaro, a da renegociação da dívida do Funrural, Garcia não só ficou com um cargo menor, a Secretaria de Política Fundiária, como viu a promessa de campanha engavetada ad infinitum por determinação do ministro da Economia, Paulo Guedes.

O Secretario de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia

O Secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia Foto: Dida Sampaio/Estadão

Agora, diante da crise entre Bolsonaro e o DEM, partido da ministra Tereza Cristina, e graças ao atrito entre ela e setores do bolsonarismo pela defesa aberta que ela fez da China depois que vários aliados do governo resolveram atacar o principal comprador de commodities agrícolas brasileiras, Nabhan está em campanha explícita para substituí-la, e tem chances reais de emplacar.

Tereza virou o mais novo alvo da máquina de destruir reputações do bolsonarismo. No pronunciamento de Bolsonaro na última sexta-feira, após a demissão de Sérgio Moro, era uma das mais desconfortáveis, longe do centro da foto e com semblante fechado.

Naquele mesmo dia, o diligente Nabhan mandou um áudio para vários dirigentes do agronegócio saindo na frente do que viria a ser a estratégia bolsonarista ao longo do fim de semana: defender o presidente e desqualificar Moro, com o argumento de que Bolsonaro foi eleito e sempre teve uma pauta de direita, diferentemente do ex-ministro, que teria recebido um convite e não teria honrado a confiança de Bolsonaro.

Aliados da ministra reconhecem que sua situação no governo é desconfortável. Diante dos ataques reiterados, inclusive pelo chanceler, Ernesto Araújo, à China, ela tem dificuldade de seguir defendendo uma postura pragmática que não prejudique a retomada das exportações depois da crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

Também se incomoda com a pressão nada sutil para que critique o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e até troque de partido.

A eventual substituição de Tereza Cristina por Nabhan na Agricultura é vista como desastrosa pelos setores mais avançados do agronegócio brasileiro, que consideram o ex-presidente da UDR representante de todos os estigmas que o setor quer afastar: o de que vive em busca de privilégios estatais e refinanciamentos de dívidas e de que é contrário a pautas modernas, como a preservação ambiental e o uso consciente de insumos.

A troca também pode desagradar a poderosa Frente Parlamentar ruralista, que é fechada com a ministra e tem nela o elo de interlocução com o Executivo.