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por Marcelo de Moraes

Nova crise com Mourão é risco para Bolsonaro

Vera Magalhães

Uma nova crise com o vice-presidente Hamilton Mourão não será tranquila para Jair Bolsonaro administrar à base de ofensas nas redes sociais capitaneadas pelo filho Carlos, como ocorreu ao longo de 2019. O contexto mudou, e as Forças Armadas, hoje, estão bastante divididas quanto ao seu papel num governo em que o presidente, um capitão reformado do Exército, não se cansa de submeter generais, inclusive da ativa, a constrangimentos, quando não a humilhações públicas.

Mourão certamente tomou este pulso antes de quebrar o relativo silêncio que vinha mantendo nos momentos mais graves de tensão política que o bolsonarismo atravessou neste ano. Mesmo na incumbência que lhe foi dada por Bolsonaro, a de cuidar da Amazônia, ele manteve seus embates com Ricardo Salles restritos ao tema, sem extrapolar para o enfrentamento ao companheiro de chapa.

Mas ao sair do quadradinho e passar a falar de saúde, enfrentamento à pandemia e, sobretudo, um dos assuntos-fetiche de Bolsonaro na atualidade, a vacina, Mourão mediu bem os riscos e sabia que o presidente, sempre à flor da pele e inseguro quanto à própria autoridade, reagiria de imediato, como fez.

O vice-presidente sabe que no Exército o discurso antivacina não caiu bem. Ele se vale de um recente episódio em que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, general da ativa e agora internado com covid-19, foi desautorizado de forma bastante hostil por Bolsonaro quando fechou convênio para a compra de 46 milhões de doses da vacina do Butantan.

Mourão enxerga lá na frente e sabe que nunca foi sustentável para nenhum político se opor a vacinas, justamente porque a maioria da população, na hora em que elas são aprovadas e estão disponíveis, vai buscá-las como um passaporte para a livre circulação e a normalização de sua vida. Pesquisa Ibope mostra que 2 a cada 3 paulistanos rechaçam a oposição do presidente à vacina.

Bolsonaro não vai poder espinafrar Mourão como fez no passado e como também deixou que fosse feito com outros nomes respeitados do Exército, como o general Santos Cruz, escorraçado do governo por Carlos Bolsonaro e companhia pelo simples fato de ser razoável. O clima anda azedo na caserna, e apostar de novo na destruição de reputação de um fardado pode resultar em manifestações públicas de generais e pressão explícita para que aqueles que ainda ocupam ministérios caiam fora.

O artigo do ex-porta-voz Otávio do Rêgo Barros, ao qual Mourão não faz menção à toa, é uma manifestação cutânea desse mal-estar incrustado nas Forças Armadas. Mexer com Mourão agora pode transformar isso numa febre.

O vice-presidente Hamilton Mourão

O vice-presidente Hamilton Mourão Foto: Marcos Correa/PR