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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Número 2 da PF cita investigação contra Flávio ligada a caso Queiroz

Equipe BR Político

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Embora o presidente Jair Bolsonaro tenha dito que ninguém da sua família é investigado pela Polícia Federal, o delegado Carlos Henrique Oliveira, atual diretor-executivo da PF, afirmou em depoimento na quarta, 13, que a corporação investigou, sim, familiares do chefe do Planalto. Segundo ele, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, era alvo de inquérito da PF no Estado “de âmbito eleitoral, e já foi relatada sem indiciamento”. Oliveira é ex-superintendente da PF do Rio, cujo comando Bolsonaro insistia desde janeiro para trocar, segundo depoimento do ex-ministro Sérgio Moro no dia 2 de maio.

O senador Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro Foto: Dida Sampaio/Estadão

Depois da divulgação de informações sobre o teor do vídeo da reunião ministerial em que teria pressionado o ex-ministro da Justiça para interferir na PF por interesses familiares, Bolsonaro disse: “A Polícia Federal nunca investigou ninguém da minha família”.

No depoimento, Oliveira afirmou que nunca recebeu cobranças do presidente a respeito de investigações em andamento. A existência do inquérito, no entanto, negada por Bolsonaro, é fato relevante à investigação, pois pode ser indício da motivação do interesse do presidente na PF do Rio de Janeiro. “Perguntado se tem conhecimento de investigações sobre familiares do presidente nos anos de 2019 e 2020 na SR/PF/RJ disse que tem conhecimento de uma investigação no âmbito eleitoral cujo inquérito já foi relatado, não tendo havido indiciamento”, diz o depoimento. 

O inquérito

A investigação em questão apurava se Flávio cometera lavagem de dinheiro e falsidade ideológica eleitoral na declaração de seus bens nas eleições de 2014, 2016 e 2018. O seu início foi uma notícia crime em 2018 sobre o fato de o senador ter declarado em 2014 e 2016 ser proprietário de um imóvel ao qual atribuiu valores diferentes em cada ano. O inquérito ocorreu durante a gestão do ex-diretor-geral da PF Maurício Valeixo e tinha ligação com as investigações do Ministério Público do Rio sobre supostas “rachadinhas” no gabinete do filho do presidente quando foi deputado estadual. 

As negociações imobiliárias do senador são investigadas pelo MP do Rio desde julho de 2018 como uma suposta forma de lavagem do dinheiro que seria obtido por meio da devolução de salário dos servidores de seu gabinete. Com quebras de sigilo fiscal e bancário autorizadas pelo TJ do Rio, investigadores concluíram que funcionários do gabinete de Flávio na Alerj repassaram cerca de R$ 2 milhões para o assessor Fabrício Queiroz, que também realizou grande quantidade de saques em dinheiro vivo e transações com dinheiro em espécie.

Segundo o MP, houve “lucratividade excessiva” nas operações de compra e venda de imóveis. Um deles é o apartamento que foi alvo da investigação na PF do Rio. No mesmo período da venda do apartamento, um relatório do então Coaf mostrou que o senador fez 48 depósitos de R$ 2 mil totalizando R$ 96 mil ao longo de cinco dias em junho de 2017.

Segundo informações do jornal O Globo, a investigação na PF foi arquivada por um pedido enviado à Justiça em março, sem solicitar quebras de sigilo de envolvidos.

Uma em 27

O ex-ministro Sérgio Moro afirmou em depoimento à Polícia Federal que Bolsonaro lhe teria dito a aceitar as trocas na organização: “Moro, você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”. Logo depois da saída de Moro do governo e da nomeação do novo diretor-geral da PF por Bolsonaro, Rolando Alexandre, a primeira ação feita foi a troca da Superintendência do Rio. Carlos Henrique foi transferido ao cargo de diretor-executivo da PF e o delegado Tácio Muzzi foi nomeado em seu lugar.

Carlos Henrique afirmou que recebeu convite de Rolando Alexandre para que deixasse a Superintendência do Rio e fosse para o cargo de diretor-executivo em Brasília e que fez questão de indicar o nome de seu sucessor para o Rio.