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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

‘O pandemônio vai agravar a pandemia’, diz Nicolelis

Alexandra Martins

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O cientista internacional Miguel Nicolelis tem feito apelos recentes na imprensa para que os políticos ouçam mais a voz da ciência nesta atual fase de agravamento da pandemia do novo coronavírus. Neurofisiologista brasileiro, Nicolelis recorre a uma análise de um amigo para vaticinar. “O pandemônio vai agravar a pandemia”, disse ele nesta manhã de quinta, 16, na Globonews, em referência aos atritos políticos entre o Ministério da Saúde e a Presidência.

O cientista internacional Miguel Nicolelis

O cientista internacional Miguel Nicolelis Foto: Reprodução/Globonews

São várias as questões que embasam o vaticínio. A primeira delas é a natureza da guerra: biológica. “Toda vez que a política briga com a biologia, a biologia ganha”, diz. Nicolelis alerta que nessa guerra híbrida, o inimigo, além de ser desconhecido, se move o tempo todo. “O front muda dia a dia. É preciso agir no tempo do vírus, não da política. Essa é a prioridade, pensar no tempo do vírus, que é o inimigo”, afirma.

O “pandemônio” impede que as políticas públicas cheguem a tempo na ponta para salvar vidas, diz. Ele cita o exemplo da demora do governo brasileiro em comprar equipamentos de segurança da China, uma vez que a informação de que o país asiático era o fornecedor principal desses produtos era conhecida há meses. “Os Estados Unidos foram lá, mandaram um esquadrão com 23 aviões e varreram a China”, lembra. O problema fez com que os Estados recebessem esses equipamentos em quantidades inferiores ao volume necessário.

Outro agravante neste “pandemônio” é excluir a economia do debate da ciência, como se os dois campos fossem excludentes. Nicolelis lembra que a economia tem origem nas ciências humanas. “A economia tem que ser a da vida, que preconiza o bem-estar humano, não do capital”, afirma. Esse guarda-chuva tende a ser, segundo o neurofisiologista, ainda mais amplo com vistas a um novo modelo de ciência com a pandemia da covid-19. Ele cita a contribuição inestimável do trabalho de físicos brasileiros, “que estão virando noites”, na tentativa de resolver a matemática da pandemia, como Roberto Kraenkel e Paulo Prado.

Sem entrar muito no campo das críticas ao trabalho do ministro Luiz Henrique Mandetta, o que contribuiria para o pandemônio, Nicolelis defende que o novo titular da Saúde acredite no método científico, entenda a dimensão da guerra e crie uma “sala de situação de emergência” com informações em tempo real para lidar com a velocidade de ação do inimigo.