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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

O que o Brasil, sob Bolsonaro, quer dos Brics?

Luiza Ferreira

A cúpula dos Brics se encerra nesta quinta-feira, 14. O evento reuniu, em Brasília, os líderes da Rússia (presidente Vladimir Putin), da Índia (primeiro-ministro Narendra Modi), da China (presidente Xi Jinping), da África do Sul (presidente Cyril Ramaphosa) e do Brasil. O bloco, originalmente, foi criado para representar uma alternativa às potências tradicionais do Norte e da Europa. Na avaliação de especialistas ouvidos pelo BRP, em governos anteriores, o grupo já teve mais destaque na política externa brasileira. Mas, com o alinhamento cada vez maior do presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos, o governo brasileiro precisa entender o que quer dos Brics.

Para o professor de Relações Internacionais e Ciência Política da FGV Guilherme Casarões, a cúpula dos Brics foi uma oportunidade para o presidente Bolsonaro “reafirmar sua imagem de estadista (bastante desgastada em função de crises internas e externas) e aprofundar relações com a China, que parece ser o único parceiro do grupo que interessa ao Brasil hoje”. Como você já leu aqui no BRP, o País cogita um acordo de livre comércio com a potência asiática.

Uma grande diferença da cúpula deste ano com relação às anteriores foi o fato de que não ocorreram os tradicionais encontros ampliados – o “Brics Outreach” e o “Brics Plus” – no qual os cinco Estados membros convidam outros países para um diálogo. A questão da Venezuela parece ter pesado neste ponto: enquanto o Brasil queria convidar o autoproclamado presidente venezuelano, Juan Guaidó, para o encontro ampliado, os demais países do bloco vetaram a ideia. A Rússia, em especial, segue apoiando Nicolás Maduro. Segundo apurou o BRP, depois de vetarem Guaidó, os “Rics” (Rússia, Índia, China e África do Sul) sugeriram que os demais mandatários regionais fossem convidados, conforme manda a tradição. A contraproposta, que poderia incluir os argentinos Mauricio Macri ou Alberto Fernández, foi então rejeitada pelo Brasil.

Para o economista Antônio Corrêa de Lacerda, diretor da faculdade de Economia da PUC, a ausência desses encontros paralelos à cúpula representa, ao mesmo tempo, um “freio de arrumação” e um sinal de isolamento. “Eu vejo que ela (essa decisão) tem um aspecto positivo, que é uma espécie de freio de arrumação. Ou seja, você repensa a estratégia que todos (os Estados membros) querem para, a partir daí, você poder incrementar o relacionamento dos Brics com os demais países. E por outro lado, a pouca articulação com os demais Estados, para além dos Brics, revela que o bloco não tem sido uma prioridade do ponto de vista do Brasil”.

O economista acredita que, antes que o Brasil possa ampliar parcerias comerciais e investimentos com os países do bloco, o País precisa deixar claro qual será sua política de desenvolvimento. E, neste ponto, Lacerda não classifica o pacote econômico enviado pelo governo na semana passada como um plano de desenvolvimento. “Na verdade, (o pacote) é uma insistência, né, é mais do mesmo. É a visão destes últimos anos do ajuste fiscal como prioridade. E evidentemente, economia é muito mais do que isso. Inclui, por exemplo, a questão das relações internacionais, que é o tema aqui que envolve os Brics né. Então para isso é preciso que se tenha um projeto definido e isso ainda está faltando”.

Segundo o secretário de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, Marcos Troyjo, o Brasil segue mantendo diálogo com os Brics ao mesmo tempo em que pleiteia um assento na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – também conhecida como “o clube dos países ricos”. “Com a sua dinâmica de ingresso na OCDE, e com a sua presença na plataforma Brics, o Brasil ganha uma peculiaridade importante. Ele é um dos poucos países que terão uma presença no clube das nações mais desenvolvidas, e que, ainda assim, se mantém como protagonista do mundo emergente”, disse o secretário ao BRP.