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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

ONU: Até onde vai a simpatia de Bolsonaro pelos índios

Equipe BR Político

Com a índia pró-governista Ysani Kalapalo, do Parque Indígena do Xingu, em sua comitiva, o presidente Jair Bolsonaro tentou demonstrar aos olhos do mundo que não despreza a comunidade indígena em seu discurso de abertura da 74.ª Assembleia-Geral da ONU. Ele reiterou sua tese de que índio não quer viver como um “homem das cavernas”. “O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas”, afirmou.  Segundo ele, “o Brasil agora tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam antes da chegada dos portugueses”. Intramuros porém, o chefe de Estado brasileiro já fez afirmações bem menos diplomáticas com relação aos índios. Relembre algumas:

1. “O índio não fala a nossa língua, não tem dinheiro, é um pobre coitado”

Em um discurso no Mato Grosso do Sul, em 2015, quando ainda era deputado federal, Bolsonaro falou em “indústria da demarcação das terras indígenas”, que prejudicaria o agronegócio local. “Não tem área indígena em cima de terra pobre. Isso não existe! O índio não fala a nossa língua, não tem dinheiro, é um pobre coitado que está sendo tradado como animal de zoológico”, disse.

De maneira semelhante, em agosto de 2019, o presidente afirmou que “uma das intenções das reservas é nos inviabilizar”. “Muitas reservas têm o aspecto estratégico. Alguém programou isso. O índio não faz lobby, não fala a nossa língua e consegue hoje em dia ter 14% do território nacional”, disse.

 2. “A minha decisão é não demarcar mais terra para índios”

A revisão das demarcações de terras indígenas e a permissão de garimpo em reservas dessas populações são promessas de campanha de Bolsonaro que entram em conflito direto com interesses dos povos indígenas. No final de agosto, o presidente disse que tinha a sua intenção era não realizar novas demarcações . “A minha decisão é não demarcar mais terra para índios. Aquelas que foram demarcadas de forma irregular, caso tenhamos algo concreto nesse sentido, é buscar a revisão das terras”, disse. “Hoje em dia, o Brasil que tem 14% de terras demarcadas, passaria para 20%. Não acha que é muita terra pra índio, não?”.

3. Reservas estão “inviabilizando nosso negócio”

Em julho, Bolsonaro deveria ter recebido o ministro de Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, para conversar, dentre outros assuntos, sobre o meio ambiente. Antes do encontro com o ministro – que, no fim das contas, foi cancelado de última hora – o presidente disse que as reservas indígenas “atrapalham nosso negócio”. “Se fosse outro governo qualquer, quando estava em Osaka (Japão), no G-20, quando viesse para cá demarcaria mais 10, 15, 20 reservas indígenas. Está inviabilizando nosso negócio”.

4. “Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema”

A declaração foi dada em 15 de agosto de 1988, quando Bolsonaro era deputado pelo PPB, atual PP, em referência a demarcações de terras indígenas. Ele fez uma ressalva, no entanto: “Até vale uma observação neste momento: realmente, a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e, hoje em dia, não tem esse problema em seu país – se bem que não prego que façam a mesma coisa com o índio brasileiro; recomendo apenas o que foi idealizado há alguns anos, que seja demarcar reservas indígenas em tamanho compatível com a população”.