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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião do Ideia Big Data: Eleições, samba e forró

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

2018 foi o ano do voto na novidade. O eleitor renovou as assembleias legislativas e o Congresso Nacional com nomes desconhecidos do grande público, escolheu governadores de quem nunca tínhamos ouvido falar e, na busca pelo diferente de tudo o que está aí, conseguiu até um presidente para chamar de seu. 2020 é outra história. A expectativa é de que para merecer o voto, além de não estar envolvido na Lava Jato, o candidato a prefeito apresente atributos como experiência para resolver os problemas que afligem a população.

E que problemas são estes? Pesquisa realizada pelo Ideia Big Data, nos últimos dias de 2019, identificou que o tradicional trio saúde, educação e emprego está nos primeiros lugares entre as demandas para as eleições municipais. Palavras como planejamento e gestão aparecem em segundo lugar entre as que devem ser levadas em conta para a preferência por um prefeito.

São problemas reais de uma eleição considerada mais administrativa do que política. Ou que vai de encontro à máxima de que as pessoas não vivem na União ou no Estado, vivem nos municípios. É ao prefeito mais próximo que elas recorrem quando não há vaga no Posto de Saúde para a consulta do idoso ou lugar na escola para o jovem. Mesmo que os recursos do SUS (ou a falta deles) sejam federais ou que o ensino médio seja estadual.

Isso quer dizer que a volta do PT ao poder, a pauta de costumes ou a eterna batalha entre esquerda e direita, vermelho x azul, ricos x pobres não serão temas de campanha? Depende. Numa cidade como São Paulo, a resposta é sim, essas questões vão pesar. Ainda assim, o debate formal deve girar muito em torno da avaliação do atual prefeito e de propostas concretas. Se não tão concretas, ao menos ideias que mexam com o imaginário popular e justifiquem o voto, como foi o Corujão da Saúde, da campanha de João Doria, em 2016.

Numa visão marqueteira, diria que este ano os candidatos e suas equipes devem perseguir três “CS” em sua mensagem: capacidade, credibilidade e criatividade. Já o formato, seguirá na evolução que começou com Obama, em 2008, cada vez mais clusterizado, com linguagem e temas pensados para grupos por interesse, religião, faixa etária, classe social, e distribuído cirúrgica e digitalmente. Claro que a televisão ainda tem o seu peso, posto que 69% das pessoas a considera a principal plataforma de comunicação política. Mas a legislação brasileira – que obriga ao horário gratuito, pouco eficiente, e aos debates com dezenas de candidatos -, não ajudará na competição com as telas pequenas, do celular, sempre nas mãos de quem assiste TV nos dias de hoje.

Outra distração para concorrer com a concentração do eleitor será o número recorde de candidatos. Com a eliminação da coligação proporcional, todos os partidos terão que completar as chapas para vereador e conseguir seus próprios puxadores de votos. Na tentativa de fazer uma bancada maior, as siglas também devem lançar candidato a prefeito no primeiro turno, deixando para se aliar no segundo, caso das cidades com mais de 200 mil habitantes. Nas demais, o desafio será equilibrar as chances de chegar à prefeitura com um grupo e a necessidade de ganhar (ou recuperar, situação do PT, por exemplo) bancadas relevantes nas câmaras municipais.

Será, antes de tudo, uma eleição novamente com situações que nunca vimos antes na história do País. Uma delas é que o partido do presidente talvez não tenha candidatos concorrendo, pelo prazo exíguo com que está sendo montado. A circunstância inusitada pode proporcionar que ele tente não se mostrar vitorioso, mas tampouco derrotado em seu primeiro teste de aprovação pelas urnas após a vitória de 2018. De outro lado, completado um ano de governo, Bolsonaro e seu grupo contam com uma população animada com o futuro. Em levantamento feito pelo Ideia na semana do Natal, duas em cada três pessoas disseram esperar que a economia melhore e o desemprego caia em 2020. Parte do entusiasmo é resultado da aprovação da Reforma da Previdência, ano passado. E a crença nas reformas que estão por vir, mais as privatizações, e com elas os investimentos.

O eleitor, todavia, pode não ter incluído, ainda, nessa equação, o fato de que o Carnaval neste ano é tarde, fim de fevereiro. E que o Congresso Nacional entra em recesso branco nos anos pares, os de eleição, a partir do dia de São João, 24 de junho, quando o Nordeste já está há semanas em meio a festas que reúnem multidões de eleitores. E nada, nem mesmo as redes sociais ou a pressão por reformas, são a princípio capazes de segurar esse êxodo de parlamentares que voltam aos seus estados para serem eles próprios candidatos ou para apoiarem correligionários. Afinal, como dizia o grande Ulysses Guimarães, “os partidos políticos existem para alcançar o poder”. O resto é vã esperança.

*Jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É Vice-Presidente do Ideia Big Data.

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