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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: 2019, o ano das dificuldades

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

Meia dúzia de emoções são consideradas como básicas para a psicologia. São elas o medo, a alegria, a raiva, o nojo, a tristeza e a surpresa. É através da inteligência emocional que temos a habilidade de nomear muito mais sentimentos do que esses básicos e reativos, alguns inclusive intraduzíveis, como a brasileira saudade. “Nomear um sentimento pode torná-lo menos desesperador”, diz a pesquisadora Tiffany Smith, do Centro de História das Emoções, da Universidade Queen Mary, na Inglaterra. “Vivemos num tempo em que é extremamente importante conhecer as emoções, pois elas são usadas para explicar muitas coisas, são exploradas por políticos, manipuladas por algoritmos”, explica.

Neste sentido fazemos, no IDEIA Big Data, em conjunto com a Consultoria Cause, a pesquisa “Palavra do Ano”, um levantamento amplo que possibilita aos brasileiros nomearem o sentimento que define o ano que passou. Em 2016 – primeiro ano da pesquisa – a palavra escolhida pela maioria foi indignação. No ano seguinte, 2017, a palavra que melhor traduziu o que os brasileiros estavam sentindo foi corrupção. No ano passado, indignação e corrupção desaguaram na palavra mudança, um desejo que produziu, na prática, o resultado das eleições de 2018, com a escolha de novos nomes na política para o Congresso Nacional, assembleias legislativas, governos e até para a presidência da República.

Mas se a palavra de 2018 carregava uma expectativa alta – uma mudança que poderia ser negativa ou positiva -, a escolhida de 2019 demonstra o que os brasileiros vivem no dia a dia: dificuldades. A palavra foi escolhida assim mesmo, dificuldades, no plural. Tais quais as dificuldades plurais que o cidadão enfrenta em nosso país no transporte coletivo de casa para o trabalho e do trabalho para casa, na fila para uma consulta médica, no aprendizado da criança para interpretar um texto em português, na insegurança das ruas, na procura de um emprego ou no pagamento dos tais dos boletos no final do mês. Dificuldades como as que os pequenos empresários têm para encarar a nossa complexa carga tributária, que os caminhoneiros têm para dirigir nas nossas precárias estradas, e a lista não tem fim.

Mesmo quem teve suas necessidades básicas preenchidas, como foi o caso do presidente Bolsonaro, assumiu por várias vezes enfrentar dificuldades em 2019. Em abril, em entrevista para TV Record, ele reconheceu que havia feito a promessa de campanha de levar a Embaixada do Brasil para Jerusalém, “mas obviamente, eu vi depois as dificuldades, não é uma coisa simples assim”. No Dia do Trabalho, em pronunciamento de TV, ele usou novamente a palavra: “o caminho é longo. Sei que unidos ultrapassaremos essas dificuldades, que são naturais nas transições de governo, especialmente se as posições políticas forem antagônicas”. No mesmo mês de maio, o presidente distribuiu um texto por WhatsApp em que tratava das dificuldades que estaria enfrentando para governar. Em junho, ele relatou que, como presidente da República, tem “uma vida com dificuldades” e em novembro, reclamou numa solenidade do TCU ter “dificuldades seríssimas” em algumas áreas do governo. É, não está fácil pra ninguém.

Em 2019, o Congresso aprovou a Reforma da Previdência, não sem dificuldades, mas que, entre outras medidas, criou a esperança de um cenário positivo para outras reformas necessárias e para a economia em geral daqui para a frente. Assim, embora reconheça e nomeie as dificuldades, na verdade o brasileiro não está desanimado com as perspectivas dessa corrida de obstáculos que é a sua vida. Em nossa mais recente pesquisa sobre conjuntura econômica, no final de novembro, vimos que 3 em cada 5 brasileiros estão otimistas com a projeção de suas finanças pessoais para 2020. Para 43%, o Brasil estará melhor nos próximos 12 meses. E 2 de cada 3 brasileiros afirmaram que o próximo ano será melhor do que este.

Se é verdade o que dizem os manuais de autoajuda, que as dificuldades nos fazem mais fortes, que venha 2020, com toda a sua força e com todas as suas oportunidades.

*É jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É Vice-Presidente do IDEIA Big Data.

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