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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: A disputa pela Casa Branca no pós #MeToo

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

Em duas semanas, 3 de fevereiro, é dia de Iowa, a prévia que inaugura o processo de escolha partidária dos dois candidatos que disputarão a eleição presidencial nos Estados Unidos, em novembro. Iowa é um Estado pequeno, agrícola e demograficamente pouco representativo, mas arma, junto com New Hampshire (onde acontece a primária oito dias depois), o trampolim que impulsiona o candidato vencedor. A lógica é que, ao mostrar-se viável no início, o vitorioso atrai mais recursos financeiros, maior exposição na mídia e mais apoio, ativos estes que lhe possibilitam uma campanha de sucesso e a consequente vitória lá no final.

O primeiro a aproveitar esse momentum foi Jimmy Carter, em 1976. Desde então, apenas Bill Clinton ganhou a indicação do partido e a eleição sem vencer os dois primeiros obstáculos. A mulher de Bill, Hillary Clinton, venceu entre os democratas em Iowa em 2016 com uma diferença de apenas 0,25% sobre Bernie Sanders, perdeu pra ele em New Hampshire e, assim, com o partido dividido, foi até a derrota no Colégio Eleitoral para Donald Trump (que por sinal obteve a maioria nos dois estados entre os republicanos). Agora, três anos depois, os democratas ainda se perguntam: e se o candidato democrata em 2016 fosse um homem e não uma mulher, o partido teria conseguido parar Trump?

A vitória de Trump sobre Clinton trouxe a questão de gênero para o centro do debate não somente porque a democrata preparava-se para ser a primeira mulher presidente dos Estados Unidos como pela conhecida misoginia do republicano. O tema do comportamento inapropriado de Trump com as mulheres foi levantado num debate da Fox News, em 2015, pela advogada e apresentadora Megyn Kelly, história agora retratada no filme O Escândalo (tradução pobre pro original Bombshell, que significa uma mulher muito atraente), concorrente a vários Oscars e que vale a pena assistir. E é um assunto que passou a ter cada vez mais relevância no mundo, seja pelas repetidas atitudes e declarações de Trump já como presidente, quanto pela campanha de denúncia a assédio sexual iniciada em 2017, conhecida como #MeToo e considerada como a quarta onda do feminismo.

Bernie Sanders continua na briga pela candidatura democrata em 2020 e foi através dele que o assunto voltou ao noticiário recentemente. A informação dada pela CNN é que em 2018, em uma reunião privada com a também candidata Elizabeth Warren, Sanders disse que uma mulher não teria condições de ser eleita presidente. No último debate democrata antes de Iowa, semana passada, a senadora por Massachusetts reagiu à dúvida de viabilidade de uma candidatura feminina com dados. Lembrou que as mulheres naquele debate eram as únicas pessoas que ganharam todas as eleições das quais participaram, citando ela mesma e a candidata Amy Klobuchar, reeleitas senadoras de oposição no meio do mandato de Trump, em 2018.

Em editorial publicado no último domingo, o jornal The New York Times declarou apoio às duas candidatas, ainda que cada uma esteja em um espectro ideológico do partido, sendo Klobuchar mais moderada e Warren mais progressista (mais próxima de Sanders, no caso). Para justificar a escolha dupla, o jornal citou os desafios pelos quais passa a democracia e a necessidade de apoiar novas lideranças. Apesar do empurrão do NYT, a previsão é que nem as duas mulheres, nem o candidato declaradamente gay da disputa, Pete Buttigieg, sejam os escolhidos para enfrentar Trump, mas sim o senador Joe Binden, que foi vice-presidente de Barack Obama. Uma das vantagens da escolha, segundo o próprio Biden, é que ao menos ele não vai ter problemas para encarar as piadas sexistas de Trump nos debates, como ocorreu com Hillary. Poderia passar sem essa.

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política, trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do Ideia Big Data.

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