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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: América Latina em transe

Equipe BR Político

Por Maurício Moura*

Terra em transe é um filme de Glauber Rocha de 1967 que vale muito assistir. Em 2019, a América Latina parece em transe. A Argentina parece condenada a crises econômicas, o México se submete ao poder do narcotráfico, o Equador vive um embate social sem precedentes, a Bolívia acabou de sair de uma eleição no mínimo controversa, o Peru dissolveu o Congresso depois do presidente renunciar, a Venezuela é a melhor metáfora do caos em todas as suas dimensões, a América Central é um caldeirão de instabilidade, o Brasil abraçou a polarização política, para dizer o mínimo, e o Chile, até então o exemplo de desenvolvimento regional, vive um ciclo de manifestações que expõe as fragilidades do
modelo vigente.

Há motivações similares da opinião pública em todos os citados acima (e outros também). Quais são? Primeiro, o drama do diretor da Bahia aborda temas muito familiares para a opinião pública latino-americana. Podemos encontrar instituições em plena ebulição: políticos de todas as correntes, juízes, promotores e empresários se destroem entre si. Pregam meias-verdades – rebatizadas de “fatos alternativos” ou “meias verdades” – em nome de um “povo” que ignoram. Como nessa região do planeta, os cidadãos não vêem saída nos políticos envolvidos em “retórica lunática”. Os dados são vastos em apontar o descrédito e desconfiança em relação à classe política. No México, Brasil e Argentina, por exemplo, a confiança em relação à democracia tem piorado anualmente, como apontam os índices do Latinobarómetro. Esse fosso de representatividade precisa ser equacionado sob o risco de as instituições latino americanas se autodestruírem.

Segundo, enquanto a discussão dos economistas sobre o que é mais importante: reduzir pobreza ou diminuir a desigualdade segue nos meios acadêmicos e intelectuais, a vida real é mais dura. A América Latina avançou em melhorar a vida dos mais pobres, mas não evolui na redução da desigualdade. A maior externalidade disso é fomentar a revolta da população que se sente às margens da sociedade.

Essa é a janela de entrada para o populismo de soluções simples para problemas complexos
(independente da ideologia). Esse contingente de pessoas exige melhores serviços, empregos que paguem melhor e uma atuação do Estado condizente com as expectativas básicas. Tais expectativas são inflamadas pelo infinito acesso à informação proporcionado pela internet e celular. As
“coisas boas da vida” surgem em um click no celular.

Por último, essas plataformas tecnológicas permitem mobilizações em massa muito mais rápidas e eficientes. As informações sobre manifestações e protestos se difundem em função da velocidade da luz. Imaginem a dificuldade de comunicação que era organizar um evento na época pré-internet.

Recentemente o IDEIA Big Data fez uma pesquisa nacional e 14% responderam ter participado de pelo menos uma manifestação no último ano (nas grandes capitais esse número dobra). Uma enormidade para um país criticado pela alienação de seu povo. A tecnologia facilitou o “ir para rua”. Portanto, Glauber Rocha e sua produção de 1967 parecem proféticos quando confrontados com a realidade Latino americana. Resta saber quando o continente irá encontrar os (as) “Libertadores(as)” desse “transe”.

*É economista, PhD em economia e política do setor público, professor visitante na George Washington University e fundador e presidente do IDEIA Big Data. Recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard.