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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: As ruas, as redes e a realidade

Equipe BR Político

Por Moriael Paiva

Outro dia, no bar, um amigo jornalista decretou com aquela certeza que só meia dúzia de chopes gelados dá: “Se 1968 foi o ano que não acabou, 2018 foi o ano que não existiu”. Meu amigo paulistano de Cidade Ademar sabia que brincava com coisa séria. Boa parte dos analistas políticos compartilha a percepção de que as eleições de 2018 foram – e continuam a ser – um mistério. Já estamos quase na metade do ano e, para quem acompanha as redes sociais atentamente, a sensação é a de que 2018 existiu sim e – me desculpem – ainda nem acabou. A maneira como se desenrolou a eleição de 2014 também teve um clima similar, quando a sensação de terceiro turno semeou o impeachment de Dilma Rousseff.

A diferença é que em 2018 as eleições foram marcadas por uma sensação de proximidade inédita. Não apenas nas redes sociais, mas especialmente no popular “zapzap”, a conversa pulou das redes para a cozinha de nossos smartphones. Foi assim nos grupos de família e amigos, nas mensagens diretas das neo digitais mães, tias, tios, avôs e avós.

O efeito colateral disso chegou em fevereiro de 2019, na eleição para presidente do Senado, que teve um desfecho com alguma influência das redes sociais. Foi o primeiro indicativo que políticos, imprensa e, claro, os incansáveis militantes de um lado e de outro, passariam a dar uma importância jamais vista ao que ocorre no mundo online. Resultado: a bolha ficou ainda maior. E assim aumentou também a distância entre a esfera da política e o Brasil real. Vejamos os casos dos dois primeiros protestos de maio, ambos com alta mobilização nas redes sociais.

Levantamento do IDEIA Big Data mostrou que a semana do dia 15, data da manifestação contra os cortes/contingenciamentos da Educação, foi a primeira em que o time pró-Bolsonaro sofreu uma “derrota” nas redes desde o início do ano. O #TsunamiDaEducação cravou cerca de 1,4 milhão de menções em engajamento. Já na “revanche” do dia 26, o troco: uma lavada nas redes operada pelos apoiadores de Bolsonaro – 3 milhões entre curtidas e compartilhamentos. Desses, 1,5 milhão turbinadas pelo Twitter oficial do próprio presidente.

Desde janeiro, o movimento de apoio a Bolsonaro só cresce e se mantém alto nas mídias sociais. Enquanto isso, no Brasil real, pesquisa do IDEIA Big Data mostra que os níveis de aprovação seguem patinando. Esse paradoxo aparente não foi construído do dia para a noite. A curva decrescente se inclina desde os primeiros dias de governo no sentido oposto ao crescimento do presidente nas redes. Uma exata demonstração de que, na política, o mundo digital descolou da opinião pública.

Essa distorção criada por análises meramente quantitativas de redes sociais é um perigo para quem busca dados consistentes. Números macros da rede, sem filtros e metodologias adequadas para interpretá-los, podem até indicar vagas tendências, mas estão longe de representar minimamente o Brasil real. Produzir números sem rigor científico nas redes sociais é repetir o erro milenar narrado no mito da caverna de Platão: acreditar que pálidas sombras são verdades e chamar isso de conhecimento.

Moriael Paiva: Publicitário, tem 20 anos de experiência no mercado de comunicação digital. Foi pioneiro no uso de mídias digitais no segmento político. É vice-presidente de Digital do IDEIA Big Data.