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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Biden ou non Biden, o tortuoso caminho para o VP de Obama

Equipe BR Político

Por Maurício Moura*

O renomado autor Eric Hobsbawn em Era dos Extremos, uma de suas obras clássicas, divide o século XX em três “eras”: a primeira, da “catástrofe”;, é marcada pelas duas grandes guerras, pelas ondas de revolução global em que o sistema político econômico da URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo. Também nesse período os fascismos e o descrédito das democracias liberais surgem como proposta mundial. A segunda são os anos estáveis das décadas de 1950 e 1960 que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a estabilização do capitalismo, pilar principal da promoção de uma única expansão econômica e de profundas transformações sociais. Por último, entre as décadas de 70 e 90 dá-se o “desmoronamento” final, em que se dissolvem os sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo, e abrindo uma janela para um futuro incerto. E o que isso tem a ver com eleição americana? E particularmente com o ex-VP americano Joe Biden. Vamos ao paralelo.

O então presidente Barack Obama rindo com seu vice, Joe Biden, em Washington , nos Estados Unidos

O então presidente Barack Obama rindo com seu vice, Joe Biden, em Washington , nos Estados Unidos. Foto: Patrick Smith/Getty Images

Joe Biden já foi candidato a presidente dos Estados Unidos duas vezes: em 1987 e 2008. Ambas falharam. Em 1987, caiu diante de um episódio acadêmico de plágio. Já em 2008, o ex-senador por Delaware permaneceu na corrida por 11 meses sem nunca atingir dois dígitos nas pesquisas de opinião. Desistiu depois de ficar em quinto lugar na primária de Iowa. Em 2016, o partido democrata foi tomado pela “catástrofe” na inesperada derrota para o republicano Donald Trump. A partir disso, o núcleo duro de eleitores democratas passou a priorizar “derrotar Trump” como atributo fundamental. As últimas pesquisas públicas mostram que 65% dos democratas preferem um candidato(a) que possa ganhar de Trump contra 35% que preferem um(a) candidato(a) que esteja totalmente alinhado com suas preferências e pensamentos. Daí surgiu novamente o nome do VP de Barack Obama como opção moderada e segura para 2020. Afinal Biden reúne “recall” nacional (um nome amplamente conhecido) e teria mais condições enfrentar os republicanos em Estados fundamentais como Ohio, Michigan, Pennsylvania e Wisconsin. Receita ideal para a vitória? Não necessariamente.

Em 2018, os democratas viveram os “anos estáveis”. Conseguiram mobilizar uma nova base de eleitores e reconquistaram a maioria na Câmara dos Deputados. Chegaram inclusive a obter inesperadas vitórias como a conquista de uma vaga no Senado no Estado do Alabama. O outro lado da moeda é que o partido deslocou seu eixo de representantes mais para esquerda ou “liberals” (como se diz nos Estados Unidos). E a consequência maior foi a super povoação de candidatos nas primárias e o fortalecimento de projetos mais “extremos” como de Bernnie Sanders e Elizabeth Warren. Os dados mostram que ambos são uma real ameaça para a candidatura do vice-presidente. Nas mesmas pesquisas democratas citadas anteriormente, apesar de Biden atingir 45% dos eleitores quando perguntados sobre a chance de ganhar de Trump (contra 14% de Sanders e 12% de Warren), o mesmo
não passa de 24% quando perguntados sobre quem seria o melhor presidente para os Estados Unidos (contra 16% de Sanders e 20% de Warren). Esses números significam na prática pouca confiança do eleitorado democrata na figura do principal candidato.

Por fim, entramos na corrida presidencial de fato e na “era das incertezas” para Biden. Mesmo como líder nas pesquisas, sua performance como candidato tem sido aquém das expectativas da opinião pública (especialmente democrata). Suas performances nos debates foram medianas. De acordo com diversas pesquisas, seus comícios mobilizam muito menos entusiasmo que o dos principais concorrentes (os dados de presença em comícios são menores quando comparados a Sanders, Warren e a senadora de Califórnia Kamala Harris) e os doadores de campanha demonstram pouco entusiasmo (apesar de ter arrecadado mais que a concorrência). Na “era dos extremos” da América atual, Donald Trump de um lado e os Sanders/Warren de outro, fica a dúvida se a candidatura dele é “binding” (de verdade, real) ou non Biden. Iowa vai dar a primeira resposta.

*É economista, PhD em economia e política do setor público e professor visitante na George Washington University. Recebeu recentemente certificado do programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard. Fundador e presidente do IDEIA Big Data.