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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Brexit e opinião pública: hora de apertar os cintos

Equipe BR Político

Por Mauricio Moura

O Reino Unido vive sob a expectativa da saída da União Europeia desde o dia 23 de junho de 2016, quando a população votou (por uma margem apertada) pelo Brexit (a saída). Desde então, com idas e vindas, a população desconhece os parâmetros mínimos do “day after” (dia seguinte). Essa jornada virou piada pelo mundo. Inclusive, de acordo com as definições listadas no “Urban Dictionary”, um dicionário informal de gírias em inglês online, pode-se usar o termo “brexiting” para a atitude de alguém que se despede de todos em uma festa, mas continua no local ou que vai abandonar um jogo de cartas a dinheiro e continuar na mesa. Ao longo desses anos, as perguntas comuns da opinião pública britânica são: Será que agora vai? E como vai? Sob o prisma analítico: quais os aprendizados básicos desse processo do Brexit para democracias como a brasileira por exemplo.

Manifestantes se reúnem em frente ao Parlamento Britânico, no Reino Unido, para protestar contra decisão de Boris Johnson

Manifestantes se reúnem em frente ao Parlamento Britânico, no Reino Unido, para protestar contra decisão de Boris Johnson em 29 de agosto de 2019. Foto: Facundo Arrizabalaga/EFE

A depender do recém-empossado e sempre controverso primeiro ministro Boris Johnson parece que vai. Ele acaba de lançar uma enorme campanha de informação de opinião pública chamada “Preparam-se para o Brexit”. O objetivo é preparar a população para uma saída do Reino Unido da União Europeia em 31 de outubro. Para os críticos do líder conservador é a versão atual do “Apertem os cintos o piloto sumiu” (filme americano da década de 80).

Independentemente do lado político, Sir Boris Johnson usa os dados de opinião pública para justificar o lançamento da campanha: “apenas” 50% da população pensa que é provável que o Reino Unido saia da UE em 31 de outubro e que 42% das pequenas e médias empresas ainda não tem informação sobre como se preparar. Ao fazer um levantamento histórico de dados de opinião pública, podemos afirmar que nunca um evento de tamanho impacto contou com tanta desinformação dos diretamente afetados. O desenrolar desse episódio vai sustentar estudos de ciências sociais por muito tempo.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson anda em direção à reunião do G-7

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson. Foto: Ludovic Marin/AFP

Desse processo do Brexit são inúmeros os aprendizados para o Brasil. Todavia, vamos focar em dois particularmente. Primeiro, referendos com opções “binárias” para temas complexos cobram a conta no futuro. Vivemos a discussão sobre a posse/porte de armas resultado de um referendo que pouco informou/esclareceu a opinião pública sobre o tema. Desejo que temas como reforma política não se apresentem de forma binária para nossos eleitores. Não tem solução simples (binária) para problemas complexos. Num ambiente altamente polarizado, como o atual, abordagens simplistas tendem a produzir resultados de altíssimo custo para a sociedade.

E segundo: que uma decisão dessa magnitude não seja fruto dos os desejos de uma minoria partidária (bem minoria mesmo). O primeiro ministro Boris Johnson carregando apenas seus quase 93 mil votos para líder do partido conservador vai decidir o rumo do Reino Unido em um dos eventos mais decisivos de sua história. Vale lembrar que os conservadores não tem a maioria do Parlamento britânico (vivem sob um governo de uma minoria instável). Essa dissonância cognitiva entre os interesses políticos partidários específicos e os anseios da população é uma das principais rupturas estruturais das democracias modernas. Os dados de confiança das democracias, pelo mundo, estão em queda. O desafio das lideranças globais é reestabelecer esse vínculo fundamental de confiança. Pouco tem feito nos últimos tempos infelizmente.

Portanto, comunicar é fundamental e o governo britânico teve mais de três anos para explicar o que significa, na vida do cidadão comum, o Brexit. Deixou para a para o momento final do “agora vai”. Fica o exemplo de que não comunicar é sempre adiar o problema (trocar comunicação bem feita no presente pelo caos no futuro). O destino (pós-Brexit) ninguém sabe e as soluções, na mente da opinião pública, ainda são abstratas. Porém, na terra da Rainha, os problemas causados Brexit já são bem reais. Só nos resta apertar os cintos porque o piloto…

Mauricio Moura: Economista, PhD em Economia e Política do Setor Público. Maurício é professor visitante na George Washington University e recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard. Fundador e Presidente do IDEIA Big Data.