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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Canadá, o país das minorias

Equipe BR Político

Por Maurício Moura*

“Um grande Estado não pode ser governado com base nas opiniões de um partido somente”, frase do lendário Otto Von Bismarck, mas que nunca esteve tão atual no contexto político-eleitoral global. As eleições de ontem no Canadá adicionaram mais um capítulo de fragmentação partidária que assola a humanidade. O Partido Liberal, do atual primeiro-ministro Justin Trudeau, venceu ao eleger (segundo resultados provisórios) 156 deputados contra 122 do Partido Conservador. Todavia, não atingiu a maioria (precisava de 170) e vai, de maneira inédita, ter que compor para governar. Ou seja, fará um governo de minoria. Mas o que as eleições no Canadá nos ensinam sobre as minorias canadenses?

Primeiro, o Canadá se une a diversos países que promoveram eleições nacionais sem um vencedor que aglutinasse a maioria dos votos. Alguns são exemplos são: Portugal, Espanha (que vai repetir as eleições em 10 de novembro), Alemanha, Itália, Israel e Reino Unido. A nova dinâmica eleitoral de democracias parlamentaristas passa por suar nas campanhas eleitorais e depois enfrentar tensas negociações de coalizões políticas. Essa eleição canadense também mostrou a força dos movimentos regionais em nível global. O grupo separatista Bloco de Quebec (BQ) chegou em terceiro lugar com 32 deputados. Será um ator relevante e estridente em Ottawa. Vale lembrar que o “separatismo” tem ganhado musculatura em diversos contextos (vejam o tema da Catalunha na Espanha). Por esses aspectos, o Canadá se aproxima ainda mais do contexto europeu e se distancia do presidencialismo dos vizinhos México e Estados Unidos.

Porém, o contexto de polarização de opinião pública é muito semelhante ao vizinho americano. Essa eleição foi marcada pela divisão raivosa entre os seguidores de Liberais e Conservadores. A diferença entre ambos foi de aproximadamente 300 mil votos (6 milhões contra 5.7). Diferente do histórico pacífico canadense, foi uma disputa cercada de acusações, ataques, ódio e muita fake news. Infelizmente as disputas democráticas estão cada vez bélicas e quem perde com isso é o eleitor.

Nunca é demais lembrar que a política foi concebida para substituir a guerra. No entanto, fazer campanha, em nível global, tem se transformado numa cruzada de destruição dos adversários (que na prática viraram inimigos). Infelizmente o Canadá corroborou essa tendência.

Dito isso, vale elaborar sobre a vitória dos Liberais. Os dois motivos centrais foram: a economia e o voto das minorias. A economia canadense segue num ritmo de crescimento positivo (1.8% de crescimento do PIB em 2018) e com otimistas previsões para 2019, principalmente em função dos dados econômicos positivos dos Estados Unidos. As evidências eleitorais empíricas são fortes: é muito difícil vencer uma eleição nacional sendo oposição quando a economia vai bem. Apesar disso, o sentimento sobre a economia não é de todo positivo. Segundo pesquisas locais, o percentual de canadenses que “se sentem classe média” caiu 20 pontos porcentuais nos últimos 10 anos. Isso reflete o descontentamento sobre os rumos da economia. E explica muito a queda do partido de Trudeau (que em 2015 conquistou maioria elegendo 184 deputados). O cenário só não foi pior porque o Canadá é um país que combina diversas minorias com relevante representação de votos. Esses grupos foram fundamentais para manter a base liberal e ainda eleger 24 deputados para o NDP (Novo Partido Democrata).

Portanto, o Canadá que sempre esteve na vanguarda democrática e social saiu dessa eleição como “seguidor” de tendências globais consolidadas: fake news, polarização, blocos regionais/separatistas mais fortes e um governo multipartidário. Passou a ser um país de minoria. Bem-vindo ao clube !

*É economista, PhD em economia e política do setor público, professor visitante na George Washington University, fundador e presidente do IDEIA Big Data. Recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard.