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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Cansei de lero-lero, quero mais saúde

Equipe BR Político

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Por Cila Schulman*

O debate das eleições de 2018 foi dominado pela pauta da corrupção e pela demanda por políticos “diferentes de tudo o que está aí”, temas impulsionados pela repercussão da Operação Lava Jato. Também foi fator decisivo na escolha do presidente a promessa de combate à criminalidade em geral, seja porque além das grandes capitais as cidades médias passaram a sofrer com o problema, seja pelo agendamento da questão pela intervenção militar no Rio de Janeiro. A campanha municipal de 2020 será diferente, com a demanda por soluções concretas para a área da saúde voltando ao histórico primeiro lugar entre as preocupações do eleitor. 

Em levantamento do Ideia Big Data, no início deste ano, vimos que saúde já alcançava a dianteira entre as dificuldades apontadas pelo cidadão, com 18% das menções, seguida por planejamento e gestão (14%) e trabalho e empreendedorismo (11%). Isso tudo antes da covid-19, que deve colocar o tema ainda mais no centro das atenções. A depender de como os governos atuarem no combate à pandemia, candidatos a prefeito que passarão pelo crivo eleitoral em outubro podem crescer ou murchar em popularidade. O tempo dirá. Fato é que o coronavírus tem tudo para ser usado como fator de polarização, numa situação em que a doença não tem lado ideológico. 

O Brasil tem um dos maiores e mais importantes serviços públicos de saúde do mundo, com acesso universal e gratuito, inspirado no National Health Service, britânico. O SUS – Sistema Único de Saúde – foi criado a partir da Constituição de 1988, que estabeleceu o acesso à assistência médico-hospitalar como direito do cidadão e dever do Estado. Anteriormente, o serviço era atribuição do Ministério da Previdência e priorizava o atendimento a trabalhadores com carteira assinada, através do falecido Inamps.

Por ter que dar conta de um país de proporções continentais, com 210 milhões de pessoas e muitas carências, incluindo a defasagem de saneamento (causador de falta de higiene e proliferação de doenças), os desafios do SUS são por óbvio gigantescos. A responsabilidade de atender a toda a população brasileira, sem distinção, é do Ministério da Saúde, mas a atuação é descentralizada, envolvendo as secretarias de Saúde estaduais e municipais. É aí que entra a pressão sobre os prefeitos, que ficam na ponta e lá enfrentam diretamente as reclamações pelas filas para atendimento ambulatorial e hospitalar, falta de medicamentos e de profissionais. E agora com o agravante de que uma das áreas mais deficitárias do sistema é exatamente a de leitos em UTI para internação de pacientes com quadros graves, necessidade que se multiplicará com a covid-19. 

Some-se a isso a redução da verba da saúde com a criação do teto de gastos (PEC 55), enviada pelo governo Temer, criticada por especialistas e parlamentares por diminuir investimentos em uma área já defasada, mas aplaudida por defensores dos cortes necessários para a recuperação econômica do país. Assim, temos uma destinação de recursos em 2020 menor que a de 2019 para a pasta da Saúde (são $136 bi ante $147bi), tudo isso antes da epidemia do coronavírus, que fique claro. 

Na véspera da epidemia, já tínhamos casos de vários municípios em que a saúde enfrentava sérios problemas de desabastecimento e falta de pagamento dos funcionários havia meses – maior exemplo é o Rio de Janeiro. Isso impacta, por supor, a popularidade dos prefeitos atingidos. Pesquisa realizada pelo Ideia Big Data há uma semana mostrou que a avaliação do conjunto dos prefeitos do Brasil está repartida em terços, numa divisão semelhante à do presidente. Os entrevistados consideram que 34% dos prefeitos vêm fazendo um trabalho regular, 32% um trabalho ruim ou péssimo e 31% bom ou ótimo. A avaliação negativa é maior quanto menor a escolaridade e renda, apresentando melhora à medida que aumentam a renda e a escolaridade dos entrevistados. Contudo, uma diferença marcante se dá na questão geográfica, onde o Nordeste apresenta um valor mais alto para avaliação dos prefeitos em comparação com o presidente e o Sudeste vai na direção oposta. Pesa a avaliação do trabalho dos prefeitos nas capitais e regiões metropolitanas, pressionados por estes e por outros problemas. 

Promessas de resolver o conjunto de adversidades na saúde são encaradas com ceticismo na hora da campanha. É uma área em que certamente não há espaço para fantasia mirabolantes. Por tudo isso, o eleitor faz coro com as primeiras frases de uma das músicas mais alto astral na voz de Rita Lee: “Me cansei de lero-lero. Dá licença mas eu vou sair do sério. Quero mais saúde”. 

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do Ideia Big Data.

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