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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Como as mulheres lideram na pandemia

Equipe BR Político

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Por Cila Schulman*

Antes um atributo considerado fundamental para o sucesso de um líder político, a compaixão andava fora de moda. Prima da empatia – aquela capacidade de se colocar no lugar do outro – a compaixão é de fato uma ação positiva tomada na direção de aliviar o sofrimento do próximo, sem contudo invadir o seu espaço.

Jacinda Arden, a jovem primeira-ministra da Nova Zelândia, é mestra nesta arte. Um exemplo foi a série de reações dela diante do ataque terrorista em Christchurch, com a morte de 40 pessoas, ano passado. Entre outros movimentos, ao prestar solidariedade e abraçar familiares das vítimas, a agnóstica Arden usou um lenço pra cobrir os cabelos, em respeito aos costumes dos imigrantes muçulmanos. Depois, abriu a primeira sessão do Parlamento com a saudação As-salamu alaikum (Que a paz esteja convosco).

Agora, na pandemia, Arden está dando show de liderança. Ela foi firme nas regras de isolamento social para proteger a população do vírus, mas suave ao responder a uma pergunta em uma entrevista coletiva, semana passada: “Vocês ficarão felizes em saber que nós consideramos tanto o coelho da Páscoa como a fada do dente entre os serviços essenciais”, disse. A questão resultou em um mutirão de desenhos e colagens de ovos de Páscoa nas janelas para alegrar o domingo das crianças em todo o país.

Empatia e compaixão são substantivos femininos. Assim como saúde, que significa energia e força, qualidades inerentes às mulheres trabalhadoras, chefes de família e tantas outras que lutam mais que outros durante a quarentena. São mulheres responsáveis por manter a casa, os filhos e os parentes mais velhos, muitas vezes mais expostas à covid-19 , ao stress e ao esgotamento físico, por suas funções sociais e profissionais.

“Hoje gostaria de recordá-los do que muitas mulheres fazem, inclusive neste momento de emergência de saúde, para cuidar de outros: médicas, enfermeiras, agentes das forças de segurança e agentes penitenciárias, funcionárias de lojas de produtos de primeira necessidade e muitas mães e irmãs que estão confinadas em casa com toda a família, com crianças, idosos e deficientes”, declarou o papa Francisco no início da semana, após a oração do Angelus. “Às vezes correm o risco de ser submetidas à violência por uma convivência da qual levam uma carga muito grande”, disse. “Oramos por elas, que o Senhor lhes dê forças e que nossas comunidades possam apoiá-las junto com suas famílias”.

Em todo o mundo, a questão da violência doméstica é uma preocupação durante o isolamento. No Rio de Janeiro e em São Paulo, calcula-se que os casos aumentaram em 50%, assim como cresceram as dificuldades para denunciar. Para ajudar, o governo federal criou um aplicativo e desburocratizou os pedidos de socorro. Ainda assim, não é fácil denunciar quando se está direto em casa com o companheiro abusivo. Há registro de homem que vai para a rua e na volta ameaça a mulher com a contaminação pelo vírus. Em um relacionamento abusivo, além da agressão física, as mulheres estão sujeitas à violência psicológica – ameaça, constrangimento e humilhação; à violência patrimonial – controle do dinheiro pelo companheiro, destruição de bens e documentos pessoais e à violência moral – calúnias e vida íntima exposta sem consentimento.

Em pesquisas de opinião pública, percebemos que as mulheres em geral se preocupam mais com o coletivo e são mais críticas às atitudes de governantes que impactam na vida das famílias. Levantamento feito pelo Ideia Big Data, entre os dias 6 a 8 de abril, mostrou que 71% das mulheres consideram que devemos ficar em isolamento “o tempo que for necessário”, contra 64% dos pesquisados em geral. Com relação ao desempenho do governo federal, 41% o consideram ruim ou péssimo, contra 34% do total. Elas também são mais pessimistas com relação à piora da economia (69% das mulheres, contra 65% do total) e vivem mais na corda bamba da informalidade (44% dos homens temem perder o emprego por causa da pandemia enquanto 46% das mulheres dizem não estar trabalhando no momento ou serem autônomas).

Entre os muitos memes que circularam no último mês, um ganhou destaque nos perfis de mulheres ativistas nas redes sociais. Trazia a foto de seis líderes no combate à pandemia: junto com a já citada Jacinda Arden, da Nova Zelândia, apareciam Angela Merkel, da Alemanha, Sanna Mirella Marin, da Finlândia, Sophie Wilmès, da Bélgica, Katrín Jakobsdóttir, da Islândia e Helle Thorning-Schmidt, da Dinamarca. Juntam-se a elas outras, como Tsai Ing-wen, de Taiwan e a primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg, que dedicou toda uma entrevista coletiva apenas às crianças para explicar que é permitido e esperado estarmos todos com medo, inclusive os adultos.

Saber comunicar-se é peça-chave em uma crise. Não tem receita, mas entre os ingredientes para fazer crescer a reputação do líder é preciso colocar credibilidade, transparência, assertividade, coerência e uma boa pitada de sentimento. Nestes tempos de populistas que competem para ganhar a medalha do mais malvado ou do mais caricato, as mulheres e sua capacidade de compaixão podem ser um verdadeiro antídoto contra o vírus.

*É jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É vice-presidente do Ideia Big Data.

 

 

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