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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: De Portugal para o mundo, o futuro é da geringonça

Equipe BR Político

Por Maurício Moura*

Tivemos eleições em Portugal nesse final de semana. E a política portuguesa moderna tem lembrado muito a fábula do leão e do ratinho. Dizia a lenda que certo dia, estava um leão a dormir quando um ratinho começou a correr por cima dele. O leão acordou, pôs-lhe a pata em cima, abriu o bocão e preparou-se para o engolir. Em perigo o ratinho gritou. “Me poupe desta vez e eu nunca o esquecerei. Quem sabe se um dia não precisarás de mim?” O leão ficou tão surpreso com esta ideia que levantou a pata e o deixou partir. Dias depois o leão caiu numa armadilha.

Como os caçadores o queriam oferecer vivo a um rei local, amarraram-no a uma árvore e partiram à procura de um meio para o transportarem. Nisto, apareceu o ratinho. Vendo a triste situação em que o leão se encontrava, roeu as cordas que o prendiam. E foi assim que um ratinho pequenino salvou o rei dos animais. Novamente, o partido Socialista do atual primeiro-ministro António Costa não atingiu a maioria absoluta e vai precisar dos outros partidos de esquerda (o Bloco de Esquerda e o PCP) para formar governo e manter a geringonça. Aliás, essa eleição lusitana oferece importantes apontamentos.

Primeiro, acabou definitivamente a era da maioria absoluta dos partidos de centro-esquerda ou centro-direita na Europa e no mundo. São inúmeros exemplos que corroboram essa tendência (e em repetidas eleições). Podemos citar Alemanha, Reino Unido, Itália, Israel e Espanha (que terá novas eleições em 10 de novembro porque não foi possível formar governo). No Canadá todos os dados de pesquisa de opinião pública apontam para um governo de minoria, onde nem os liberais do
primeiro-ministro Justin Trudeau nem os conservadores devem atingir a maioria. O mundo vive tempos de enorme diluição de votos e “formar” governo está tão complexo quanto governar. Em Portugal, com aproximadamente 37% dos votos válidos, o PS (Partido Socialista) vai novamente tentar compor com Bloco de Esquerda e PCP (Partido Comunista Português) e ainda deve abrir diálogo com
duas novas frentes políticas: o PAN e o Livre.

Além disso, a eleição portuguesa trouxe um elemento sempre preocupante para as democracias: aproximadamente 46% de abstenção. Houve um aumento de 1.5 ponto porcentual em relação ao pleito de 2015. Todavia, o efeito de opinião pública mais imediato é o fato dos governos de coalizões frágeis e instáveis, como o luso (por isso o apelido de geringonça), já começarem seus mandatos sem suporte majoritário para tocar a agenda para qual foram eleitos. Antigamente, os eleitos tinham uma “lua de mel” com a opinião pública no início de mandato. Isso acabou. Elevadas taxas de abstenção combinadas com diluição de votos entre diversos partidos resultam em governos mal-avaliados. Raríssimos são os governantes democráticos que possuem mais de 50% de avaliação positiva no mundo.

Terceiro, a eleição portuguesa foi inundada por uma onda de fake news. O próprio António Costa sofreu com uma acusação falsa e amplamente difundida nas redes de que estaria de férias durante a tragédia das queimadas no país. Portugal sempre teve a tradição de eleições pacatas (até chatas para os padrões brasileiros e americanos), mas 2019 se transformou em uma disputa raivosa entre narrativas falsas. Os debates eleitorais saudáveis nos países democráticos sangram com a
disseminação de fake news em escala. Portanto, nessa onda de multipartidarismo e busca de coalizões, Portugal nos ensina que para sobreviver na política contemporânea é preciso saber montar
geringonças. Ratinhos, coelhos, baleias terão se unir para salvar os leões e eventualmente aguentar as raposas para governar. E os eleitores, com tanta fake news, precisarão se educar ainda mais para não confundir gato por lebre.

*É economista, PhD em economia e política do setor público e professor visitante na George Washington University. Recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard. Fundador e presidente do IDEIA Big Data.

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