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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: ‘Ideologia! Eu quero uma pra viver’

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

“Meu partido é um coração partido”, já dizia Cazuza. Se estivesse vivo, o poeta dos anos 80 não estaria sozinho. O fenômeno da perda de ilusões com os partidos políticos ocorre no mundo todo. Tomemos o exemplo de Porto Rico, que na semana passada derrubou seu presidente. Lá, o autor do livro Guerra contra todos os porto-riquenhos, Nelson Denis, resumiu: “Aqui não existem dois partidos, existe apenas um, o PEB, Partido que Enche seus Bolsos.”

Pesquisas do nosso Ideia Big Data revelaram o sentimento dos brasileiros com o tema nas últimas eleições. Em levantamento feito em novembro de 2017, 53% dos eleitores disseram não querer votar em candidatos de nenhum dos partidos existentes e 66% dos eleitores disseram não querer votar em um candidato de nenhum dos três maiores partidos à época: PMDB, PT e PSDB. Mais: 67% das pessoas consideravam corruptos esses três partidos que haviam governado o País nos 23 anos anteriores.

Agora, na votação em primeiro turno da reforma da Previdência, o assunto partido político voltou para a agenda. O motivo foi de fundo programático: a opção de deputados de siglas que estão no espectro da esquerda, como PDT e PSB, terem votado a favor das mudanças, consideradas liberais. No centro da polêmica ficou a jovem deputada Tabata Amaral (PDT-SP), já suspensa e ainda ameaçada – como os demais – de expulsão do partido pelo qual se elegeu há 9 meses.

Logo após a votação, entre 14 e 17 de julho, verificamos que a aprovação de Tabata dobrou. O levantamento mostrou que 30% das pessoas que conheciam a deputada em junho aprovavam sua atuação no Congresso, sendo que o porcentual passou para 61% em julho. Ou seja, Tabata disparou para melhor a partir do conflito. Notícias publicadas nos jornais desde então deram conta ainda de que ela passou a ser disputada por diversos partidos, inclusive ideologicamente opostos ao seu.

O debate sobre o tema desaguou também em novo debate: o papel dos movimentos cívicos surgidos nos últimos anos no Brasil, dos quais vários parlamentares suspensos são participantes. Dirigentes partidários defendem que esses movimentos devam se tornar partidos formais. Uma das perguntas em oposição a isso é: será que o Brasil precisa de mais partidos, além dos 35 existentes e dos 75 em formação, já registrados no website do TSE com nome e tudo, tipo PSETE – Partido das Sete Causas ou PNC – Partido Nacional Corintiano?

Ou, pensando em outro caminho, será que o Congresso deveria enfrentar logo a discussão da reforma política, que inclui a adoção do voto distrital misto, onde o contato do eleitor com eleito será facilitado e ajudará a diminuir os custos de campanha, além de eliminar a pulverização partidária? Uma pista que estimula examinar a urgência do distrital é a falta de memória e conhecimento dos eleitores sobre os seus eleitos. Em pesquisa do Ideia feita em maio de 2018, 63,5% dos eleitores diziam não lembrar-se em quem votaram para deputado federal em 2014 e 69% diziam não ter acompanhado o trabalho do seu representante em Brasília. Números semelhantes foram encontrados para as assembleias legislativas: 68,5% não lembravam em quem votaram e 69,5% não acompanharam a atuação do seu deputado.

O ministro Luís Roberto Barroso, vice-presidente do TSE, propôs como primeiro passo a adoção, já em 2020, do voto distrital misto para vereadores em cidades com mais de 200 mil habitantes, as que têm segundo turno. Projeto do senador José Serra (PSDB-SP) tramita no mesmo sentido. Parece não haver, entretanto, tempo nem espaço para essa discussão agora, com o Congresso concentrado ainda na tramitação da reforma da Previdência e já preparando a próxima, a tributária.

Enquanto isso, continuaremos a discutir se é justo o repasse de R$ 3,7 bilhões de recursos públicos para os partidos nas eleições municipais de 2020, sem nos aprofundarmos, na verdade, sobre qual ideologia teremos para viver. Ou se assistiremos a tudo em cima do muro, em cima do muro.

É jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University e professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É vice-presidente do IDEIA Big Data.

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