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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Impeachment de Trump, um contragolpe eleitoral

Equipe BR Político

Por Maurício Moura*

Minha memória dos anos 80 me remete a dois episódios completamente aleatórios e inusitados. O primeiro é a lembrança do “telefone vermelho” da Casa Branca, também conhecido em inglês como Moscow – Washington Hotline. Tal foi uma linha direta de comunicação entre os governantes dos Estados Unidos e da URSS criada na década de 1960. Era uma linha entre os dois países, utilizada para aplacar diretamente as divergências e evitar conflitos entre as duas maiores potências mundiais durante a Guerra fria (por sinal, já em decadência na década de 80). O segundo é o filme Karate Kid de 1984. É uma história “underdog” no molde de um grande sucesso anterior de 1976, o filme Rocky. O filme conta a história de um jovem lutador que deseja aprender karatê, e para isso convence um experiente mestre a lhe dar aulas, que acabam por transformar-se em lições de vida. O tal mestre, o senhor Miyagi (um mestre Yoda do karate) pregava que “o melhor ataque está no contragolpe do ataque do seu adversário. Usar a energia e raiva do oponente a seu favor”.

E o que isso tem a ver com o telefone vermelho e o potencial impeachment de Donald Trump na América? Talvez muito. Primeiro, o “telefone vermelho” “morreu” e a URSS acabou. Todavia, uma ligação do salão oval para recém-eleito presidente da Ucrânia disparou um processo de impeachment contra Donald Trump. As conexões de Washington com aquela região do mundo continuam quentes (para dizer o mínimo). E diferente de outros processos anteriores de impeachment presidenciais (contra ex-presidentes Andrew Johnson, Richard Nixon e Bill Clinton), ocorre no coração de uma disputa presidencial. Algo, por si só, sem precedentes e de difícil previsão de impacto para ambos os espectros políticos americanos.

Na opinião pública americana, o tema deixa uma imensa margem para um duelo de narrativas. Segundo uma pesquisa recente da YouGov, 55% dos americanos acreditam que o processo de impeachment é necessário contra 45% que pensam ser desnecessário. A questão é que, entre os democratas, 87% acreditam ser necessário e 77% dos republicanos enxergam como desnecessário. O debate vai ocorrer entre os independentes (que estão divididos) com 51% que apontam como
desnecessário o impeachment. E lembrando que estados-chaves para o colégio eleitoral americano como Ohio, Michigan, Pennsylvania, Wisconsin, Arizona e Flórida abrigam um significativo contingente de independentes.

Assim como no Brasil, o tema do impeachment é basicamente político, mas diferente de Fernando Collor e Dilma Rousseff: o mandatário da Casa Branca tem a maioria do Senado com folga, tem uma base de sustentação popular relevante e ainda nada nas ondas positivas da economia. Porém, no campo dos eleitores independentes (nem democratas nem republicanos), vai ocorrer o real debate das narrativas sobre o impeachment e seus impactos nas eleições. Ali estará a disputa de votos real.
Nesse sentido, o que poderia parecer um golpe dos democratas em um presidente popularmente mais fraco que os anteriores (a avaliação positiva de Trump em torno de 43% é inferior aos seus antecessores Barack Obama e George W.Bush), pode se transformar numa incrível narrativa de “vitimização” do presidente Trump. Para o eleitor independente do meio oeste, esse processo todo soa como uma “confusão” que tira o foco dos políticos de Washington. Ao invés de cuidarem dos temas da
economia, saúde e educação, o establishment segue brigando em torno de um tema altamente polêmico.

Portanto, os ex-presidentes americanos (vivos ou mortos) que conviveram ao lado do “telefone vermelho” seguem atentos e, algumas vezes, perplexos com potencial atômico das palavras do atual presidente Trump, mas o senhor Miyagi deve olhar os democratas e pensar: “Cuidado com o contragolpe”.

*É economista, PhD em economia e política do setor público e professor visitante na George Washington University. Recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard. Fundador e presidente do IDEIA Big Data.

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