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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: O fim do eleitor mediano

Equipe BR Político

Por Mauricio Moura

O folclore popular nos conta que um dos lugares mais complexos de encontrar os “eleitores que irão decidir a eleição” (os indecisos) é Minas Gerais. Uma fábula de pesquisa de opinião diz que na sondagem de boca de urna (aquela pesquisa pós o eleitor(a) ter votado) parte dos mineiros se diz “indeciso”. Em 1990, o segundo turno da eleição mineira para governador colocou frente a frente dois candidatos com o mesmo nome: Hélio Garcia x Hélio Costa. Ao serem perguntados espontaneamente em que iriam votar, os mineiros diziam: “no Hélio”. E se em Minas Gerais sempre foi difícil diferenciar os “indecisos” dos decididos ou “decisos” (como diriam os populares), a política moderna em todas as suas dimensões tem isolado ou quase extinto o “eleitor mediano”.

Da teoria política como herança da economia, o teorema do eleitor mediano nos aponta que (de maneira simplista) o(a) candidato(a) que captura ou “fisga” o centro do espectro dos eleitores eventualmente é o vencedor(a) em um pleito majoritário. Essa máxima valeu muito nas eleições gerais presidenciais americanas, quando Democratas ou Republicanos precisavam “moderar” suas posições para conquistar os “independentes”. Foi o pilar central da ascensão e alternância de poder dos partidos de centro esquerda e centro direita na Europa. E até no Brasil, o maior exemplo foi o PT “paz e amor” de 2002 que chegou ao poder com a “Carta aos brasileiros”.

O mundo polarizado das redes sociais mudou radicalmente esse espectro. Ao analisar as campanhas nacionais de 2019, a busca pelo eleitor mediano (ou centro) se diluiu fortemente em diversas burocracias. Um dos motivos foi a criação de novos partidos que quebraram o oligopólio dos partidos de centro (esquerda e direita). Essa diluição de votos produziu a necessidade de coalizões complexas e minoritárias como no caso da Espanha, Portugal, Canadá, Alemanha, Israel e até o Canadá.

Com mais partidos, cada um se dedica mais a garantir os votos do seu “nicho” de eleitores mais próximos e menos a adotar políticas e discursos conciliadores. O exemplo mais recente é a eleição geral do Reino Unido a ser realizada no dia 12 de dezembro. Todo o debate é pautado nas diferenças e nunca no consenso. Conservadores buscam os radicais do “Brexit”, os Trabalhistas buscam os eleitores que acreditam no socialismo do século 21, já os Liberais Democratas querem os “hard remainers” (que querem fortemente ficar na União Europeia) e o partido do Brexit querem todos que acreditam na saída brusca da União Europeia a qualquer custo e caos. O eleitor mediano foi esquecido até pela rainha no Reino Unido moderno.

No Brasil das eleições de 2020 se preparem para as campanhas de “nichos”. Primeiro, com fim das coligações proporcionais teremos uma maior quantidade de candidatos(as) majoritários. Qual será a missão desses candidatos(as)? Garantir os votos dos grupos de maior afinidade no primeiro turno e debater as diferenças e não os consensos. Teremos um incentivo teórico a fugir do eleitor mediando e procurar o eleitor das “pontas”. Portanto, se preparem para uma eleição de embates e não de debates (mais uma!). A sorte é que eleições municipais obrigam os(as) candidatos(as) a falar de problemas da cidade.

Segundo, com mais candidatos e votos mais diluídos, muito provavelmente teremos mais disputas de segundo turno. E aí? Com segundo turno teremos uma busca pelo eleitor mediano? A julgar pelas discussões políticas polarizadas atuais, o grande favorito dos “segundos turnos” pelo Brasil de 2020 é uma coalizão muita conhecida: o de brancos, nulos e abstenção. Coligação que venceu nas capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo em 2016. Vamos começar a compreender melhor os mineiros que acabaram de votar e mesmo assim se sentem indecisos. Se fosse no Reino Unido, diríamos: “God save the median voter”.

Mauricio Moura: Economista, PhD em Economia e Política do Setor Público. Maurício é professor visitante na George Washington University e recebeu recentemente certificado do Programa da Owner/President Management da Universidade de Harvard. Fundador e Presidente do Ideia Big Data.

 

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