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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: O futuro das eleições

Equipe BR Político

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Por Cila Schulman*

A pandemia acelerou a forma como fazemos compras e pagamentos, como nos relacionamos social e profissionalmente, como estudamos e como nos divertimos. De repente, não mais que de repente, quase tudo é online. Exceto atividades que enfrentam obstáculos maiores para mudar, seja por causa de desafios tecnológicos ou de resistências geracionais, seja por questões de segurança ou por ameaçar o status quo. As eleições se encaixam nessas últimas alternativas. Como persistir com a democracia e o seu calendário eleitoral quando aglomerações, eventos, filas e até apertos de mão representam alto risco de contrair o vírus? Como imaginar pegar numa caneta para assinar a presença ou apertar os números no teclado da urna eletrônica sabendo que o patógeno sobrevive até cinco dias no plástico? Eis algumas das questões.

A cada quatro anos, entre outubro e novembro, as eleições municipais no Brasil coincidem com o período das eleições presidenciais nos Estados Unidos, guardada a diversidade do processo nos dois países. Nos Estados Unidos, os eleitores se inscrevem para votar, enquanto que no Brasil o voto é obrigatório. Nos Estados Unidos, a campanha vai crescendo, com a realização das primárias, sistema incomum e menos impactante mesmo quando ocorre em determinados partidos no Brasil. Nos Estados Unidos, as regras podem mudar de um estado para o outro, enquanto que no Brasil qualquer decisão eleitoral é federal. Nos Estados Unidos, o voto à distância é permitido em alguns estados, embora a maioria só aceite a modalidade com alguma justificativa, modelo que não poderia ser replicado no Brasil, onde toda eleição é presencial.

Por todas as diferenças apontadas, nos Estados Unidos, embora distante, o debate sobre a possibilidade de uma votação totalmente online já é uma realidade. Entretanto, a barreira para adotar sistemas via internet para a eleição geral esbarra em importantes questões de segurança cibernética. Em alguns estados, como West Virginia, militares e outros eleitores que vivem em locais remotos, ou pessoas com deficiência, já podem votar via email, o que será adotado em experiências piloto brevemente em New Jersey, Delaware e outros estados. O perigo de hackeamento, no entanto, é considerado ainda alto para a adoção desses modelos de forma mais ampla.

Aqui no Brasil, na contramão da tecnologia, paira a dúvida de que a votação eletrônica poderia ser fraudada e que, portanto, deveríamos voltar à arcaica cédula em papel, uma tese estimulada pelo próprio presidente da República. De qualquer forma, para a eleição municipal o que está em discussão, devido à pandemia, por enquanto, é a possibilidade de adiar a data. O novo presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, já adiantou que o limite para postergar seria dezembro (para ficar no ano fiscal) e falou em espairar a votação em até quatro dias para evitar aglomerações. O motivo principal de um retardamento, na previsão do ministro, seria a dificuldade de testar as milhares de urnas eletrônicas, num cronograma que já está sendo dilatado pelo isolamento social. O que ninguém que tem juízo institucional defende são ideias tiradas da cartola como prorrogação de mandato e outras invencionices.

Do lado dos candidatos e dos profissionais de marketing político, as incertezas quanto ao andamento das campanhas não são poucas. Mas todas superáveis. Não é tão caloroso e emocionante, mas é possível, sim, entrar em contato com o eleitor de forma exclusivamente digital. É possível realizar convenções de maneira virtual (as ferramentas estão disponíveis e o TSE já deu parecer favorável, pois a escolha dos candidatos é logo, de 20 de julho a 5 de agosto), efetuar pesquisas quantitativas e qualitativas via telefone e aplicativos, implementar reuniões políticas por videoconferência, fazer propaganda direta via novas soluções disponíveis no mercado e ter contato com o público pelas já utilizadas redes sociais.

O fato de as pessoas estarem mais em casa, com maior disponibilidade para um contato, especialmente as mais jovens e de maior rechaço à comunicação política em tempos normais, pode ser visto mais como uma oportunidade do que como um óbice. Pesquisa do Ideia Big Data com 1.706 respondentes, dias 5 e 6 de maio, mostrou que em média, 79% dos mais jovens, de 18 a 29 anos, declaram não sair de casa ou só sair quando necessário durante a pandemia, enquanto que os adultos a partir de 30 (e até 49 anos) são os que menos declaram ficar em casa. Em outro levantamento do Ideia, vimos que os respondentes estão mais ativos em ações como aplicativos de videochamadas (24%) ou cursos online (22%), ambas chances para um contato inteligente. Pode ser uma brecha para partidos e candidatos fazerem treinamento de voluntários, por exemplo.

Evidentemente, os políticos que ainda não aderiram aos novos formatos, precisam correr atrás rapidamente ou então serão atropelados pelos mais jovens ou mais antenados. Os que se atualizarem, por sua vez, poderão vencer um pleito sem nunca terem abraçado um só eleitor. Pode acreditar. As ideias e a viabilidade das mesmas é ampla e são muitas as informações disponíveis. Dados abertos de pesquisas mostram que desde o início da pandemia os americanos gastaram 20% mais de tempo em aplicativos. Aprendemos também que as ferramentas de vídeo chat tiveram um aumento de 627% em downloads e que os usuários de redes como Facebook e Instagram expandiu em 20%. Mais de 80% dos consumidores nos Estados Unidos e Reino Unido aumentaram o seu consumo de conteúdo, assistindo mais TV a cabo e vídeo online (Youtube, Tik Tok). No Brasil não é muito diferente.

Quando examinamos os dados abertos por geração, vemos que os da Geração Z (16 a 23 anos de idade) estão consumindo mais vídeos online, ouvindo mais música e jogando videogames, os Millenials (24 a 37 anos de idade) estão consumindo mais conteúdo a partir de diversos tipos de mídia, a Geração X (38 a 56 anos) aumentou o consumo de TV online e os Baby Boomers (57 a 64 anos) estão assistindo TV a cabo. Segundo o Global Web Index, os Millenials também estão procurando receitas online. E você, candidato, pode perguntar a partir da última informação: e eu com isso? Pois, vá para a cozinha, ligue a sua câmera e dê dicas de alimentação saudável, de economia doméstica ou simplesmente faça graça. Só não perca a oportunidade de engajar com o seu eleitor, pois o tempo passa, o tempo voa e só quem usar esse momento vai conseguir um mandato numa boa.

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política, trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80 e é vice-presidente do IDEIA Big Data.

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