Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: O quebra-cabeça da privacidade na covid-19

Equipe BR Político

Exclusivo para assinantes

Por Cila Schulmann*

“Se um cego conduz um outro, caem ambos no túmulo” é uma das cerca de cem máximas retratadas em Os Provérbios Flamengos por Pieter Bruegel, o Velho, no século 16, pintura que mora hoje no acervo da Gemäldegalerie, em Berlim. A cena da procissão de cegos que caminha na direção de um precipício – significando que tolos costumam seguir outros tolos – fica no lado superior direito. Conheço os detalhes porque enfrento as noites de quarentena montando um quebra-cabeça desta obra do Renascimento em parceria com o meu pai, de 88 anos, e com o meu filho, de 22. 

Sorte que o nosso Bruegel particular, de 3 mil peças, foi preservado pela minha mãe (84) em um armário ao longo dos anos, já que durante a pandemia até a Amazon decidiu interromper a entrega de quebra-cabeças. É que o jogo avançou da posição 2.000 para a sétima na lista de preferências dos consumidores neste março, fazendo a gigante de e-commerce parar de aceitar sua encomenda para priorizar o envio de produtos de necessidade básica, como remédios, produtos de limpeza e de higiene. 

A corrida aos quebra-cabeças faz sentido, pois além de estimular o raciocínio lógico e de ser a perfeita tradução de passatempo em noites de isolamento (pra mim funciona quase como uma meditação), o jogo tem esse poder de reunir gerações em torno de um mesmo interesse. Se um jogo une, outros hábitos revelam ainda mais as nossas diferenças geracionais durante este período. 

Pesquisa do Ideia Big Data, feita por aplicativo mobile, nos dias 24 e 25 de março, mostrou que enquanto 60% dos jovens de 18 a 29 anos se distraem da epidemia assistindo filmes e séries tipo Netflix, cai para 48% o percentual das pessoas de mais de 50 anos que estão fazendo o mesmo programa. 

O jeito de se informar também varia de geração pra geração. 33% dos mais jovens acessam as notícias via websites, enquanto os de mais de 50 anos que usam a internet para este fim são apenas 22%. Cresce entre os mais jovens o uso de aplicativos como o Zoom Room Videogroup, usado agora para festas virtuais, no impedimento das offline. 22% dos mais jovens estão espairecendo com ligações para amigos, contra 16% da faixa de mais idade. Em oposição a esses contrastes, os noticiários de TV juntam num mesmo sofá gente de todas as idades. 44% do total se informam através deste meio (42% entre os jovens, 45% entre os mais de 50 anos). 

Sei, há alguns parágrafos passa pela sua cabeça que eu citei a idade de vários membros da minha família, exceto a minha. A justificativa é que temo criar uma confusão virtual por algum cruzamento, ao revelar a minha idade verdadeira em artigo postado na internet. Sim, eu confesso que engano o aplicativo de relacionamentos Tinder e para isso sou obrigada a mentir sobre a minha data de nascimento também no Facebook, pois os dados de ambos conversam entre si. Aprendi a burlar esse número não por vaidade, mas porque virei grupo de risco de não ser paquerada ao passar de uma faixa de idade para outra, há alguns anos. Não precisa se preocupar com os meus valores éticos. Assim que dá match, eu informo a real e até aqui não tive problemas, apenas risadas.  

Aprender a lidar com algoritmos como os do Tinder faz parte da sobrevivência da minha geração. Agora, com a pandemia, essa habilidade será mais testada. Um exemplo: vimos como distópico o aplicativo criado pela China, em fevereiro, para monitorar a saúde dos seus cidadãos. O software controla onde e quando cada pessoa esteve e obriga quem receber bandeira amarela ou vermelha a passar pelo teste da covid-19. Se der positivo, o isolamento é mandatório. Apenas algumas semanas depois, o mundo ocidental sonha com algo nestes termos para proteção da sociedade, ainda que a maioria não queira viver num regime totalitário como o da China. Então, qual o limite?

O CEO do Ideia, dr. Mauricio Moura, integra um grupo de professores da George Washington University que estuda o impacto da covid-19 em 80 países. Entre as conclusões iniciais, baseadas em 120 mil entrevistas online, somadas ao monitoramento de 50 milhões de buscas diárias no Google e de 15 milhões de contas do Twitter, está a da questão da privacidade.  O dilema é o quanto concordaremos em abrir mão da nossa intimidade ao fornecer dados tão pessoais para o governo em troca do bem coletivo. 

Convém lembrar que este será um caminho sem volta, embora trilhado em tempo de emergência. Convém lembrar, ainda, que o mundo andava no caminho oposto. No Brasil, estava para começar a valer a Lei Geral de Proteção de Dados. O senador Antonio Anastasia (PSD-MG) apresentou projeto na última segunda-feira propondo, entre muitas medidas, postergar a entrada em vigor da lei para daqui a 18 meses para dar tempo de todos se adaptarem. No paralelo, redes sociais como Twitter, Facebook e Youtube passaram a cancelar posts que ameacem a saúde pública. O presidente Bolsonaro e alguns ministros do governo brasileiro já foram atingidos. Mas até aonde as redes e os governos podem decidir o que é certo e o que é errado quando se trata de liberdade de expressão? Eis outro dilema, no mesmo sentido.

Enquanto trabalhamos para juntar as peças do grande quebra-cabeça da pandemia, descobrimos que outros hábitos saudáveis unem mais velhos e mais novos. Na mesma pesquisa citada acima, as pessoas dizem que a leitura está sendo a atividade mais praticada durante o isolamento social.  O porcentual de jovens que escolheu essa (e outras alternativas múltiplas) é idêntico ao de pessoas de mais de 50 anos e da maioria: 30%. Não por acaso o livro Ensaio sobre a Cegueira, a obra-prima de José Saramago, está entre os mais vendidos da temporada de pandemia. Afinal, em terra de cego, né?

*É jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É vice-presidente do Ideia Big Data.

Tudo o que sabemos sobre:

Covid-19Tinder