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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: O vírus nos tempos das fake news

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

Mal foi confirmado no Brasil o primeiro caso de coronavírus (COVID-19) pra pipocar nos tais grupos da família o vídeo de um “químico autodidata” que provou, por A+B, que vinagre era mais eficiente para limpar as mãos do que álcool em gel – este último, segundo o sujeito, uma invenção da indústria, com o apoio da Rede Globo, para fazer a gente gastar dinheiro e proliferar a doença. O despautério não foi suficiente para o inevitável: o vídeo viralizou (com o perdão do trocadilho) e foi preciso uma dezena de desmentidos de químicos devidamente formados para evitar, afinal, o desabastecimento nos supermercados do tempero da salada nossa de cada dia.

Entre os séculos 19 e 20, o mundo sofreu com uma dúzia de pandemias, sendo a gripe espanhola a maior da história, ao contaminar 50% da população mundial. No século 21, pandemia é tendência, já que, entre outras causas, vivemos em aglomerações urbanas e viajamos com frequência de um país para o outro, estilo de vida propício para disseminar vírus em proporções globais. Além de doenças, a humanidade nunca teve tanta capacidade para espalhar notícias, boatos e pânico de forma instantânea. Na China de hoje, nascedouro do COVID-19, 60% das pessoas estão conectadas à internet. Para título de comparação, quando ocorreu a crise da influenza Sars, em 2003, eram apenas 6% conectadas.

Outro exemplo: em 2009, quando aconteceu a pandemia de H1N1, influenza conhecida primeiro como gripe suína, teve todo tipo de rumor. Apavorado com o risco de transmissão do vírus, o governo egípcio simplesmente dizimou todo o seu rebanho de 300 mil porquinhos. Aqui, causou risada entre adversários políticos e crise com os produtores de carne suína um vídeo postado no Youtube de uma fala editada do então governador de São Paulo, José Serra (autoridade da área por sua exemplar gestão como ministro da Saúde), que procurava acalmar a população, mas dizia, a uma certa altura, que “o providencial é não chegar muito perto do porquinho”. Mas pensa que naquela época nem existia o WhatsApp e que o iPhone – o aparelho que revolucionou a comunicação, levando-a para a palma da nossa mão – era uma inacessível novidade pra maioria dos mortais.

Contágio em massa

Em 2010, o total de acessos à Internet em nosso país somava 20 milhões, sendo 14,6 milhões via celular. Hoje, são 120 milhões de pessoas conectadas, com 230 milhões de celulares em uso. Quanta diferença. É dos anos recentes, também, a praga das fake news, as notícias falsas capazes de mudar o rumo político de um país, de derrubar os lucros de uma marca consagrada e até de provocar mortes. Casos registrados apenas em 2014, para ilustrar: 1) o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, 33, espancada por uma multidão até o seu trágico fim, no Guarujá, motivado por uma notícia falsa compartilhada no Facebook; 2) a morte de duas pessoas e dezenas hospitalizadas por consumo excessivo de sal quando popularizou-se uma receita que mandava tomar água quente com sal como cura milagrosa para o super letal (90% de mortalidade) vírus Ebola, na África.

Para citar a perda financeira de uma marca devido às últimas fake news, temos a cerveja Corona, que já projetou um prejuízo de US$ 170 milhões no lucro, só por ter no nome um pedaço da palavra coronavírus, nada mais do que isso. Dados abertos divulgados na semana passada mostram que 38% dos americanos não comprariam a cerveja mexicana, temerosos de um contágio imaginário. Por falar em contágio, 11 anos depois do seu lançamento, o filme do mesmo nome, O Contágio, entrou na lista dos mais assistidos no iTunes. Dirigido por Steven Soderbergh, o filme conta a história de Beth Emhoff, personagem interpretada pela atriz Gwyneth Paltrow, que leva um vírus mortal de uma viagem de trabalho de Hong Kong para Minnesota. A vida imita a arte? Talvez, mas de acordo com entendidos em psicologia, o que faz as pessoas assistirem ao filme é a busca de um pseudo controle para o medo e para o desconhecimento que o coronavírus trouxe.

Compartilhamento

Em pesquisa realizada pelo Ideia Big Data, em dezembro, 3 em cada 4 pessoas disseram já ter recebido fake news sobre política via redes sociais. Quando perguntadas sobre checagem da informação compartilhada, 47% das pessoas afirmou conferir a veracidade da informação antes de compartilhar, porém apenas 13% disseram sempre reconhecer quando se trata de fake news e 15% confessaram que já compartilharam fake news com outros contatos. WhatsApp e Facebook são as redes que mais disseminam fake news, de acordo com a pesquisa: 7 em cada 10 pessoas já receberam conteúdo falso por uma dessas redes e a origem normalmente é alguém próximo, como amigos (45%), familiares (32%) e colegas de trabalho (24%).

Motivações políticas se misturam facilmente com fake news e com coronavírus, sobretudo em tempos de eleições. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a dizer que o vírus era uma farsa promovida pelos concorrentes democratas. Em outro comício, culpou a imprensa pelas notícias. Depois de confirmada a primeira morte no país, viu por bem armar uma entrevista coletiva com personalidades reconhecidas do meio médico e apontar seu vice, Mike Pence, para conduzir a crise. As perdas econômicas e o agendamento do tema da saúde (e de seus custos ao público) são alguns dos poucos assuntos que podem ameaçar a sua reeleição. Então, por enquanto, é melhor levar a sério.

Do outro lado do planeta e em antagonismo político e econômico com os Estados Unidos, China e Irã lidam com o impasse de forma pouco democrática, de acordo com os seus próprios regimes. A China apartou e colocou em risco milhares de pessoas com o objetivo (parece que satisfatório) de domar o bicho. Construiu um hospital em 10 dias, algo pouco provável em países que precisam de alvará, licenças, aprovação de recursos e outras tantas burocracias para obras muito menores.

No Irã, a luta contra a epidemia é a mais desafiadora, aparentemente com maior nível de mortalidade e menor de transparência do que em outras nações. O aiatolá Ali Khamenei acusou “os inimigos do Irã”, aka os Estados Unidos, de exagerarem sobre o coronavírus para sabotar as eleições parlamentares de meados de fevereiro. Resultado é que o comparecimento às urnas foi abaixo dos 43%, o menor desde a revolução de 1979, o país está isolado, a população aterrorizada e oito membros do primeiro escalão do governo já foram contaminados, sendo que um morreu ontem. Os dados sobre o número de mortes variam de 66, de acordo com o governo, a 650, segundo a oposição.

Transparência

No caminho oposto, a transparência tem sido, até aqui, uma medida de acerto do governo brasileiro desde que foi confirmado o primeiro caso, em São Paulo, após o carnaval. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem atualizado a população com frequência, dado informações objetivas e se mostrado acessível à imprensa e às autoridades da área. O esforço não impede a propagação das fake news – além das receitas mirabolantes, a ideia de que o vírus foi trazido para cá para atrapalhar o sucesso das manifestações em favor do presidente Bolsonaro, marcadas para 15 de março, é campeã nos grupos de WhatsApp dos apoiadores do governo. No afã de proteger os eleitores, um deputado chegou a pedir ao presidente o fechamento de todas as fronteiras do país. Pode não ter lembrado que temos a terceira maior fronteira terrestre do mundo, pela qual passa contrabando, drogas… Acontece. Para lutar contra as notícias falsas, com o entendimento de que elas realmente atrapalham o combate à doença, o Ministério da Saúde foi ágil em colocar no ar o Canal Saúde sem Fake News, na Internet. Boa ideia.

De acordo com estudos acadêmicos publicados recentemente, metade da população dos Estados Unidos endossa uma ou mais teorias conspiratórias sobre saúde, vide o crime da campanha com informações deturpadas contra vacinação, que trouxe de volta epidemias já controladas, como o sarampo. Os mesmos estudos mostram que partilhar fake news ou pseudociência é mais atrativo para os usuários de redes sociais do que divulgar fatos verídicos sobre o tema.

O impulso de apertar o botão teria a ver com o reconhecimento do status social de quem envia a notícia. Com isso, a pessoa se mostraria mais bem informada e até mais amorosa – por preocupada com o próximo – do que as demais. Numa sociedade polarizada como a atual, transmitir posts que corroborem com a escolha entre os times “é muita manchete pra pouca notícia, somente uma gripe” versus “corram para as montanhas, os governos estão mentindo” gera também uma prazerosa sensação de pertencimento a uma das tribos. Já quem recebe uma notícia bombástica com um LEIA É IMPORTANTE pode entrar em desespero pela proximidade e instantaneidade, entendendo que um caso de morte por coronavírus no interior da Coreia do Sul seja mais perigoso do que o aumento em 488% dos casos de dengue aqui no Brasil, em 2019.

Lavar as mãos com frequência, usar álcool em gel 70%, adotar medidas da chamada etiqueta respiratória, como não tossir na cara do coleguinha, tentar não contribuir para sobrecarregar os pronto-socorros no primeiro espirro, controlar-se para não correr às farmácias (usar máscaras somente se estiver doente), ficar de olho no calendário de vacinação contra influenza e cuidar dos entes queridos mais idosos são práticas simples e eficazes que podem não mexer tanto com a sua adrenalina quanto compartilhar uma notícia apocalíptica, mas experimente contar até dez. Pronto, passou.

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do Ideia Big Data.