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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Por quem não dormem os presidentes

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

A insônia atinge um porcentual cada vez maior da população. Segundo a Associação Mundial do Sono, atualmente, 45% das pessoas sofrem deste tipo de distúrbio, o que aumenta a irritabilidade durante o dia, traz um sentimento de insatisfação constante, até depressão. Entre as causas, estão a ansiedade e as crescentes horas passadas com os olhos nas telas dos celulares e computadores, especialmente à noite. Se existisse uma pesquisa para calcular especificamente o motivo da insônia aguda dos presidentes, diria que, além do estresse próprio do cargo e das consequências dos estímulos da luz azul, a maioria padece da ameaça de ver saltar dos seus smartphones, numa madrugada qualquer, figuras como a da francesa Priscillia Ludosky, a cidadã de Seine-et-Marne que iniciou uma petição online contra o preço dos combustíveis e acendeu o pavio do movimento Coletes Amarelos em toda a França, motivo de noites mal dormidas para o presidente Emmanuel Macron até hoje, quase dois anos depois.

Da França ao Chile, do Equador ao Líbano, desde a Primavera Árabe de 2010, os movimentos horizontalizados, apartidários e criados a partir da internet, que ocupam as ruas com multidões indignadas, por vezes enfurecidas, têm como ponto em comum começar com algo considerado menor – ou imperceptível para a inteligência dos governos – e acabar com algo de proporção enorme, como a queda dos próprios governos. Na Índia, o gatilho foi o aumento do preço da cebola, por exemplo. No entanto, algumas motivações são recorrentes. O estopim para muitos países virarem de cabeça pra baixo neste século 21 foi o preço do transporte coletivo e/ou dos combustíveis. Inclusive no Brasil de 2013, com os 20 centavos, e no de 2018, com a greve dos caminhoneiros. Outros países explodem pela percepção de excesso de privilégios de alguns ou retirada de privilégios de outros, como na França, que depois dos combustíveis viu o encaminhamento da reforma da Previdência resultar em uma greve histórica. Mexer com temas sensíveis e com setores organizados continua sendo faísca que incendeia protestos rapidamente, ainda mais com mobilização via WhatsApp.

O Brasil venceu os obstáculos que levaram à Reforma da Previdência, ano passado, mas uma declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, no início deste mês, causou a insônia da vez. Ele pediu desculpas e disse que foi mal interpretado por ter falado sobre os servidores públicos e sobre o tamanho do Estado, na FGV, dizendo que “o hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo e ele quer aumento automático”. Em pesquisa realizada pelo Ideia Big Data, entre os dias 11 e 13 de fevereiro, a população ficou dividida com a comparação feita pelo ministro. Na mesma pesquisa, a aprovação de uma reforma administrativa teve a adesão de 37% dos entrevistados, sendo que 52% do total considera que ela deveria valer para todos os servidores e não apenas para os novos servidores, forma como deve ser encaminhada pelo governo para facilitar a tramitação e evitar obstáculos jurídicos (apenas 15% concordam com essa ideia).

Mexer com reforma administrativa é mexer com 12 milhões de servidores e centenas de sindicatos, associações e frentes. Além disso, como disse o então deputado Rogério Rosso quando negociava a Reforma da Previdência no governo Temer, “todo brasileiro tem pai, mãe, irmão, primo ou vizinho que é servidor público”. Apesar disso, ao longo da série de levantamentos de opinião pública que fazemos sobre as reformas econômicas, desde o ano passado, percebemos que, a exemplo do ganhador do Oscar, de forma geral não fica claro para boa parte dos espectadores quem é o parasita do título, se os pobres ou os ricos (no caso do filme), se os servidores ou o governo (no caso da reforma administrativa). Diferente da Reforma da Previdência ou da reforma tributária, a administrativa é uma pauta que mobiliza muito mais a categoria do que a população em geral. Um dos únicos pontos em que encontramos convergência é a proposta de que os servidores públicos passem por avaliação de desempenho para que possam receber promoções de cargo e aumentos salariais, com 66% de favorabilidade (setembro/2019). Ou seja, a princípio é uma reforma que causará embates e noites em claro para os envolvidos, provavelmente algumas greves, muita flexibilidade, mas não maior dor de cabeça nas ruas.

O presidente Bolsonaro sofre de apneia obstrutiva do sono – acorda com frequência por ter a respiração interrompida – mas tem os olhos bem abertos para as oscilações das redes sociais. Atento às movimentações dos seus apoiadores e com disciplina militar, não descansa para os riscos. Com um olho na popularidade e outro na pauta da economia, entre outras medidas, ele recentemente criticou a incidência de ICMS sobre os combustíveis. Desagradou governadores, mas parece ter ganhado tempo com uma turma que já se mostrou capaz de parar o País, a dos caminhoneiros. Até aqui, pode sonhar em paz.

* É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do Ideia Big Data.

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