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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Quase pretos de tão pobres

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

No excelente recém-lançado primeiro volume da trilogia Escravidão, o jornalista e pesquisador Laurentino Gomes trata da polêmica do feriado de quarta, 20, em homenagem ao herói mítico Zumbi dos Palmares. Há quem defenda que a data da assinatura da Lei Áurea, pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, seria o feriado nacional a ser comemorado – como o foi por 40 anos, até 1930.
“Comemorar o quê, questionam os críticos da Lei Áurea, se os cativos libertos e seus descendentes foram abandonados à própria sorte, sem nunca ter tido oportunidades reais de participar da sociedade brasileira na condição de cidadãos de pleno direito, com iguais oportunidades? De acordo com essa visão, a luta dos escravos brasileiros estaria mais bem representada pelo herói de Palmares e pela data de seu sacrifício nas matas de Alagoas”, escreve Laurentino.

Conta-se que Zumbi, mártir do mais importante reduto de resistência de escravos do Brasil colônia, o Quilombo dos Palmares, teve sua cabeça decepada e exposta em praça pública para servir de exemplo a outros rebeldes. A alternativa de abraçar a data do seu assassinato como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra veio por pressão dos movimentos de luta contra o racismo. O feriado virou lei em 2011, porém como não é obrigatório, vale para menos de 20% dos 5.561 municípios brasileiros.

Em pesquisa feita pelo IDEIA Big Data de 5 a 7 de novembro, 39% das pessoas concordaram com a frase: “O Brasil é um país amistoso com todos os povos, e criar o Dia da Consciência Negra nos faz parecer racista”. Os que mais aderiram foram os homens (44%) e entre os que mais discordaram, os moradores do Norte (56%), talvez não por acaso a Região de duas das cinco unidades da Federação onde 20 de novembro é feriado estadual: Amapá e Amazonas. As outras três são Alagoas (Estado de Zumbi), Mato Grosso e Rio de Janeiro.

Um primeiro aspecto da crítica ao feriado pode ter a ver com a dificuldade que temos, em nosso País, em lidar com minorias sociais. Ou pela nossa tradição de comemorarmos mais feriados religiosos, seguido por alguns cívicos (o único semelhante a Zumbi é Tiradentes). Outro aspecto é a impressão de que somos um país amistoso, como se a escravidão no Brasil tivesse sido quase poética. Mas não foi, de jeito nenhum. O Brasil foi o País que mais recebeu escravos nas Américas, quase 5 milhões de africanos. Durante mais de três séculos e meio, 4 em cada 10 negros vendidos como mercadoria tiveram como destino o nosso País. Foi também o último país a abolir a escravatura, 25 anos depois dos Estados Unidos e dois anos depois do penúltimo, Cuba.

Somos hoje o segundo país de maior população negra do mundo, com 115 milhões de afrodescendentes, mas a diferença de oportunidades para brancos e negros no Brasil continua abissal. Embora existentes, as políticas afirmativas são poucas, recentes, frágeis e nem sempre compreendidas. É como se a sociedade tivesse decretado que os afrodescendentes teriam direito à liberdade, mas não à instrução ou à mobilidade social.

Um exemplo é a política de cotas nas universidades. Semana passada, o IBGE anunciou que pela primeira vez o número de negros ultrapassou o de brancos nas universidades públicas (50.3%), ainda que continue sub-representado, já que a população de pretos e pardos soma 55,8% da população. Para 36% das pessoas ouvidas pelo IDEIA, “por privilegiar pessoas negras, o programa de cotas nas universidades acaba atrapalhando os demais concorrentes”. Quem mais adere a esta afirmação são homens (40%), pessoas de classe A-B (44%) e com ensino superior (43%). Ou seja, para muitos, esse tipo de política representa uma vantagem para os negros, sem levar em conta se historicamente eles tiveram menos acesso à educação básica, moradia, segurança, alimentação, saúde, estrutura familiar e outras condições para evoluir nos estudos. O tal do mérito.

No aspecto econômico, apesar da maioria dizer ao contrário, uma parcela de 16% concorda que “pessoas negras ganham menos porque escolhem trabalhar em cargos de menor importância” e outra de 13% com a frase “é um direito das empresas pagarem salários diferentes para brancos e negros ou homens e mulheres”, mesmo que a Constituição Federal assegure o contrário. Parte da crença de que seria aceitável pagar menos salário aos negros pode vir das funções herdadas do período colonial, onde lhes cabia a cozinha, a área de serviço ou as atividades do portão pra fora, como segurança, e nada mais.

Segundo dados do Ministério do Trabalho, quanto mais desce o grau de qualificação em nosso País, mais negro ele vai ficando. Ou, como mostra o IBGE, pretos e pardos são a maioria entre desocupados (64,2%) , subutilizados (66,1%), trabalhadores informais (47,3%) e minoria entre os que ocupam cargos gerenciais (29,9%). Entre os 10% mais pobres, 75.2% são negros. Na classe de rendimentos mais elevados apenas 11.9%. Segundo dados do IBGE e da ONU, os negros têm rendimentos em média 43% menor que não negros.

A pesquisa do IDEIA foi especialmente reveladora no que diz respeito aos preconceitos de cada um e dos outros. Por ter sido realizada em um aplicativo de web, onde o pesquisado responde sem supervisão, sentindo-se talvez mais livre para opinar, 41% das pessoas admitiram ter algum grau de racismo e preconceito. Numa autoclassificação, mais da metade das pessoas (56%) afirma não ter nenhum tipo de racismo ou preconceito, enquanto somente 15% dos seus conhecidos estariam na mesma condição. Todavia, o preconceito maior, na visão dos pesquisados, é com os pobres, e não com pessoas negras. Este argumento foi defendido por 68% da população. A discordância foi de 1/3.

Assim, para quem tem (ou não tem) feriado nesta quarta-feira, fica a sugestão de refletir sobre a data ao som de “Haiti”, obra-prima de Caetano e Gil: “De ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos/(E são quase todos pretos)/E aos quase brancos pobres como pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados.”

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É Vice-Presidente do IDEIA Big Data.

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