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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Sextorsão

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

“É a economia, estúpido”, frase dita em 1992 pelo estrategista James Carville, na campanha de Bill Clinton, continua atual no Brasil de 2019. Tanto que em nossa última pesquisa de opinião pública sobre conjuntura nacional, de setembro, um terço das pessoas considerou o desemprego como o maior problema do País. Ultimamente, todavia, ganhamos um concorrente à altura da economia para causar dor de cabeça: é a corrupção, estúpido, que ocupa o primeiro lugar no levantamento, com 33% das menções.

Corrupção não é um problema novo nem regional, óbvio, mas as atenções sobre o seu impacto, especialmente sobre a economia, foram intensificadas nos anos 90. Desde então, estudos do Banco Mundial mostram que a corrupção empobrece os países e suas populações, seja por reduzir a eficiência do gasto público, seja por diminuir a confiança dos investidores do setor produtivo. Simplificando, mais corrupção, pior para a economia.

No Brasil, o assunto ganha relevância desde 2014, com a Operação Lava Jato. Em pesquisa que realizamos em 2017, sobre as prioridades para o presidente que seria eleito no ano seguinte, acabar com a corrupção foi a opção escolhida por 49,3% da população. Vimos, ainda, que para 57% das pessoas, alguém envolvido com a Lava Jato, mesmo que não tivesse sido condenado, não era merecedor de voto. Em maio de 2018, em questão espontânea, ouvimos que 42,9% das pessoas tinham vergonha da corrupção no Brasil.

A “10º Edição do Barometro Global da Corrupção: América Latina e Caribe”, divulgada ontem pela Transparência Internacional, colocou luz sobre uma forma, digamos, diferente de corrupção. Ao menos trouxe novo significado para a expressão “sextorsão”, uma mistura de sexo e extorsão.

Se até então “sextorsão” era uma chantagem causada pela ameaça de divulgar fotos íntimas via internet, hoje passou a querer dizer também troca de favores sexuais por serviços públicos. No Brasil, segundo a ONG, 20% das pessoas declararam ter trocado favores sexuais por serviços públicos ou disseram conhecer alguém que trocou.

A pesquisa, que ouviu 17 mil pessoas em 18 países, mostra que as mulheres são mais vulneráveis aos pedidos de suborno em áreas em que elas são responsáveis pela família, como educação e saúde. Em toda região, uma de cada cinco mulheres passou pela “sextorsão”. Desalentador também foi saber que nada menos que 71% das pessoas consideram que a extorsão sexual é algo comum de acontecer, ocasionalmente.

Ao contrário da chamada grand corruption (grande corrupção), como a da Lava Jato, que envolve relações complexas entre agentes públicos de alto escalão e grupos econômicos privilegiados, a “sextorsão” fica no nível da petty bribe (pequeno suborno), envolvendo mulheres de classes baixas e serviços que teriam prestação obrigatória pelo Estado. Trata-se de uma realidade ainda mais triste para ocupar as nossas preocupações, que para além da economia e da corrupção, inclui agora
questões de gênero, de sexo e de muita estupidez.

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política, trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80 e é vice-presidente do IDEIA Big Data.

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