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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Uma geração cancelada na educação

Equipe BR Político

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Por Cila Schulman*

“Mamãe, eu estou igual a você, preocupada”, diz a menina Mel ao ajeitar o vestidinho da boneca. Embora não saiba o que é preocupação, a minha afilhada, de três anos de idade, sabe que tem algo errado, já que entre outros sinais, está direto em casa sem frequentar a creche há mais de dois meses. Assim, Mel repete o que sente a sua mãe e, segundo as nossas pesquisas, 90% da população brasileira durante a pandemia: preocupação.

Especialistas apontam o quanto é importante estimular as crianças de 0 a 6 anos na creche e na pré-escola, espaços de educação infantil onde os pequenos convivem, brincam, experimentam e aprendem. Priscila Cruz, presidente do movimento Todos pela Educação, resume: de 0 a 3 anos é o período de ouro da humanidade, a idade determinante para a formação cerebral, para o desenvolvimento cognitivo, físico, emocional e social da pessoa. Na sequência, vem a alfabetização, sem a qual o aluno não consegue avançar para outros níveis de aprendizado.

O Brasil já sofria de carências múltiplas em todas as etapas da educação, da infantil à superior. Um dado exemplar disso é que em nosso país mais da metade dos alunos de 8 anos não consegue estar plenamente alfabetizada, isso muito antes da pandemia. Agora, a situação se agrava, especialmente para a baixa renda.

Em pesquisa extensa sobre o tema, realizada pelo Ideia Big Data nos dias 12 e 13 de maio, levantamos que apenas 1 em cada 10 alunos, aproximadamente, está apto a fazer bom uso dos recursos virtuais no ensino à distância imposto pelo fechamento de escolas e faculdades por causa da Covid-19. Os demais não têm equipamentos ou autonomia para acompanhar as aulas.

“Essa percepção reflete uma realidade do ensino básico, que só recentemente passou a permitir (e apenas no Ensino Médio) o uso de aulas virtuais para parte do currículo. Diferentemente do Ensino Superior, em que existem regras claras quanto ao modelo EAD, no caso das escolas, as tecnologias têm sido usadas de forma complementar e raramente para as aulas propriamente ditas, daí essa percepção de enorme despreparo”, analisa o especialista em educação Bruno Rabin, CEO da BRCE Consultoria Educacional, que participou da elaboração do questionário da pesquisa.

O abismo que separa os alunos das redes pública e privada fica ainda mais exposto nesta situação de emergência. Enquanto dois terços dos alunos de escolas particulares têm acesso a computadores, os da rede pública ficam limitados ao uso de smartphones ou tablets. Ou a uma realidade ainda mais escassa: 1 a cada 5 alunos da rede pública não tem qualquer acesso a recursos tecnológicos.

Os pais mais aflitos para que as aulas voltem ao normal são os de crianças na idade da Mel, de 6 anos ou menos (20%), contra 12% dos pais com filhos que têm acima de 14 anos. “Essa diferença está em consonância com os maiores desafios de cuidado com crianças mais novas em casa, tanto para as tarefas escolares quanto para o cotidiano de forma geral, o que é revelador de uma função adicional da escola como espaço de cuidado”, explica Rabin.

Mas a geração que de fato sente-se cancelada, conforme a linguagem da internet, é a dos alunos que prestariam o Enem em novembro ou dos que já cursam o ensino superior. Projeção feita pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras do Ensino Superior – Semesp – estima que 484 mil alunos podem ter que abandonar a faculdade este ano devido à queda nas condições financeiras de suas famílias. Já para os alunos que estavam se preparando para o Enem, a situação é de insegurança. Perguntadas sobre a data da prova, 36% das famílias com filhos matriculados na rede pública preferiam que fosse adiada, enquanto apenas 26% do ensino público gostariam que fosse mantida. Se o adiamento protege os alunos de baixa renda que não têm recursos para estudar em casa, por outro lado pode colocar em risco o calendário do ensino superior, que terá que aguardar os resultados das provas para iniciar as aulas no próximo ano letivo.

Por esta falta de clareza sobre o que vai acontecer numa etapa da vida em que a formação para o futuro e o convívio social são algumas das questões mais valorizadas, é que vemos em nossas pesquisas que entre os jovens, além da preocupação, os sentimentos mais destacados na pandemia são a ansiedade (45%) e o medo (37%). E, diferente da pequena Mel, embora jovens, eles sabem o que estes sentimentos significam.

*É jornalista com especialização em Gestão Política pela George Washington University. É professora convidada de cursos de formação política. Trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 80. É Vice-Presidente do IDEIA Big Data.

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