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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Opinião Ideia Big Data: Tecnologia, armas contra o crime e a corrupção

Equipe BR Político

Por Cila Schulman*

Está aberto até o dia 3 de janeiro o leilão para empresas interessadas em desenvolver um sistema biométrico, em parceria com o governo da Índia, para criar o maior projeto de reconhecimento facial do mundo. A ideia parece ousada e é. Não apenas pelo desafio de integrar milhares de dados de diferentes bases do país, quanto pelo arrepio que esse tipo de iniciativa traz com relação ao mau uso das informações pelos governos ou empresas.

Mas o projeto está andando e um dos motivos é que a capital, Nova Deli, já tem uma experiência positiva aprovada pela opinião pública. Desde 2018, a cidade localizou, através do reconhecimento facial, mais de 10 mil crianças desaparecidas. Histórias como a retratada no filme Lion, uma jornada para casa, em que o garoto escapa do tráfico de pessoas e da escravidão e, com uso de outra ferramenta, o Google Maps, encontra a sua família original.

Avança também por causa das altas taxas de criminalidade e do baixo número de policiais no país, obstáculos que o governo promete enfrentar com o uso da tecnologia. E torna-se naturalmente “o maior do mundo” pelo tamanho da população da Índia, mais de 1.3 bilhão de pessoas. Número superado apenas pela vizinha China, que trabalha para ser líder em inteligência artificial até 2030, em um mercado onde apenas o reconhecimento facial pode movimentar US$ 9,6 bilhões em 2022. Um cálculo da empresa de inteligência de dados IDC prevê que até 2022 a China poderá ter cerca de 2.76 bilhões de câmeras de segurança, ou duas por habitante.

A mesma China que, com uso de tecnologia e de muito controle estatal, realiza o maior (de novo) programa anticorrupção do mundo. Em 15 de novembro de 2012, ao assumir a secretaria-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping anunciou uma agenda anticorrupção tão imensa que puniria “tigres e moscas”, ou seja, desde militares de alto escalão até servidores locais. De fato, nestes sete anos, bem mais de 1 milhão de pessoas já foram denunciadas, incluindo 120 mil “tigres”, alguns integrantes do poderoso Comitê Central.

Ao examinar as razões para o sucesso do plano chinês, não dá pra esquecer da mão dura que o governo de lá exerce sobre a população, nem da possibilidade de que muitas das punições sejam na verdade expurgos, com funcionários acusados injustamente. Ou que o plano seja mais para propaganda, com objetivo de atrair grandes empresas afugentadas pela fama corrupta do país. Ou ainda que seja mais uma forma de manter a população fiel aos preceitos do partido. E que muitas das denúncias não tenham nada a ver com algoritmos que identificam padrões ou preveem indicadores e sim com simples deduragem de colegas.

Seja como for, com o mundo andando numa velocidade muito acelerada no caminho do 5G e da indústria 4.0, é natural que em todas as partes surjam possibilidades de uso da tecnologia para combater pequenos e grandes crimes. Exemplos, apenas de aplicativos, são dezenas, aqui e no exterior: na esteira do “I paid a bribe” (Eu paguei uma propina), que desde 2010 mapeia e combate corruptos na Índia, surgiram outros como o “Bribespot”, do Camboja, o “Sakker el Dekkene”, no Líbano, o “Bribe Market”, na Romênia, o “Yo di un moche”, no México. Ou o “Detector de Corrupção”, aplicativo brasileiro premiado por revelar os processos dos candidatos na Justiça por reconhecimento facial. Na maioria destes aplicativos a privacidade do cidadão, inclusive a do denunciado, é respeitada, mas serve ao objetivo de mapear e jogar luz sobre o problema.

Apesar da criatividade, da dedicação de setores da sociedade e do governo, e da gritaria nas redes sociais, corrupção é um monstro de muitas garras, difícil de ser domado. Levantamento dos indicadores de confiança, medidos mensalmente pelo IDEIA Big Data, mostram que após 11 meses do governo Bolsonaro, a opinião pública segue polarizada sobre a maioria dos temas. O que persiste é que corrupção continua a ser o maior problema do país (para 33%), seguido de emprego, com 31% (um aumento de 4 pontos com relação a outubro).

O fato de a corrupção ser citada como o maior problema afeta a escolha da principal prioridade para o governo federal e para o Congresso Nacional: 33% citam o endurecimento das leis e penas contra crimes de corrupção, crimes violentos e organizações criminosas como a pauta mais importante a ser debatida. Desde a campanha eleitoral, o recado é o mesmo: corrupção é uma questão que precisa continuar a ser enfrentada pela própria política (e também pela tecnologia e por todos).

*É jornalista com especialização em gestão política pela George Washington University, professora convidada de cursos de formação política e trabalha com políticas públicas e campanhas eleitorais desde os anos 1980. É vice-presidente do IDEIA Big Data.

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