Imagem da Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Oposição brasileira ainda não entendeu a amplitude da chapa Biden e Kamala

Marcelo de Moraes

É natural que os opositores do governo de Jair Bolsonaro comecem a se mover politicamente pensando em 2022 depois da vitória de Joe Biden nos Estados Unidos. Se Donald Trump, modelo de inspiração do presidente brasileiro foi derrotado, por qual motivo isso não poderia acontecer também com Bolsonaro? E a inspiração seguida é a de tentar montar uma candidatura com o mesmo perfil “conciliador”, vitorioso com Biden, entre as diversas forças políticas nacionais. Mas, pelas primeiras movimentações, reunindo apenas nomes que pertencem a linhas políticas semelhantes, talvez a tarefa seja mais complicada do que parece.

Joe Biden e Kamala Harris em coletiva de imprensa quando ainda eram candidatos. Foto: Olivier Douliery/AFP

E, aparentemente, a oposição brasileira não entendeu ainda a amplitude da aliança que os Democratas construíram para derrotar Trump. Para que Biden triunfasse, houve um longo e muito bem costurado processo de pacificação interna entre os Democratas. Que passou por conversas e concessões feitas por políticos importantes que tinham o objetivo comum de impedir uma nova vitória de Trump. E, nessa articulação, teve fundamental importância a entrada de Kamala Harris, mulher e negra, na vaga de vice de Biden.

No Brasil, as primeiras conversas feitas em torno da construção de uma candidatura alternativa a Bolsonaro começam mostrando uma certa dificuldade de se compreender que o espectro político e social englobado por essa aliança, em tese, deveria abrir o leque dos grupos e correntes participantes. Essa semana foram reveladas as primeiras conversas envolvendo o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro e o apresentador Luciano Huck, numa eventual dobradinha. Já torpedeada antes mesmo de nascer, a chapa contaria com dois nomes, sem dúvida, de apelo popular, mas com perfil que tende a agradar muito mais ao eleitorado conservador do que aos chamados progressistas.

Isso mostra que falta ainda muita coisa para que essa conversa engrene. E, verdade seja dita, boa parte da esquerda, liderada pelo PT, também demonstra baixo interesse em ver esse tipo de negociação avançar. Mas tem muita gente interessada nessa articulação – da esquerda e da direita. Só que o rumo da prosa precisa mudar. E se expandir.

Alianças amplas desse tipo já funcionaram no Brasil em outros momentos, justamente quando os planetas alargaram seus horizontes. Lula conseguiu ser eleito pela primeira vez em 2002 quando teve como vice José de Alencar, numa chapa que reuniu um ex-operário e sindicalista com um gigante do setor da indústria têxtil. Nas três tentativas anteriores, Lula perdeu tendo como vices José Paulo Bisol (PSB), Aloizio Mercadante (PT) e Leonel Brizola (PDT), todos de esquerda como ele.

Já em 2010, a montagem da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer seguiu a noção de amplitude – a briga posterior é outra história -, juntando uma mulher de esquerda com um representante do centro. Novamente venceu e foi reeleita em 2014.

Essa fórmula já funcionou antes. Pode funcionar de novo. Inclusive a favor de Bolsonaro, que também pode tentar ampliar o alcance de sua candidatura trocando seu vice, o general Hamilton Mourão. Nessas conversas, uma das ideias seria a de ter uma mulher na chapa, como as ministras Damares Alves e Teresa Cristina. Claro que ainda é muito cedo, mas esse debate ainda não apareceu entre os opositores do presidente. O que falta para incluir nessas discussões sobre candidaturas mulheres como a senadora Simone Tebet a ex-ministra Marina Silva, a deputada estadual Manuela D’Ávila ou a prefeita Teresa Surita, por exemplo, entre tantas possibilidades?

Ainda faltam dois anos para a eleição de 2022, o que, em política, equivale a quase cem anos. E, repetindo, as conversas estão apenas no começo. Mas, se o movimento tiver, realmente, interesse de avançar na direção dessa espécie de “aliança nacional contra Bolsonaro”, precisará agregar forças que ampliem sua representatividade. Do contrário, corre o risco de apenas facilitar a manutenção da polarização entre direita e esquerda vista em 2018.