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por Marcelo de Moraes

Os recados do porta-voz: ‘O poder inebria, corrompe e destrói’

Equipe BR Político

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Sem citar nomes, os ex-porta-voz da Presidência Otávio do Rêgo Barros mandou uma série de recados e fez críticas indiretas ao governo do presidente Jair Bolsonaro em artigo publicado na terça-feira, 27, no jornal Correio Braziliense, a começar pelo título: “Memento Mori”, expressão em latim que significa algo como “lembre-se de que você é mortal”.

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rego Barros, nesta terça

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rego Barros, nesta terça Foto: Reprodução/TV BrasilGov

Rêgo Barros foi exonerado do cargo no último dia 7, após meses de isolamento no governo. Em agosto, o governo já havia anunciado que o posto de porta-voz da Presidência seria desativado.

No texto, o general criticou auxiliares presidenciais que se comportam como “seguidores subservientes”. Ele ainda afirmou que o poder “inebria, corrompe e destrói”.

“Os líderes atuais, após alcançarem suas vitórias nos coliseus eleitorais, são tragados pelos comentários babosos dos que o cercam ou pelas demonstrações alucinadas de seguidores de ocasião”, escreveu Rêgo Barros.

“O escravo se coloca ao lado do galardoado chefe, o faz recordar-se de sua natureza humana. A ovação de autoridades, de gente crédula e de muitos aduladores, poderá toldar-lhe o senso de realidade. Infelizmente, nos deparamos hoje com posturas que ofendem àqueles costumes romanos”, escreveu o ex-porta-voz do governo, com diversas referências ao Império Romano.

“É doloroso perceber que os projetos apresentados nas campanhas eleitorais, com vistas a convencer-nos a depositar nosso voto nas urnas eletrônicas, são meras peças publicitárias, talhadas para aquele momento. Valem tanto quanto uma nota de sete reais. Tão logo o mandato se inicia, aqueles planos são paulatinamente esquecidos diante das dificuldades políticas por implementá-los ou mesmo por outros mesquinhos interesses”, escreveu Rêgo Barros.

Segundo o ex-porta-voz, “os assessores leais – escravos modernos – que sussurram os conselhos de humildade e bom senso aos eleitos chegam a ficar roucos”. Em seguida, ele passou a criticar os auxiliares que concordam com tudo. “Alguns deixam de ser respeitados. Outros, abandonados ao longo do caminho, feridos pelas intrigas palacianas. O restante, por sobrevivência, assume uma confortável mudez. São esses, seguidores subservientes que não praticam, por interesses pessoais, a discordância leal”.

Assim como Rêgo Barros, no início da semana, representantes das Forças Armadas mostraram seu desconforto com a enquadrada que Jair Bolsonaro deu no ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, na questão da compra da vacina Coronavac. Eles criticaram a fala de Pazuello de que “um manda, outro obedece”.

“A população, como árbitro supremo da atividade política, será obrigada a demarcar um rio Rubicão cuja ilegal transposição por um governante piromaníaco será rigorosamente punida pela sociedade. Por fim, assumindo o papel de escravo romano, ela deverá sussurrar aos ouvidos dos políticos que lhes mereceram seu voto: – Lembra-te da próxima eleição!”.