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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Otavio Fakhoury: ‘Querem fazer um parlamentarismo branco na marra’

Vera Magalhães

O BRP fez uma entrevista de 15 minutos, gravada, com o investidor e empresário Otavio Fahoury, que integra o conselho editorial do site Crítica Nacional e é um dos coordenadores do grupo Avança Brasil.

Em grupo de WhatsApp batizado de Mkt Bolsonaro, ativo desde setembro de 2018, ele disse no último dia 21 estar disposto a custear caminhões de som para os atos em favor do governo no próximo dia 15. Ele repetiu o argumento de que as manifestações são a favor do governo, e não contra o Congresso, mas fez pesadas críticas a setores do parlamento e disse que a população tem o direito de ir às ruas para “exigir” a manutenção do veto de Jair Bolsonaro a uma emenda que ampliou o caráter impositivo do Orçamento, pois estaria em curso uma tentativa de golpe de setores do Centrão para implementar um “parlamentarismo branco na marra”.

A seguir a íntegra da entrevista:

BRP – Na conversa a que tive acesso, no grupo Mkt Bolsonaro, você fala que está disposto a pagar quantos caminhões forem para irem ao protesto no dia 15, que vai convocar todos os seus contatos, porque você teria informações de Brasília que mostrariam uma tentativa de derrubar o governo. Eu gostaria de saber se você de fato vai fazer isso, se estava só desabafando, do que se trata.

Otavio Fakhoury – As informações não são informações de pessoas de governo, são conversas de pessoas que moram lá, que circulam. Não tem nenhuma fonte de governo, lá de dentro, assim, digamos, que tenha me passado nada. Mas de pessoas que eu conheço que vivem o mundo político a gente tem informações de que estão querendo dar um golpe branco, de votar um parlamentarismo na marra. A pessoa foi eleita para exercer o Poder Executivo e estão querendo tirar essa prerrogativa dela. Entendeu?

BRP – Quem seriam esses? Os próprios parlamentares?

Fakhoury – Não é uma instituição, não é uma instituição. Seriam pessoas, entendeu? O que a gente ouve é que são pessoas. Pequenos grupos dentro do Centrão, que estariam tramando isso. Isso daí é o que está sendo falado. Falaram de um jantar entre Maia, Alcolumbre, Gilmar Mendes. Isso tudo foi divulgado. O Antagonista inclusive publicou esse jantar. Não sei se você deve ter visto.

BRP – Vi, claro. Já houve jantar entre essas pessoas e o presidente, também. Na casa do próprio Alcolumbre, né?

Fakhoury – Sim, inclusive o presidente condecorou, o presidente condecorou semana passada os dois. Maia e Alcolumbre. Também confere essa informação.

BRP – Essa sua disposição de financiar caminhões era um desabafo, era…

Fakhoury – Eu sempre fiz isso, Vera. Caminhões eu sempre financiei. Desde a campanha do impeachment eu ajudei a financiar caminhões, com o meu dinheiro, dinheiro do meu trabalho, e durante a campanha eleitoral também.

BRP – Tá. Você está ciente de que tem um secretário do Ministério da Economia neste grupo?

Fakhoury – Hmmm… Não sei… Quem que é o secretário? Ah, o Carlos Alexandre da Costa? Esse grupo foi montado antes da campanha. Nunca mais vi ele se manifestar. Às vezes ele coloca coisa lá, mas só.

BRP – Às vezes ele coloca coisa inclusive referente ao ministério, ou não?

Fakhoury – Não. Ele coloca… quando dá alguma informação pública de divulgação ele coloca. Faz tempo que ele não coloca nada, mas quando coloca é divulgação.

BRP – E por fim: você acha que esse ato é contra o Congresso ou é a favor do governo e a favor do presidente?

Fakhoury – Eu tenho certeza de que é um ato a favor do governo, a favor do presidente, que não é contra nenhuma instituição. Isso eu posso te dizer. Não é contra instituição nenhuma, nem contra o Congresso. Você pode abrir aspa e me citar nisso aí.

BRP – Nisso tudo eu estou disposta a te citar. Estou ligando para te ouvir como outro lado mesmo. 

Fakhoury – Exatamente. Não tem nenhuma informação de governo, de pessoas importantes, em posição de governo. É informação de pessoas que circulam por lá, não são pessoas de governo. Não vou dizer quem são mas não são pessoas que ocupam cargos.

BRP – Você ainda faz parte do board de investidores do Crítica Nacional, ou não mais?

Fakhoury – Sim, faço parte do board de investidores do Crítica Nacional. Faço parte do conselho do Avança Brasil também. [interrupção da ligação] Como eu conheço os organizadores da manifestação, não é contra nenhum dos Três Poderes, e sim a favor da instituição do Poder Executivo, que nós elegemos, inclusive em defesa também das instituições. [falha na ligação] Se pessoas dentro do Congresso usarem as prerrogativas do Congresso para usurpar o poder executivo que não é de competência do Congresso nós como eleitores podemos manifestar nosso repúdio a pessoas que venham a fazer isso. Isso se você for verificar as redes é o que está na boca das pessoas. Ninguém quer fechar Congresso, ninguém quer derrubar ninguém, ninguém quer derrubar poderes constituídos. Entendeu?

BRP – Ótimo. Tá ótimo, então.

Fakhoury – O que a gente quer, o que a gente quer é passar a mensagem [interrupção na ligação] para quem está lá para cada um cuidar da sua própria atribuição.

BRP – Mas não é atribuição do Congresso ajudar a gerir o Orçamento? Isso está na Constituição. Inclusive, o Orçamento impositivo foi aprovado com votos favoráveis do Eduardo Bolsonaro, do Flávio Bolsonaro, da Carla Zambelli, de vários deles.

Fakhoury – Exatamente. Mas foi aprovado com percentual pequeno, certo? Agora eles estão querendo subir para 30, 40%. Então nós como cidadãos vamos pedir, vamos exigir que o Congresso mantenha o veto do presidente, que o presidente vetou essa subida, foi vetado, então a gente tem todo o direito e ir para a rua exigir, como eleitores e como pessoas que colocamos aí, eu me incluo na maioria que colocou o presidente Bolsonaro no poder, a gente quer que o Congresso respeite o veto do presidente.

BRP – Mas não é prerrogativa do Congresso derrubar veto de presidente?

Fakhoury – [interrupção] Sim! Mas o povo não pode se manifestar, Vera? O povo tem voz. Se a pessoa quer ir pra rua manifestar que ele é a favor do veto do presidente ele pode. Essa é a pauta da manifestação. As pessoas vão pedir, vão exigir, vão clamar, sei lá, o termo que você quiser usar. Eu tô aqui falando com você, Vera, e veja que engraçado: eu tô olhando pro Capitólio, aqui em Washington. Eu tô [interrupção] A gente vê paralelos em todo lugar com o que está acontecendo.

BRP – Verdade. Muitos.

Fakhoury – É um direito. As pessoas têm direito de ir para a rua pedir tudo que elas quiserem, desde que não seja algo criminoso, né? Não pode ser um pedido criminoso. Não quero pedir para ninguém matar ninguém, nem fazer um ato hostil contra o outro. Agora, pedir, exigir, demandar que a vontade da maioria seja atendida isso não tem nada demais. A gente vê as pessoas na rua pedindo cada coisa, não é? Então é isso que vai ser pedido no dia 15. Ninguém tá pedindo pra fechar Congresso, graças a Deus, ninguém está pedindo que haja um Poder só. A gente está pedindo que haja Três Poderes. Agora, a gente elegeu o Poder Executivo para ser o governante, o Legislativo foi eleito para legislar, não para governar. Se a gente quiser o parlamentarismo faça, faz um plebiscito e vamos votar o parlamentarismo. Se o povo quiser vai ser parlamentarista, vamos mudar os poderes executivos para o presidente da Câmara. Agora, não foi esse o caso, né? O Poder Executivo tem a função de alocar o Orçamento, e tem  8% que foi dado ao Legislativo alocar. Agora, se o Legislativo for alocar todo o Orçamento, então o Executivo está lá para quê?

BRP – Quando você fala em custear caminhões você está falando em caminhão de som, certo?

Fakhoury – Caminhão de som, caminhão de som. Não tô é escavadeira, não. Escavadeira a gente deixa pro pessoal do Cid Gomes [risos de parte a parte].

BRP –  Minha dúvida é se seriam caminhões que são usados muitas vezes para obstruir estradas, mas tudo bem.

Fakhoury – Não, não. Quem gosta de obstruir estrada e queimar pneu é a esquerda. A gente não fecha nada. A gente faz ofício para a polícia, fecha a avenida Paulista ordenadamente.

BRP – Quando os caminhoneiros pararam o país em 2018 não foi de esquerda, né? Foi uma manifestação inclusive com o apoio…

Fakhoury – Eu fui contra. Eu fui contra. Inclusive se você for buscar no Crítica Nacional, que eu faço parte do conselho (além de colaborador financeiro, existe um conselho editorial, com outras pessoas, e eu faço parte desse conselho). Num editorial nós inclusive fomos contra essa grave.