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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Para Volpon, PIB do 2º trimestre será ‘um show de horror’

Marcelo de Moraes

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Economista-chefe no Brasil do banco suíço UBS, Tony Volpon avalia que a queda de 1,5% do PIB no primeiro trimestre não é nada em relação ao que deverá acontecer no próximo trimestre. Ele lembra que o resultado de agora pegou “apenas o comecinho” do impacto da pandemia do coronavírus sobre a economia. “O segundo trimestre é que vai ser, realmente, um show de horror”, disse em entrevista ao BRPolitico.

O economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil, Tony Volpon

O economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil, Tony Volpon Foto: Amanda Perobelli/Estadão

BRP – O PIB do 1º trimestre registou uma queda de 1,5%. Como avalia esse resultado?

Tony Volpon – Ficou um pouquinho melhor do que a gente estava projetando, que era 1,8%. Mas por conta da volatilidade de tudo o que está ocorrendo, uma diferença de 0,3 não é nada. Você tem um grande impacto em serviços e consumo, que é exatamente o impacto do distanciamento social. Serviços caindo 1,6%, que é uma queda grande, lembrando que a economia brasileira, basicamente, tem 60% de serviços, é o grosso da atividade econômica. E o consumo caindo 2%. Já agrícola e investimentos foram positivos. Acho que isso é bem a cara dessa crise. Uma crise que pega exatamente os dois grandes componentes do PIB. Comércio, por exemplo, é uma parte muito importante em serviços. E as lojas fecharem, sem dúvida, provoca uma queda de receita desse setor. E o consumo também cai porque as pessoas estão tendo de ficar em casa. E consumo, normalmente, é o fator menos volátil do PIB. Isso mostra a natureza desse choque.

É uma queda na economia com um perfil diferente de outras crises?

Fazendo uma comparação com a recessão de 2014-2016, aquela tinha uma cara mais tradicional, onde a grande volatilidade veio da queda de investimentos. O consumo caiu, mas muito pouco em relação a investimentos. O investimento é uma parte menor na economia, especialmente no Brasil onde a gente investe pouco, mas é muito mais volátil. Ele vai para cima, vai para baixo. É quem tem a grande volatilidade. Já o consumo é meio Titanic. Ele muda bem devagarzinho. Em geral, as pessoas tendem a não mudar os seus hábitos de consumo, se possível. Isso acontece se você perde seu emprego, tem uma grande queda de renda. Aí, você vai mudar. Algumas pessoas até se endividam mais para manter o consumo. Esse tipo de comportamento diminui a volatilidade do consumo. Em recessões normais, é isso o que você vê. Mas a situação de agora não é essa. Você tem uma coisa que está impactando muito o consumo.

E esse trimestre nem registrou o auge da queda…

Esses dados estão pegando só o comecinho do isolamento social. O segundo trimestre é que vai ser, realmente, o show de horror. Porque aí pega tudo. Esse de agora só pega um pouquinho, mas já está mostrando a sua cara nesses componentes, impactando mais serviços e consumo. E, de novo, consumo não costuma variar tanto. Então, ter uma queda de 2% é uma queda grande. Não sei a última vez em que a gente teve uma queda tão grande porque não é usual.

E qual poderá ser o tamanho da queda para o segundo trimestre?

Acho que a queda do segundo trimestre vai ser tipo 20%. A gente vai ver números e variações trimestrais que nunca existiram. A gente estima que o nível da atividade econômica em março e abril estava mais ou menos 20% abaixo do que estava em fevereiro.

E para o PIB do ano?

Antigamente, quando a gente estava fazendo a projeção de queda para o ano, que era de 5,5%, estávamos pressupondo que se começaria a ter um relaxamento dessas medidas a partir do meio de maio. Que era uma expectativa inicial, inclusive do governo de São Paulo, e isso foi sinalizado no final de abril. Quando a gente viu que isso não ia acontecer, porque teve repique de casos e se chegou até a uma discussão, que foi abortada, de se fazer um lockdown em São Paulo, nós adotamos um segundo cenário. E isso já estava no nosso relatório, que era um segundo cenário com abertura a partir de 15 de junho, no qual a gente previa uma queda do PIB de 2020 acima de 7%. E isso ainda não muda.

E quais são as perspectivas diante da possibilidade de início de retomada das atividades que estavam paralisadas?

Estão anunciando o início de uma abertura. Mas é tudo muito complicado. Porque é um País com extensão continental, muitos Estados. Todos um pouco diferentes. Um País do tamanho do Brasil é diferente. Aqui não é a Holanda, Bélgica, Dinamarca, que são muito menores, e você pode fazer uma política para o país inteiro e acabou. Aqui é um continente. Para Manaus você tem de ter uma coisa. Para São Paulo outra. Nessa situação, fica difícil você saber qual é a média do País em atividade econômica porque cada local tem uma importância diferente. Naturalmente, São Paulo tem muito mais peso. E, para simplificar o raciocínio, a gente tem meio que olhado o que acontece em São Paulo. Então, lá vão começar a abrir em junho. Se tiver uma abertura mais célere lá para 15 de junho, me parece que essa é uma boa estimativa.

E qual deve ser a melhor estratégia para que essa retomada seja mais robusta?

O que está faltando no Brasil, em todos os níveis, é uma questão de coordenação. Você tem uma situação heterogênea, onde tem lugares que estão numa situação muito melhor, outros não. O que seria benéfico é reconhecer que lugares que estão em melhor situação podem ter uma abertura mais rápida. Porque o que a gente sabe é que o impacto final sobre atividades e, mais importante no caso brasileiro, sobre a questão fiscal, e a gente está estimando um deficit primário para esse ano entre 12 e 14%. E que também é um número que não existe na história. Então, esse impacto vai depender da capacidade de você botar a economia para rodar de novo. Ok, num nível menor, muito machucado. Porque tudo isso desorganiza a economia, como toda recessão desorganiza a economia. Então, você precisa começar a reorganizar. Refazer os laços entre empregador e trabalhador, empresas e fornecedores, empresas e seus credores etc.. E isso demora tempo. Você não entra numa recessão e sai imediatamente. Até porque a razão primária do que causou a recessão pode até reaparecer. Então, pressupondo que não haja uma segunda onda que force você voltar a ter um distanciamento social radical, podemos pensar em agosto que todas as amarras do distanciamento social vão ser levantadas. Talvez num novo normal, onde algumas atividades ainda estarão muito controladas. Todo mundo usando máscara. Tudo aquilo que a gente sabe que vai acontecer. Não é exatamente uma volta ao passado, mas, pelo menos, não tem mais essa coisa de fechar todo o comércio.

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