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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

PCdoB precisou ‘mudar radicalmente de tática eleitoral’, diz presidente

Equipe BR Político

Na primeira eleição sem coligações para a disputa de cargos proporcionais, o PCdoB teve uma das reduções mais significativas de representantes eleitos entre os partidos do campo da esquerda em relação ao último pleito municipal. No primeiro turno, o partido perdeu 32,87% das cadeiras em câmaras municipais e 33,52% dos votos em candidatos a prefeito, sem contar os votos do segundo turno de 2020, que ocorre no dia 29. A queda seguiu o enfraquecimento de outras siglas da esquerda, como o PT. Porém principalmente em relação ao número de vereadores, o PCdoB teve uma curva descendente bem mais íngreme: neste ano, o partido de Lula perdeu apenas 8,21% das cadeiras, em comparação.

A presidente nacional do partido, Luciana Santos, que é vice-governadora de Pernambuco, conta que a sigla teve que mudar “drasticamente” de estratégia. O esforço deve continuar em 2022 para que a sigla consiga atingir a cláusula de barreira. Segundo ela, a conduta tradicional da legenda, afeita à formação de frentes amplas e coligações nas eleições, será canalizada para uma possível aliança nacional com a projeção recente de nomes do partido como o governador do Maranhão, Flávio Dino, e a candidata no segundo turno à prefeitura de Porto Algre, Manuela D’Ávila.

Ao BRP, ela avalia os resultados do primeiro turno da eleição municipal e as perspectivas futuras para o partido no cenário nacional.

A presidente nacional do PCdoB, Luciana Santos

A presidente nacional do PCdoB, Luciana Santos Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

BRP – Nesta eleição, o PCdoB teve uma queda significativa de representantes eleitos, principalmente no âmbito de vereadores. Mesmo em comparação a outros partidos de esquerda, como o PT, a redução da sigla foi mais significante. A que atribui esse fenômeno?

Luciana Santos – Atribuo a este momento em que estamos. Se existe um antipetismo, o anticomunismo recrudesceu, basta ver a atitude do próprio presidente da República, que se dirigiu à candidatura, por exemplo, de Manuela D’Ávila, que é uma das mais emblemáticas do Brasil. Nós fomos muito atacados e há uma ascensão desse tipo de pensamento conservador no Brasil. Então não é fora do esquadro ter queda. Seria estranho se a gente tivesse crescido num ambiente de ascensão do pensamento conservador. De qualquer forma, dentro dessas condicionantes nós estamos na cena. Numa conjuntura nova, não só política, como de legislação eleitoral, de uma lei autoritária, que obriga o fim da coligação, tivemos que no Brasil todo mudar de tática, formar chapa própria, que não era exigência de outras candidaturas, foi uma experiência nova para nós e conseguimos manter dois terços da votação das eleições de quatro anos atrás e ainda disputar no segundo turno uma capital importante. É um cenário em que estamos na cena da política nacional.

Considera essa curva perigosa à sobrevivência da sigla?

Na eleição de dois anos atrás nós não atingimos a cláusula de barreira. E por outro lado sempre achamos que essa legislação é autoritária, porque você não pode medir os partidos pelos posicionamentos apenas da disputa eleitoral. Somos um partido programático, com projetos claros e vivemos num ambiente de ascenção muito grande da extrema direita no Brasil com a vitória de Jair Bolsonaro. É natural que um partido com a nossa pauta sofra reveses. Até mesmo o PT, que governou o Brasil por 16 anos sentiu as repercussões da ascenção desse pensamento mais conservador e de direita no País. Eu acho até que, considerando o avanço da extrema direita no mundo e no Brasil, considerando que é uma eleição com fim de coligações, e portanto um aumento da dispersão das nossas forças, é uma queda dentro do esperado. Foi uma queda de um terço dos vereadores, mantivemos 45 prefeituras e o mais importante é que disputamos uma capital. O PCdoB entra no tabuleiro do cenário nacional com uma candidatura importante de Manuela D’Ávila em Porto Alegre. 

O fim das coligações proporcionais, então, teve um papel importante na redução da votação na sigla neste ano?

Sim. São dois fatores. Um mais subjetivo, político, de um momento de crescimento desse pensamento de direita no Brasil e de uma lei eleitoral que dificultou as alianças. Nós sempre fomos um partido com uma conduta de defesa de frentes amplas, de coligações e tivemos que mudar radicalmente de tática eleitoral para formar chapas próprias e enfrentar uma campanha anticomunista muito forte, que é real no Brasil.

Essa mudança de tática passa por uma ampliação de estratégias para a próxima eleição? Qual é o plano do partido para não encolher mais em 2022?

Sim. Vamos montar chapas a deputado federal e estadual. Temos um governador, Flávio Dino, vamos buscar um sucessor para ele, analisar outros Estados. A princípio vamos concentrar o esforço para poder eleger o sucessor de Dino no Maranhão e atingir os 2% da cláusula de barreira, fazendo um esforço hercúleo onde temos deputados e onde tem chance de eleger. No Rio Grande do Sul, na eleição de deputados certamente vamos ter. Estamos fazendo as contas de onde vai ser possível ter um quantitativo maior de deputados federais e até novas filiações. Se olharmos no País todo, já atingimos os 2% neste ano. Não deixa de ser um termômetro das possibilidades para 2022.

E acho que há uma tendência de mudança da correlação de forças. Um centro, centro-direita que ascende mais, sem ser a extrema-direita, com as posições da esquerda no combate. Não é qualquer coisa o PSOL disputar o segundo turno em São Paulo, ou Manuela em Porto Alegre. São cenários que revelam que, apesar da vitória de Bolsonaro dois anos atrás nós estamos vivos e fortes para novos embates ainda mais em um cenário econômico que aponta para o maior enfraquecimento dessa agenda antipovo de Bolsonaro.

Você mencionou Flávio Dino, que é citado como possível nome a uma chapa presidencial em 2022. O partido está visando essa possibilidade e considera formar uma aliança em torno do governador?

Essa é uma das hipóteses que estamos analisando. Mostra como a luta política tem muitas nuances. Mesmo um partido que não tem quantitativamente uma bancada na Câmara Federal pode ter nomes que têm estatura, capacidade política e que entram no cenário dos presidenciáveis. Flávio Dino é um desses. Temos outros nomes, mas sem dúvida que Flávio neste período mais recente tem sido um nome muito cogitado e até entrado nas pesquisas como possível da cena nacional, assim como foi com Manuela também como pré-candidata à Presidência, que acabou virando a vice de Fernando Haddad.

O nome de Dino vem atrelado à articulação por uma frente ampla de oposição a Bolsonaro. O partido considera ampliar o seu leque de siglas para possíveis alianças?

Em vários momentos de inflexão da história brasileira só foi possível sair das situações de impasse e até de defensiva política quando a gente foi capaz de se unir. Isso foi no colégio eleitoral, nas Diretas Já. Os momentos de virada só foram possíveis quando a gente foi para além da esquerda. E mesmo nos exemplos mais recentes da América Latina, com a Cristina Kirchner na Argentina, a frente do Uruguai, com Mujica, o próprio Lula, que quando virou presidente da República foi através de uma aliança ampla, todos esses são exemplos de que as saídas políticas para a esquerda passaram por isso. Nós perseguimos isso com muita determinação, porque o Brasil é um país plural em que a gente tem que respeitar e poder fazer grandes diálogos e pactos nacionais em torno da vida, da democracia, do emprego, do crescimento, ainda mais num país pós-covid, com indicadores de desemprego tão altos. Tudo isso exige um pacto para poder ativar a bandeira dos direitos e patriótica. São coisas que foram abandonadas completamente pela experiência de Bolsonaro no governo.

A conversa sobre a frente ampla tem envolvido nomes também ligados ao centro e à centro-direita, incluindo as tratativas de Luciano Huck das últimas semanas. O partido estaria aberto a se aliar com esses nomes mais distantes da posição do PCdoB no espectro político?

Ao defender frente ampla nós precisamos dialogar com todos os atores, também os do centro da política. O desfecho de qual candidatura vai sair dessa construção só o tempo dirá. Até o cenário que teremos daqui dois anos muitas águas vão rolar, não sabemos até que ponto Bolsonaro, sem a ajuda emergencial mantém indicadores de popularidade, como vai se comportar o centro da política daqui até lá. /Roberta Vassallo