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por Vera Magalhães e Marcelo de Moraes

Pesquisa reforça resistência de prefeitos em retomar aulas

Vera Magalhães

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Pesquisa Ibope realizada pelo jornal O Globo ajuda a entender e vai reforçar um dos fatores pelos quais os prefeitos hesitam em retomar as aulas presenciais: para 72% da população, as escolas só devem reabrir as portas quando houver a vacina para a covid-19.

O temor dos prefeitos, sobretudo os que vão disputar a reeleição em novembro, é que a retomada das aulas presenciais em outubro cause uma elevação do número de casos exponencial bem às vésperas da eleição, o que seria um fator explosivo para muitas candidaturas.

Isso, aliado à resistência dos sindicatos de professores em todo o País em retomar as aulas quando 1) a curva de casos ainda não baixou de forma consistente, 2) sabe-se que crianças são vetores de transmissão importante do novo coronavírus, e 3) países com bem menos casos que o Brasil que retomaram as aulas tiveram de recuar leva os prefeitos a terem uma postura mais conservadora que a de governadores e do governo federal em relação ao assunto.

O tema divide inclusive especialistas em educação. Entidades como o Todos pela Educação e a Fundação Lemann defendem o retorno das aulas sob o argumento de que os prejuízos educacionais e psicológicos para jovens e adultos serão duradouros e graves. Outros gestores da área argumentam que ainda não há variáveis que permitam retomar as aulas com segurança de que não haverá um novo pico de contágio, e consequentemente de mortes.

A pesquisa do Ibope foi feita com 2.626 pessoas nos 10 últimos dias de agosto. De acordo com o levantamento, 54% dizem concordar totalmente com a afirmação de que o retorno às aulas deve se dar apenas com alguma vacina aprovada, enquanto outros 18% dizem concordar parcialmente com essa afirmação.

A resistência à volta às aulas contraria inclusive, em parte, a polarização que tem reinado na análise de vários aspectos concernentes à pandemia: mesmo entre quem se diz de direita, 60% só querem a volta às aulas com uma vacina. O percentual é bem menor que o da esquerda (87%), o que mostra que há, sim, uma influência do discurso negacionista, mas ainda assim é uma maioria fora da margem de erro querendo esperar a vacina. No Sul do País, onde a aprovação de Jair Bolsonaro é alta, 77% são contra o retorno das aulas presenciais.

Na cidade de São Paulo, onde o prefeito, Bruno Covas, disputa a reeleição e tem se oposto ao plano do governo João Doria, do mesmo partido, de retomar as aulas em 7 de outubro, 71% são contra o retorno das atividades presenciais nas escolas. Isso deve reforçar o embate entre a prefeitura da capital e o governo. O secretário Rossieli Soares tem sido um ferrenho defensor do retorno às aulas.

A pesquisa evidencia que a questão do momento do retorno às aulas é uma das decisões mais difíceis relacionadas à pandemia, justamente pela falta de consenso entre especialistas das áreas de educação e saúde e de intensas pressões em sentido oposto de pais e professores, escolas particulares e a rede pública.

Estudos da ONU mostram que haverá enorme prejuízo educacional, social e psicológico para as várias faixas etárias, com maiores perdas para os alunos (e países) mais vulneráveis. Por outro lado, estudo recente da universidade de Harvard mostrou que o potencial de transmissão do novo coronavírus por crianças é infinitamente maior que o anteriormente estimado.

Para completar o imbroglio, a crença mostrada pela pesquisa do Ibope parece ser na iminência da vacina, o que está longe de ser garantido. Embora várias delas estejam em estágio avançado de pesquisa, ainda dependem de comprovação, aprovação por órgãos sanitários e médicos e, principalmente, produção e distribuição em grande escala, que também estará condicionada às condições políticas e econômicas de países desenvolvidos de chegarem na frente para garantir lotes das vacinas.

 

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